quarta-feira, 16 de março de 2011

meu blog está virando um céu...
cheio de estrelas-selos amigos.
Obrigada , querida Nádia Lis do blog http://nadialis.blogspot.com/

NA RODA DA VIDA

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu.
Chico Buarque


Tem dias e mais dias...
Tem dias que a gente questiona se é isso mesmo: se estamos vivendo bem, fazendo o certo, se estamos fazendo bem o Bem, se é assim que queremos viver.
Tem dias que a gente interroga a vida: as voltas e rodopios que ela dá.
Para que isso, por que assim, o que afinal está acontecendo?
“Viver é negócio muito perigoso”, “ viver é um descuido prosseguido”, dizia Guimarães Rosa. Mesmo assim, não desistimos de querer ter voz ativa sobre a vida, sobre os acontecimentos e sobre o tempo. Tal como os amantes que mesmo discordando e brigando não abrem mão de ficarem juntos, acreditando que um dia, um mudará o outro e, aí sim, serão felizes para sempre. Essa é nossa postura frente à vida.
Tem dias que a roda-vida mostra-se uma bela dama, nos dá liberdade de escolha, deixa-se conduzir por nossas mãos e nos seduz com seu encanto. É a mais pura paixão!
Um enorme arco-íris de emoções nasce em nossos corações, e nós bailamos com leveza e graça.
Tem dias que ela parece mais preguiçosa, menos voraz em relação às horas, permitindo que respiremos devagar.
Proporciona-nos poucas novidades e, quando amantes das pequenas coisas , absorvemos tudo com mais sabor.
É pura magia e diversão!
Tem dias que se mostra generosa, a cada volta que ela dá, uma surpresa boa nos espera, um presente que chega de repente, uma dádiva que nos escolhe para dar a mão.
Mas há dias em que a roda parece enlouquecida, é um verdadeiro ciclone, vira tudo de cabeça para baixo, arranca aquilo que está em desenvolvimento. Sentimos medo e atordoamento e não sabemos para onde correr. Nem sequer somos ouvidos, pouco importa nosso querer. A gente reage, vai contra a corrente, tranca as mãos, emperra, estanca, mas ela é soberana.
É só desolação!
Nesses momentos, a roda mais parece uma roca ceifando desejos e ilusões. O cotidiano, com seus sonhos e projetos acalentados, é mexido e remexido, não deixando pedra sobre pedra. È a roda girando e levando para longe nosso sossego e segurança.
Na volta do barco é que sente,
O quanto deixou de cumprir...
Dias passam, outros vêm, e nós não cansamos de nos perguntar: onde erramos, o que deveríamos ter feito que não fizemos, o que poderíamos ter evitado que não evitamos?
Roda mundo...
Seu giro é impessoal e indiferente ao nosso querer.
Seus propósitos nem sempre conseguimos entender, e ela vai desenhando figuras fantásticas sempre diferentes no ar. Será moinho, será pião, roda gigante?
Capturados pela grande aventura, fascinados por sua força de atração e pelas lembranças dos momentos vividos, respiramos fundo e mergulhamos como crianças, seduzidos novamente pela velha cantiga de roda tão bela e tão louca chamada Vida.
Tem um dia que uma força mansa e tenaz nos tira da roda.
A volta foi completada e é o momento de voltar para casa.
Esse passo não é ensinado a ninguém. Quem dançou com altivez e coragem todos os movimentos da roda, com certeza, saberá soltar as mãos e deixar-se levar para o definitivo encontro amoroso com o seu Criador e tornar-se assim encantado.

Inspiração: Roda Viva
Composição: Chico Buarque

sábado, 12 de março de 2011


AONDE QUEREMOS CHEGAR?

