segunda-feira, 13 de setembro de 2010


- Aos velhos, a morte, aos jovens, o amor; a morte, uma única vez, o amor, infinitas vezes".
Eram pensamentos inesperados, mas isso o acalmou. De qualquer forma, não estava muito agitado.
A Casa das Belas Adormecidas de Yasunari Kawabata
um livro que vale a pena ler.


"O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança".
Memória de minhas putas tristes de Gabriel García Márquez, inspirado no livro de Yasunari

sábado, 11 de setembro de 2010

"AMIZADE EM TEMPO DE RISCO


A amizade voltou a ser fundamental. Os afetos recobrem a paisagem de cada época, variando em importância conforme o momento. Na globalização, tempo das relações transversais do laço social, a amizade volta a ocupar um lugar precioso. Ela nem sempre foi bem vista, no mundo industrial, por criar privilégios - "aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei". Trazer um amigo para participar de um contrato era mal visto. A amizade envolve o segredo, o que não combinava com a vida pública, cívica. Por outro lado, seria ingênuo apostar na opinião dos amigos: elogios não mereciam confiança. Preferia-se o juízo comum, frio de afeto. Hoje, a amizade se tornou selo de excelência. Em um mundo sem garantias, de imprevisão e da necessidade de criar, a amizade permite o passo em direção à convivência das diferenças. A amizade cultiva o que temos de incomum, mais além das críticas e dos elogios. Um amigo espera de nós o inusitado a cada encontro, e nos chama a animar a relação não pelo que é normal, mas pelas vias do nosso desejo.Hoje, é com o amigo que se quer o contrato. Precisa-se de ousadia em nossos pactos - no trabalho, nos projetos de um futuro que não apenas alimente, mas que tenha sabor. Saímos de um mundo de líderes para um mundo de decisores: o líder contava com padrões de comportamento; o decisor - quem se expõe a fazer um caminho nunca antes percorrido - conta (precisa contar) com um amigo.A amizade é o que sustenta o risco da decisão". Jorge Forbes

sexta-feira, 10 de setembro de 2010


Amoreira Van-Gogh

INFÂNCIA
Um gosto de amora
comida com sol.A vida
chamava-se"Agora".
Guilherme de Almeida.


Explicação do texto:
Antologia Comentada de Literatura Brasileira: Poesia e Prosa
Magaly Trindade Gonçalvez/Zélia Thomas de Aquino/Zina C. Bellodi(Organizadoras)
Este Kaikai é de profunda felicidade, porque confirma o que está na origem oriental desta forma: a possibilidade de uma expressão rica num espaço extremamente limitado, o que significa extrair da linguagem todo o seu potencial sugestivo. Neste caso, o que o kaikai comemora é uma imagem da infância, quando se come amora ao sol e a vida se resume ao momento presente.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010


Uma história ...

“Uma mulher compra uma xícara de capuccino e cinco biscoitos de nata num café do shopping, e senta-se numa mesa próxima para comê-los.Logo à sua frente está um senhor desconhecido, lendo uma revista. Ela prova o capuccino e tira um biscoito do pacote. Assim que começa a comer, o homem tira um biscoito do mesmo pacote para si.Descrente do que acaba de ver, ela come o primeiro biscoito e pensa no que fazer em seguida. Curiosa, ela pega um segundo biscoito. Confiante, o homem faz o mesmo, estampando um enorme sorriso no rosto enquanto saboreia o seu biscoito. Somente o autocontrole impede a mulher de protestar contra este autêntico cara de pau.Com apenas um biscoito sobrando agora, ela vai novamente ao pacote. Mas o homem é mais rápido. Com um sorriso e nenhuma palavra, ele quebra o biscoito que sobra ao meio e oferece o pedaço a ela. A mulher está inconformada. Ela então se levanta, pega sua bolsa e dirige-se rapidamente ao exterior do shopping rumo ao seu carro. Já no estacionamento, enquanto procura as chaves na bolsa, até deixa escapar uma pequena ofensa de seus lábios. É quando seus dedos acham, ao lado do molho de chaves, o pacotinho dos biscoitos que ela havia comprado no café, e está fechado, do jeitinho que a atendente lhe deu no balcão!”

