
Nunca reparastes, Teótimo, no ardor com as criancinhas se agarram às vezes ao seio de suas mães, quando têm fome? Vemo-las, resmungando, estreitarem e apertarem o peito, sugando o leite tão àvidamente, que até causam dor às mães. Mas, depois que o frescor do leite acalma de algum modo o calor apetitoso do seu peito, e que os agradáveis vapores que ele lhes envia ao cérebro começam a adormecê-las, Teótimo, vê-las-íeis fechar devagarinho os olhinhos, e ceder pouco a pouco ao sono, sem todavia largar o peito, sobre o qual não fazem ação alguma a não ser a de um lento e quase insensível movimento de lábios, pelo qual sugam sempre o leite, que engolem imperceptìvelmente: e fazem isso sem pensar, mas certamente não sem prazer; porquanto, se se lhes tira o peito antes que as tenha dominado o sono profundo, elas acordam e choram amargamente, testemunhando, na dor que sentem com a privação, bastante doçura terem sentido na posse.
Ora, o mesmo sucede com a alma que está em repouso e quietude diante de Deus; pois ela suga quase insensìvelmente a doçura dessa presença, sem discorrer, sem operar e sem fazer coisa alguma por qualquer das suas faculdades, senão só pela ponta da vontade, que ela mexe docemente e quase imperceptìvelmente, como a boca pela qual entra o deleite e o saciamento insensível que ela acha em gozar da presença divina. E, se se incomoda essa pobre criancinha e se lhe quer tirar o seio já que ela parece adormecida, ela bem mostra então que, embora durma para todo o resto das coisas, não dorme todavia para essa; pois percebe o mal dessa separação, e zanga-se com ele, mostrando com isso o prazer que, embora sem nele pensar, achava no bem que possuía” (São Francisco de Sales, Tratado do amor de Deus, l.6, c.9, p.313-314).