“Mover-se é viver,
dizer-se é sobreviver”.
Fernando Pessoa


Abre e fecha, estica e encolhe, sobe e desce, vai e vem.
Assim é o movimento das coisas aqui fora, mas longe de ser um movimento ritmado como o pêndulo do relógio.
Vivemos um momento da história da humanidade em que os movimentos parecem cada vez mais acelerados e inconstantes.
Mas... e o que dizer dos movimentos internos, das batidas da nossa alma?
Parece que acompanham os movimentos externos, pois estão também desorganizados e em desequilíbrio.
São sentimentos, os mais diversos, que abrem e logo fecham, humor que sobe e desce, um estica e encolhe de sensações e um vai e vem de pensamentos.
E, para complicar, nem sempre sabemos o que tem provocado tantas mudanças assim.
Um dia levantamos e, ao colocar os pés no chão, já sabemos que a alma está com suas janelas e portas trancadas e a vontade é ir para debaixo da cama ou dos lençóis e não ver a “cara” do mundo.
Sentimo-nos desanimados, cansados e, às vezes, infelizes. Os antigos diziam que isso era a “nhaca”.
Não sei o que é isso, você sabe?
Num outro dia levantamos saltitando, cantando e muito felizes. Achamos a vida bela, somos agradecidos por tudo o que somos e temos, e com vontade de abraçar todos os que por nós passam.
Os antigos também tinham uma explicação para esse estado d’alma. Diziam que “tínhamos visto o passarinho verde”.
Também não sei por quê. Você sabe?
E assim vamos vivendo, com palpitações e arritmias: abre e fecha, sobe e desce, vai e vem de emoções e sentimentos.
Ah! Como cansa!
Tudo isso também perturba nossas relações; afinal, ninguém aguenta tantos altos e baixos assim. Não é nada agradável participar involuntariamente de uma montanha russa.
Talvez uma explicação plausível tenha a ver com o “estica e encolhe”.
Provavelmente, o grande vilão dessa história seja esse movimento.
Estamos esticando cada vez mais os deveres para alcançar não se sabe bem o quê, e encolhendo cada vez mais o que realmente é essencial.
Penso que talvez fosse bom brincar com a vida de “estátua”, assim, quem sabe deixaríamos de pegar o trem bala que nos leva para lugar nenhum.
Eliete Cascaldi Sobreiro

quinta-feira, 10 de março de 2011


Contos de fadas, como G.K.Chesterton disse certa feita, são mais do que a verdade; não porque nos contam que dragões existem,mas porque nos dizem que dragões podem ser vencidos.
Neil Gaiman( Fumaças e Espelhos/Contos e ilusões)

terça-feira, 8 de março de 2011

O que será do amanhã?

Um gosto de amora
comida com sol.
A vida chama-se “Agora”.
Guilherme de Almeida

Aquela voz tirou-me de meus pensamentos e do planejamento que estava a fazer sobre os próximos dias, chegando a assustar- me por um momento.
“Oi! moça bonita, deixa eu ler a tua mão?” Olhei e vi uma mulher aproximando-se. Era morena, tinha cabelos pretos amarrados com um lenço vermelho, e um vestido longo todo colorido. Uma cigana!
Novamente , pediu-me para ver a palma de minha mão e eu, mais do que depressa, respondi com uma negativa e fui distanciando-me. Agora meus pensamentos eram outros, mudaram totalmente de direção.
O futuro, os dias que estavam por vir, perderam a força de sedução que tinham uns minutos antes em minha mente.
Olhei para a palma de minhas mãos procurando encontrar alguma pista, algum sinal do que me aconteceria. Comecei então a sorrir, do absurdo que estava pensando e temendo. Lembrei-me de que, quando criança , tinha muito medo de ciganos, pois diziam-nos que podíamos ser por eles raptados. Agora, passadas algumas horas, posso refletir sobre essa experiência e perguntar-me se gostaria mesmo de saber sobre o futuro. Não tenho dúvida: NÃO. Não apreciaria saber que logo ali na próxima esquina haveria um acontecimento muito bom esperando-me para ser vivido, pois perderia toda riqueza da novidade, da surpresa, do espanto.
Também, não gostaria de saber sobre um acontecimento negativo, pois perderia imediatamente a tranquilidade do momento presente e já começaria a viver a angústia do que poderia estar a algumas léguas de distância.
“O futuro a Deus pertence”, diziam os antigos, é assim que acredito, e é assim que quero viver. Um dia de cada vez, um passo depois do outro.
Que graça teria assistir a um jogo sabendo o resultado final?
Que valor teria se soubéssemos que nossas decisões não contam, que nossas escolhas não interferem em nada, pois tudo estaria traçado sem a nossa participação?
Como manter ardendo a chama da paixão pela vida, o arrebatamento e a rebelião necessários para as mudanças?
O que adiantaria lutar pelos nossos sonhos e ideais se tudo já estivesse predestinado?
Não, não seria possível a vida nestas condições. Só o mistério e a imprevisibilidade é que fazem a vida ter essa tessitura tão delicada e , portanto , tão preciosa a todos nós.
Da arte da adivinhação fico com a mágica que nos incita a curiosidade e o espanto, e distrai-nos por alguns momentos.

