
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores usam togas de púrpura, bordadas,e pulseiras com grandes ametistas e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
É que os bárbaros chegam hoje,tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradoresderramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hojee aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm e gente recém-chegada das fronteiras diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
terça-feira, 18 de janeiro de 2011


ELOGIO DA LEVEZA
Affonso Romano de Sant'Anna/Tempo de delicadeza
Esse filme sobre a vida de Vinícius de Moraes , que está surpreendendo pelo sucesso de público , me fez pensar sobre a necessidade que temos de recuperar a leveza . Houve um tempo , não faz muito , há uns 30 ou 40 anos , em que éramos mais leves . Depois vieram os “ anos de chumbo ” e desde então estamos mais para a quaresma do que para o carnaval .
Vinícius, por exemplo , era leve , tão leve , que chegava a ser leviano na gravidade de suas paixões . Tom Jobim era leve . Vinícius e Tom eram leves e engraçados . Ser leve e ser engraçado era uma característica daquela geração .
Otto Lara Rezende era leve . Era um campeão do peso pluma . Não pesava a ninguém . E vou lhes dando outros exemplos . Antônio Maria, apesar de bem gordo , era leve , basta ler também suas crônicas , como essas no volume “Seja feliz e faça os outros felizes ”(Ed. Record). Quer ver outro dessa turma levinho e engraçado- Stanislaw Ponte Preta , vulgo Sérgio Porto .
Posso alongar a lista : Ronaldo Boscoli e Miele, mais uma dupla leve . As estorinhas deles convencem a gente que a vida é uma gafe permanente e divertida. Fernando Sabino também ia por aí . Se a gente o encontrava tinha sempre noção de que ia achar graça em alguma coisa . O próprio Paulo Mendes Campos , mais retraído , era um contador de “ causos ” dele e dos amigos . Você podia estar com o Hélio Pellegrino, que sendo analista , hora nenhuma nos passava a idéia de que estava analisando nossas neuroses , não estava aí para julgar ninguém .
Com isto , as crônicas refletiam a leveza da vida . Não é que não houvesse drama e tragédia , mas as pessoas não eram baixo astral nem a crônica é como nos dias atuais uma coisa chata e pesada .
Nesses dias em que o filme sobre o Vinícius já estava passando eu tinha que fazer uma conferência sobre ele lá em Porto Alegre e acabei encontrando dentro de suas poesias completas um recorte do qual havia me esquecido totalmente. Era um texto recuperado por Genetton Moraes, que falava de três daqueles seres leves, levianos: Vinícius, Otto e Antônio Maria. Era o texto de uma entrevista dada por Vinícius ao Otto, para o Jornal da Globo, quando esse era também um jornal mais leve. Aliás, quando a televisão era mais leve, quando o pais era mais leve. Quando éramos mais leves e não sabíamos.
Vinícius narrou ao Otto que às vezes ele saía da boate Sacha’s de madrugada com o Antônio Maria e ficavam os dois andando pelo Leblon para farejar com curiosidade canina que caminhos os cachorros vadios da madrugada seguiam. Vejam, houve um tempo em que se podia andar angelicamente de madrugada pelas ruas do país para acompanhar franciscanamente cães vadios. E assim, chegaram ambos a Copacabana onde, de repente, viram um estranho aglomerado de pessoas na areia, às seis da manhã. Pensaram que era afogamento, mas perceberam que o grupo levantava ao mesmo tempo as pernas ou os braços. Eram ginastas.
Perplexos, Maria e Vinicius se dizem:-Devem ser nórdicos! E Maria que chamava sempre Vinícius de Poesia, diz:- “Poesia, vamos fazer aqui um juramento”. Qual juramento, indaga Vinícius. E Maria: “Vamos jurar que nós nunca faremos um gesto desnecessário”...
Foi uma geração de frasistas geniais. Não era só o Otto, que recebeu de Nelson Rodrigues a alcunha de “genial frasista de São João del Rei”. Eram todos frasistas. A vida, uma amizade, um amor por uma frase. Rubem Braga que vivia tartamudeando palavras, não pesava nada. E um dia quando alguém, talvez Danuza Leão, falava umas coisas pesadas sobre um ex-amante, Rubem advertiu: “Não cuspa no prato que te comeu”.
Essas pessoas eram muito o espírito de uma geração, de uma época do Rio e do Brasil. Também com um presidente leve como Juscelino, que de tão leve vivia valsando e que botou em aviões uma cidade inteira levando-a para o planalto central, com ele tudo ficava mais fácil e mais leve.
Dedico esta crônica de Affonso Romano aos meus amigos blogueiros que sempre tem uma palavra de carinho.Obrigada!
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
foto: Eliete CascaldiJohn Donne, poeta inglês do século XVI
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