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


Provérbio Chinês:

Um Caminho.......se não o percorres,nunca o findarás.

Um Negócio.........se o deixares,não prosperará.

Um Homem..........se não o educares,não será bom.

Um Sino...............se não o tocares,nunca soará.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


"A convivência de um casal favorece trocas e transformações. Se um dos dois tem hábitos saudáveis, pode influenciar o outro a parar de fumar, por exemplo. Quando a mudança vem valorizar quem muda, ela é positiva e desejada. Mas muitas vezes muda aquele que não deveria mudar. É comum alguém se afastar dos amigos ao se envolver com uma pessoa anti-social, quando o ideal seria que esta se dispusesse a fazer amizades.
O leitor poderá dizer que o erro é de quem escolheu abrir mão dos amigos, que essa não foi uma escolha inteligente. Na teoria é assim, mas na prática não é tão simples .
Afetos como paixão, desejo, medo e ciúme comprometem a lucidez. Quando nos envolvemos, podemos admitir coisas que de outro modo seriam inadmissíveis. Quem já não foi vítima de descaso ao apaixonar-se por uma pessoa negligente? É difícil admitir que o alvo de nosso afeto tenha atitudes que não nos agradam. Isso põe em risco o amor próprio e o conceito que temos de nós. Aceitar tal possibilidade é como dar-se um atestado de estupidez, por isso negamos as evidências da inadequação do outro. Também é vergonhoso constatar que amamos quem tem comportamentos impróprios.
Vivemos então um dilema: queremos ou não aquela pessoa? Amamos ou não? Se somos inteligentes, como podemos amar quem faz coisas que nos parecem erradas? Para nos poupar dessa ambivalência, criamos a ilusão de que o escolhido vai mudar - afinal, é inteligente, sabe que deve mudar.
Enquanto naõ muda, porém, a relação continua. A ilusão da mudança mantém distante a idéia de rompimento. Ou seja, escolhemos conviver com quem nos expõe e envergonha. E mais: se a pessoa tem hábitos que a prejudicam, tornamo-nos cúmplices de sua autodestruição. Ao abrir mão de nossas virtudes enquanto o outro não muda, estamos idealizando a nós mesmos. Acreditamos que podemos pôr em risco nossos valores e princípios sem pagar um preço alto por isso. É outro modo de negar a realidade, um caminho para preservar o afeto pelo outro e por nós.
Mas será isso amor? A quem amamos quando fazemos "vista grossa" às escolhas que o ser amado faz e que prejudicam a ambos? Ao negar a realidade para evitar conflitos eliminamos oportunidades de evoluir, negamos a chance de crescimento mútuo que a convivência nos oferece.
Quando abrimos mão de nossas qualidades e permitimos que prevaleçam as atitudes negligentes e comodistas do outro nos nivelamos ao que ele tem de pior e o incentivamos a acomodar-se. Isso não é amor. Nem por nós nem pelo outro.
Como já disse em outras ocasiões, é preciso ter coragem para amar, porque o amor não permite idealizações. Ele não nos deixa na zona de conforto, desafia-nos a mudar - mas para melhor! E mudanças dessa qualidade muitas vezes implicam o fim da relação. Pode parecer contraditório, mas o amor é motivo para rompimentos.

Quando não somos capazes de mudar e gerar benefícios para ambos, é prova de amor romper e libertar o outro da convivência, que o desqualifica. Se amamos alguém que não tem autoestima suficiente para desafiar-se a mudar, é prova de amor romper para servir-lhe de exemplo. Nada melhor que sacrificar o amor que sentimos pelo outro para provar nosso empenho em fazer o que é melhor para os dois!"