Eliete Cascaldi Sobreiro

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ganhei mais um selinho do blog :http://naimorbeck.blogspot.com/
Vale a pena conhecê-lo.
Obrigada Nair!

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria
e tristeza,
torna-se uma grande e
querida companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem como um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.
William Shakespeare

sábado, 5 de março de 2011

do blog :http://abstratosdenelsonaharon.blogspot.com/

Existe uma VERDADE elementar,
e ignorá-la mata uma incontável quantidade
de ideias e planos explêndidos:
No momento em que a pessoa
definitivamente se compromete,
então a Providência também se movimenta.
Todas as espécies de coisas ocorrem para ajudá-la,
coisas que nunca teriam ocorrido não fora isso...
Aquilo que você pode fazer,
Ou sonhar que pode,
Comece.
A audácia tem em si genialidade, poder e magia.
Comece agora.
Goethe

quinta-feira, 3 de março de 2011


CARNAVAL DA SAUDADE
Confete
Confete
Pedacinho colorido de saudade
Ai, ai, ai,ai
Ao te ver na fantasia que usei
Confete
Confesso que chorei
chorei porque lembrei do
Carnaval que passou
daquela colombina que comigo brincou
Ai, ai confete
Confesso o amor que se acabou
Composição: David Nasser e Jota Júnior


Tenho uma forma de pensar e sentir que deve ser compartilhada por outras pessoas também.
Sei que mudanças são necessárias; que só o que é vivo transforma-se, e gosto de muitas mudanças com as quais hoje tenho a oportunidade de viver. Por exemplo, assimilei de tal forma o computador na minha vida que a caneta tem perdido a sua utilidade, gradativamente.
Mas há algumas mudanças a que resisto bravamente, e entristece-me profundamente não conseguir sentir o que sentia quando vivia tais acontecimentos.
É assim com o Natal. Para mim, ele tem que ter as cores tradicionais: vermelho e verde, bastante branco simbolizando neve e árvores com bolas vermelhas. Tem que ter presépio, Papai Noel, renas, etc,etc.
Não importa se não traduz a nossa realidade; quem disse que quero realidade sempre?
Estas mudanças sinto-as como se roubassem, sorrateiramente, a cada ano que passa, um pouquinho da minha história e da minha identidade.
Assim também é com o Carnaval. Toda vez que se aproximam os dias de folia, sinto um misto de alegria e tristeza. Planejo que vou ficar acordada para ver as escolas de samba na televisão, mas quando chega a hora, tudo é tão chato, que acabo dormindo infeliz.
Sei por relatos de amigos que estiveram nos carnavais de São Paulo, Rio de Janeiro ou Salvador que é uma emoção muito grande, mas admito que neste quesito sou muito saudosista. O que desejo mesmo é aquele carnaval de antigamente. Quero batalha de confete, serpentina e marchinhas carnavalescas.
O meu carnaval tem que ter Rei Momo gorducho, lembrando-nos a colheita e a fartura, o Pierrô, Colombina e Arlequim simbolizando o amor e o confete e serpentina sinais de festa e alegria .
O carnaval de que sinto saudades tem o cheiro do lança-perfume, cujo aroma delicioso bailava nos salões e não era usado como droga, e tem blocos de foliões que rodam pelos salões com suas fantasias executadas com paixão.
Fantasias que eram totalmente capazes de fazer-nos viajar por identidades sonhadas e de exteriorizarem nossas alegrias e desejos.
Brincávamos, suávamos, cantávamos alucinados as cinco noites carnavalescas, namorávamos, paquerávamos e chorávamos muito na última batida anunciando o fim do carnaval .
Que inocência, que paixão, que catarse!
Lembranças impregnadas de sensações maravilhosas que ainda hoje me alimentam, mas eu adoraria viver, atualmente, esses carnavais outra vez.
Eliete Cascaldi Sobreiro