o meu pai,a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Achei esta crônica muito interessante:divertida e ...Jornal: O Estado de São Paulo, 9/01/10
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O vasinho com flores na janela e uma vaquinha pastando.
É arco-íris, o canto das cigarras e o barquinho sendo levado pela enxurrada.
O que me faz feliz é pipoca, biju, algodão doce e todas as guloseimas da infância.
É escutar: “mãe, cheguei”; música popular brasileira e a banda tocando no coreto.
O que me faz feliz é visitar minha memória e lembrar do primeiro sapato de salto alto, do vestido de debutante e o dia do meu casamento.
Ah! tantas coisas vividas e outras que imagino viver ( ainda este ano), como por exemplo, o casamento da minha filha,me faz muito feliz.
domingo, 9 de janeiro de 2011
O que faz você feliz? 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Trecho de Veneno Antimonotonia de Martha Medeiros
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
foto:Eliete Cascaldi Sobreiro (estrada para Silvianópolis/M.G.Estar doente é minha única maneira de provar
que estou vivo. É por isso que frequento o hospital, vezes e vezes, a exibir minhas maleitas.
Só nesses momentos, doutor, eu sou atendido.
Mal atendido, quase sempre. Mas nessa infinita fila de espera, me vem a ilusão de me vizinhar do mundo.
Os doentes são a minha família, o hospital é o meu tecto e o senhor é o meu pai, pai de todos os meus
pais".
(Mia Couto, In O Fio das Missangas)
sábado, 1 de janeiro de 2011
http://abstratosdenelsonaharon.blogspot.com/Janeiro é o primeiro mês do ano da segunda década do terceiro milênio.
Parece ser impossível, uma utopia!
Mas é realidade; estamos no ano de 2.011.
Não há naves espaciais, muito menos Barbarella, mas pode ser uma Odisséia.
Se desejarmos com força e agirmos com precisão, poderemos fazer, a partir de agora, uma jornada para dentro de nós mesmos, com o propósito de chegar aonde bate forte o nosso coração e, assim, resgatar não só o nosso bem-estar, mas alterar o mundo onde vivemos.
Podemos esperar que no decorrer do ano sejamos influenciados pelos conselhos do espírito prático (o mandatário dos tempos modernos) gritando em nossos ouvidos:
“Que besteira, precisamos cair na estrada com esperteza, ser práticos, objetivos, acreditar nas evidências e desconfiar de tudo e de todos, se quisermos vencer”.
Mas se formos só um pouquinho compreensivos com nossa alma, poderemos ouvir o espírito lírico, que soprará um trechinho da música de Gonzaguinha
http://abstratosdenelsonaharon.blogspot.com/ nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos.
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração”
Uma jornada fascinante e única, em que o herói, ao fazer o seu caminho, enfrentando todos os elementos necessários para o seu crescimento e amadurecimento, volta para casa vitorioso e forte , pois o seu poder não só o beneficia como também a seus semelhantes ?
Uma vida bem vivida e orientada pelo espírito do amor, (que segreda tão baixinho, como alerta, Cecília Meireles) é aquela que subordina os desejos egoístas em prol de um valor maior, que conta com doses frequentes de ousadia e paixão, e valoriza as amizades em qualquer ocasião.
“Principalmente por poder voltar
a todos os lugares aonde já cheguei
pois lá deixei um prato de comida
um abraço amigo, um canto pra dormir e sonhar”
É urgente que façamos deste ano, um ano NOVO de verdade; que nossos desejos de harmonia, paz e unidade se concretizem em ações , pois a vida convoca-nos à grande lição:
“Aprendi que se depende sempre
de tanta , muita, diferente gente
toda pessoa sempre é as marcas
das lições diárias de outras pessoas.
E é tão bonito a gente entende
que a gente é tanta gente aonde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
que nunca está sozinho por mais que pense estar”.
O caminho transfigura-nos quando não somos dominados pelo espírito da hipocrisia que nos faz falar o que não sentimos, fazer o que não preconizamos e calar quando deveríamos berrar.
O caminho transfigura-nos quando não somos dominados pelo espírito prático e utilitário, cujo valor está no uso e benefício de algo ou alguém, e no estabelecimento de relações frias e distantes.
O caminho transfigura-nos quando passamos a viver nossos papéis sociais com responsabilidade e envolvimento emocional profundo, para que possam ser certidões do nosso comprometimento verdadeiro e humano com nossos semelhantes.
O ano de 2011 só será um ano realmente NOVO , quando inaugurarmos um novo calendário - o do Tempo da Graça , cuja pauta seja o amor, prevalecendo em todos os dias comuns e não apenas em datas especiais e que o marcador seja a honestidade em cada um de nós.
Inspiração: Letra e Música: Caminhos do coração (Gonzaguinha)
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Vai, ano velho, vai de vez,vai com tuas dívidas e dúvidas, vai, dobra a ex-quina da sorte, e no trinta e um,à meia-noite, esgota o copo e a culpa do que nem me lembro e me cravou entre janeiro e dezembro.Vai, leva tudo: destroços,ossos, fotos de presidentes,beijos de atrizes, enchentes,secas, suspiros, jornais.Vade retrum, pra trás,leva pra escuridão quem me assaltou o carro,a casa e o coração.