Rosa Avello, psicoterapeuta e especialista em sexualidade humana .

sábado, 4 de setembro de 2010

Ronaldo Mendes Anjo


Impressionista
Uma ocasião,meu pai pintou a casa
toda de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"Não é fabuloso que alguém se satisfaça com uma pílula e uma tela"?
"Você tem alma?
Essa pergunta-filosófica, teológica ou simplesmente incongruente- encerra hoje uma nova dimensão. Confrontada aos neurolépticos, à aeróbica e ao massacre da mídia, a alma ainda existe"?

...a experiência cotidiana parece demonstrar uma especular redução, da vida interior.


Porquanto uma constatação se impõe: pressionados pelo estresse, impaciente por ganhar e gastar, por desfrutar e morrer, os homens e mulheres de hoje economizam essa representação de sua experiência a que chamamos vida psíquica.O ato e seu avesso, o abandono , substituem a interpretação do sentido.
Não se dispõe nem de tempo nem do espaço necessários para constituir uma alma.
A simples suspeita de tal preocupação parece ridícula, deslocada.Umbilicado sobre seu quanto-a mim, o homem moderno é um narcisista, talvez cruel, mas sem remorso".
"A vida psíquica do homem moderno situa-se entre os sintomas somáticos(doença, hospital) e a transformação dos desejos em imagens (devaneio diante da televisão".
fonte: As novas doenças da alma/ Júlia Kristeva

terça-feira, 31 de agosto de 2010


"O segredo profundo do artista reside na capacidade de, com suas obras, pôr os homens na direção de um viver plenamente no mundo que o cerca".


..."a beleza só aparece a partir de uma educação do olhar que nos faz prestar mais atenção ao que nos cerca, aproximando- nos daquilo que aparece nas entrelinhas da realidade".


"Rodin nos dirá que quando não percebemos a Beleza a falha é de nossos olhos e não dela. Devemos transformar o nosso olhar para recuperar o encanto, o espanto e a maravilha de ver o belo onde menos o esperamos".
fonte: Rodin por Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 30 de agosto de 2010


Para pensar...

"Os moralistas diriam: temos que ter maior apreço para com o poço que nos mata a sede. Talvez tudo que tenhamos que constatar é esta nossa natureza que, uma vez saciada, não necessita do controle ou do poder de ficar de frente, garantindo o poço para as próximas sedes. Quem quer ter a segurança de ficar controlando o poço na maioria das vezes perde todas as sedes. Isto porque a relação da sede com ser saciada depende deste ato de dar as costas. É a nova sede que permitirá uma relação de gratidão com o poço. Permanecer grato obsessivamente é um ato do inseguro".

Exercícios d'alma :A cabala como sabedoria em movimento de Nilton Bonder

sábado, 28 de agosto de 2010

ADÉLIA PRADO,
a sabedoria mineira


"Quando quero ficar humilde eu visito os açougues".


"Mais que faço é almoçar e jantar muito bem e borrar de medo de tudo".


"Juventude de espírito eu não quero, acho muito ridículo a alma fazendo trejeitos".



"Porque o que abunda não vicia, eu sou exagerada por causa da injustiça social".

fonte: Solte os cachorros de Adélia Prado

sexta-feira, 27 de agosto de 2010


Não existe previsão humana ou filosofia de vida capaz de predeterminar o rumo da nossa vida", por isso, "a vida não é só ontem nem fica explicada quando se reduz o hoje ao ontem. A vida também é amanhã; só compreendemos o hoje se pudermos acrescentá-lo àquilo que foi ontem e ao começo daquilo que será o amanhã".
Carl G.Jung

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Uma leitura instigante.
É preciso pensar sériamente sobre esta questão:

"A transparência como ideal também invade a vida privada de pessoas (ditas) públicas, como artistas, políticos, "celebridades", de quem , por se darem a ver em público, é exigida transparência total como imperativo da sociedade escópica. O sujeito ávido de curiosidade do que está escondido é também o sujeito ávido por publicidade- tudo em nome do ideal da transparência que se torna imperativo. O mesmo sujeito que quer ser visto sob os holofotes (da fama e do prestígio) exige a transparência de seus próximos e assim "cada colega, como diz Bentham, torna-se um guarda".
fonte: Antonio Quinet em Um olhar a mais (ver e ser visto na psicanálise) , Jorge Zahar Editor

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"No Teatro- Fórum , o mecanismo funciona ao contrário. O personagem cede, e eu, espectador, sou chamado a corrigí-lo, mostrando à platéia uma melhor maneira de agir. Retifico sua ação. Fazendo isso na ficção da peça, invadindo a cena, estou me preparando para fazer o mesmo na realidade. Realizando essas ações na ficção do teatro, eu me preparo,treino, para realizá-lo também na minha vida real. No teatro, me familiarizo com os problemas que enfrentarei na realidade".
...Na ficcção ensaio a ação!



O Teatro-Fórum não produz catarse; produz um estimulante para o nosso desejo de mudar o mundo. Produz a dinamização!

...Igualmente maravilhoso seria um espetáculo onde no primeiro ato os artistas nos mostrassem sua visão de mundo, e no segundoa platéia pudesse inventar um mundo novo".
fonte: leitura muito interessante: Jogos para Atores e Não-Atores de Augusto Boal(Civilização Brasileira).

domingo, 22 de agosto de 2010

Clarice, sempre Clarice...




"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.




Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas.Sei que sómente com duas pernas é que posso caminhar.Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assuta, era ela que fazia de mim um coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar".
A paixão segundo G.H.de Clarice Lispector




sábado, 21 de agosto de 2010


A ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como o são umas poucas palavras boas."
(Freud)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010


“Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”
Sebastião Salgado
Amanhã, sábado às 13:00h estarei participando do programa:
NO CAMPO DAS IDEIAS, na F.M. 105,3.
Os temas propostos para reflexão serão: Bullying nas escolas , a violência como um distúrbio da agressividade, e o conceito de Mudança de Época.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Texto, teto e tato.
Artigo - Batista de Lima.
Nada existe fora de um texto. Se é um escritor, dialogando com sua solidão, ele pratica travessuras com a linguagem. Brinca de esconde-esconde com os signos. Engorda algumas palavras e emagrece outras. Se é um crítico, vasculha as dobras da escritura, clareando reentrâncias verbais.
No princípio era o verbo, que só sobrevive nos jardins do texto. Tudo é, pois, contexto. A mais isolada ilha não bóia. Ela funda um continente que lhe sustenta. Assim como a ilha é vigia do continente, o texto é a festa de seres ausentes que mandaram seus verbos representantes. Cada palavra representa um ser que não pôde comparecer à festa dos signos. Como não podemos colocar o mundo original ao nosso alcance, transformamos esse mundo em palavras e o trazemos para o nosso abraço. Até a pessoa querida que não podemos reter ao nosso lado, nós lhe damos um nome e ela se instala nos nossos braços. "Não posso com meus ossos/ perdi meus braços/ no último dos nossos abraços". Falar assim é abraçar sem braço aquele ausente. Só em literatura isso é possível.
Quando colocamos as palavras para se darem as mãos elas dão vida a uma mensagem. Quanto mais se socializam mais vida adquirem. A relação entre as palavras é muito parecida com a relação entre as pessoas. Palavras e pessoas se imitam.