domingo, 26 de dezembro de 2010

Affonso Romano de Sant'Anna
Vou dizer uma coisa banal: sem o mito do amanhã não existiríamos.
Digo e assumo essa fundamental banalidade. Não fora o amanhã secaríamos à beira dos caminhos. O amanhã é que fermenta o hoje, que fermenta o ontem.
Por que migram as aves sobre os oceanos?
Por que os peixes sobem cachoeiras procurando as nascentes do futuro?
Os animais, aves e insetos ao redor, nos dão lição de aurora.
Ganhei duas crisálidas de borboletas. Aprendi a ver nesses casulos as asas que se desenharão em algum céu. Seguro nas mãos essas formas vivas disfarçadas de vegetal. Imagino o futuro dessas células. Mas tal imaginação não é privilégio só meu. No meu quarto, dependuradas num vaso de samambaia, duas crisálidas me contemplam a mim. Elas sabem, mais que eu, a que horas duas estupendas borboletas sairão do útero do tempo para esbaterem contra as vidraças do dia.
A trepadeira no terraço, que avança dois-três contímetros cada jornada, seguindo o fio de náilon do tempo, me ensina a direção das coisas. O vento sopra pelas costas de suas folhas e ela navega verde na pilastra como uma caravela reinventando seu concreto mar.
O suicida é o que decretou a morte do amanhã.
O idealista é o viciado que toma o amanhã nas veias, aspira-o, esfrega-o nos olhos e gengivas.

No entanto, dizemos: "está difícil", "a vida está dura", "assim não é possível", "esse país não tem mais jeito", mas no dia seguinte, amarfanhados, caminhamos junto ao mar para saudar a aurora.
Sábia é a natureza, nos dizem. Olhai os lírios do campo, eles passam a vida tecendo e fiando a manhã. E o jardineiro que parece um perverso podador, tão-somente antecipa a floração da vida com suas lãminas de dor.
Em busca do amanhã as cobras perdem sua pele.
Penas caem na muda da plumagem airosa dos airões.
Cães ladram pressentindo o terremoto, que os homens sequer percebem. Os cães, quando uivam para a Lua, estão à sua maneira saudando o cio das madrugadas.
Em busca do amanhã uma nave passou por Marte e segue rumo a Urano.
Alguns pré-videntes já estão legislando a constituição do amanhã. E se acabarem com o amanhã aqui, ele continuará com outros seres menos ferozes em outras galáxias, mais humanas, talvez.
É assim que Penélope tecia e destecia seu amor nos fios da madrugada esperando Ulisses atracar na enseada.
É assim que Sísifo- o mais otimista dos deuses condenados- sempre rolava montanha acima a pedra que sempre rolava montanha abaixo.
É assim que Fênix- a fabulosa ave queimada nos desertos da Arábia- renascia das próprias cinzas e cantava transfigurada.
Deus é o renovado amanhã.
O que fazem os amantes pelos bares e praias, junto às árvores de noturnas ruas e nos leitos secretos, senão cumprir o ritual de crença no amanhã.
E o ano mais uma vez termina. E estamos comendo e bebendo as horas que faltam e ansiando por um novo dia. Também são assim os primitivos, quando celebram o potlach. Vão destruindo os objetos, as memórias que ficaram para reinaugurarem um ano novo.

Oh, amanhã! Os que vão viver te saúdam.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

“Se você for poeta, verá nitidamente uma nuvem passeando nesta folha de papel.
A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não está aqui, a
folha de papel também não está. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel “intersão”.
Interser é uma palavra que ainda não se encontra no dicionário, mas se combinarmos o radical "inter" com o verbo "ser", teremos um novo verbo:
INTERSER.
Se examinarmos esta folha com maior profundidade, poderemos ver nela o sol. Sem o sol, não há floresta. Na verdade, sem o sol não há vida. Sabemos, assim, que o sol também está na folha de papel.O papel e o sol intersão. E se prosseguirmos em nosso exame, veremos o
lenhador que cortou a árvore e a levou à fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo.
Sabemos que o lenhador não pode existir sem seu pão de todo dia. Portanto, o trigo que se transforma em pão também está nessa folha de papel.
O pai e a mãe do lenhador também estão aqui.
Quando olhamos dessa forma, vemos que sem todas essas coisas, essa folha de papel não teria condição de existir.
de nossa percepção. Sua mente está aqui, assim como a minha.
É possível, portanto, afirmar que tudo está aqui nesta folha de papel.
Não conseguimos indicar uma coisa que não esteja nela – o tempo, o espaço, o sol, a nuvem, o rio, o calor.
Tudo coexiste nessa folha de papel. É por isso que para mim a palavra
interser deveria ser dicionarizada. “Ser” é “interser”. Não podemos simplesmente ser sozinhos e isolados.
Temos de interser com tudo o mais. Esta folha de papel é, porque tudo o mais é.
Imagine que tentemos devolver um dos elementos à sua origem. Imagine tentarmos devolver a luz do sol ao sol.
nada poderia existir. Se devolvermos o lenhador à sua mãe, tampouco teremos a folha de papel.
O fato é que esta folha de papel é composta apenas de elementos não-papel. Se devolvermos esses elementos que não são papel às suas origens, não haverá papel algum.
Sem esses elementos não-papel, como a mente, o lenhador, o sol e assim por diante, não haverá papel.
Por mais fina que esta folha seja, tudo o que há no universo está nela”.
Apontadora de Idéias
- Eliete
- São Paulo, Brazil
- "A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)
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