Quando pessoas se dão as mãos outras vidas se fundam.
A palavra escrita é como a pessoa registrada. Ambas possuem uma identidade, um memorial. Se a pessoa possui seu currículo, a palavra possui sua etimologia. A etimologia é o currículo da palavra. A palavra é o tato da coisa. Nosso contato com o ser começa com a palavra. É possível que nela já pulse o sol que se esconde em cada coisa. É possível que na palavra já se instale essa temperatura que se aninha no interior de cada coisa. É bem verdade que certas coisas se desnudam mais através das palavras que lhes representam. É essa afinidade palavra/coisa que a gente precisa cultivar. Fazer com que o ser nos chegue sem sair de onde está. É possível molhar-se apenas ao se pronunciar a palavra "chuva". Porque essa é uma palavra molhada que já traz o chiado da chuva.
Palavras como "manga", "mamão", "mamãe" e "mamar" são mensageiras da "mama". São palavras felizes. Cabe ao escritor promover a felicidade das palavras. Cabe também a qualquer pessoa essa função, até ao mais simples falante. É através da fala que podemos avaliar se o falante é um animador de palavras. A linguagem oral tem o privilégio de ser os braços do coração.
O falante expõe as emoções não só pelos sons vocais que emitem, mas pelos gestos, pela altura da voz, pelo crispar do cenho, pela presença ou não da ternura do olhar. Na linguagem escrita, esses fenômenos não aparecem.É preciso, no entanto, termos cuidado com a altura da voz. Quem grita, distancia-se do afeto. As pessoas, que mais se amam, mais baixo dialogam. Há casos em que tão grande é o amor, que as palavras se tornam dispensáveis. Gritar com alguém é pressupor que existe uma grande distância entre falante e ouvinte. Se o ouvinte está próximo e nós gritamos, estamos colocando-o distante o mais possível do nosso coração. Fala alto quem ama baixo, quem ama pouco.


A comunicação é um teto onde duas pessoas se tornam texto. E os componentes de um texto têm ligações muito profundas. O teto é uma construção que de tanto acasalar as pessoas recebeu o nome de casa. Assim como a casa antiga possuía o cogitarium, o venustério, o altar dos penates, os jardins, o sótão e o porão, o texto também pode nos oferecer esses compartimentos. A claridade do sótão com sua objetividade e o sombrio do porão com sua subjetividade nos indicam que o teto como o texto são infindáveis como poço de significações e como superfície para rastreamentos. A parte mais sombria de um texto é um ninho de metáforas.
Metáfora é bichinho tinhoso que se reproduz na sombra. Tanto os compartimentos sombrios da casa como do texto estão repletos de metáforas.
Quanto mais sombrio o teto, mais o tato se faz presente. Tateia-se no escuro e as surpresas se multiplicam. Imagina-se no sombrio. Geralmente guarda-se a memória, no porão. É lá onde guardamos tudo aquilo que nos foi útil um dia. Tudo o que marcou os principais momentos da vida está guardado no porão. Ir ao porão é ingressar no mundo da memória. Os objetos que ali estão, trazem impressa a história da família. O porão é uma sucessão de textos acumulados. Quanto mais antiga é a casa, mais histórias acumulam-se nas suas fundações. Ela guarda sugestões, sinestesias, emoções e lembranças.


O leitor de tato transforma o texto em teto. Ele rastreia e prospecta, nada e mergulha. Ele se agasalha no texto. Por isso que, se do texto o leitor se desprender, ele passa a transportar em si as marcas do seu contato. Portanto, o leitor não se livra mais do texto, assim como o morador não se livra do seu teto. As marcas ficam e são transportadas. Por isso que sempre retornamos para uma casa que sempre transportamos. Da mesma forma, sempre retornamos para um texto que sempre transportamos. Texto e teto, pois, se imbricam em um só ser.
Estamos sempre a conduzir aquilo que nos conduz. Feito um molusco, cada um conduz uma concha em construção. A concha só se constrói enquanto o molusco tem vida. Assim, o teto só tem vida enquanto a vida do habitante tateia suas dependências. Da mesma forma o texto só tem vida quando o leitor tateia seus compartimentos.

Caderno 3 - Diário do Nordeste Fortaleza/CE - 18 de dezembro de 2007.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Com Clarice


"Quem se indaga é incompleto".




"...porque o que amadurece plenamente pode apodrecer".


"E quando acaricio a cabeça do meu cão- sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique".




Livro: A Hora da Estrela - Clarice Lispector

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Na companhia de Clarice


"meu estado é de jardim com água correndo...




...estou cheia de acácias balançando amarelas.


...não gosto é quando pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que eu me contorça toda.



Livro: Água Viva

Apontadora de Idéias

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São Paulo, Brazil
"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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