terça-feira, 1 de março de 2011

Quem olha para fora, sonha.
Quem olha para dentro,acorda.
Carl Gustav Jung



Abra os olhos para dentro,
e olhe devagar cada recanto, cada pedacinho iluminado,
cada canto arrumado e florido, e agradeça por isso.
Tateie cada lugar que está escuro e em desordem, e com calma tente compreender o que acontece nestes lugares.
Não importa quanto tempo passará, não desespere nem tenha pressa, pois é tarefa de vida. Não tenha medo, as sombras logo ficarão mais definidas, o escuro irá clareando e dando-lhe uma compreensão mais nítida do porquê abandonou esses cantinhos.
Mantenha-se firme se, ao tirar algumas coisas do lugar, uns sentimentos despencarem e alardearem quem estiver por perto; é assim mesmo, as faxinas, mesmo sendo necessárias, incomodam a todos, principalmente as faxinas da alma. Confie em seu coração e em seus olhos, mas não se intimide em pedir ajuda, em buscar por um guia, pois sempre é bom estarmos acompanhados nos momentos importantes de nossas vidas. Nunca deixe de acreditar que é possível fazer seu território mais acolhedor para a floração de sua essência. Ela é bela, com certeza.
Lembre-se de que nossa alma precisa de cuidados diários, de janelas abertas, de espaço e terreno revolvidos para fazer crescer em beleza e força suas novas mudas.
Deposite neste cantinho muitas moedas de amor, invista muitos minutos de seu dia, e não gaste impensadamente esse tesouro.
Não esqueça que, neste território as leis da física não explicam tudo, a lógica e o pensamento racional não são senhores e mandatários, e o relógio que marca o tempo não é o Cronos e , sim, kairós.
Lembre-se de que o maior bem é conseguir viver com harmonia, e o ofício mais importante é ser feliz.
Eliete Cascaldi Sobreiro

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Lindo presente que ganhei de Vivian do blog
http://vivian-floreselivros.blogspot.com/ Obrigada, Vívian!


Cadê você, Mulher?
Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim...
Chico Buarque


Diga-me : Onde está a mulher que você é?
Onde está a mulher que você sonhou ser quando menina, ao brincar de casinha?
Onde está a mulher que brincava de mamãe e filhinha, carregando a boneca nos braços, dando-lhe o peito e fazendo-a dormir?
Onde está a mulher que suspirava pelos cantos apaixonada por aquele garoto que não lhe dava a menor atenção?
Onde está você, mulher, que com roupa de colegial e caderno na mão apressava os passos para encontrar o namorado, e juntos irem estudar matemática?
Onde está você ,mulher, que dançava de rosto colado, andava de mãos dadas e fazia qualquer loucura para viver um grande amor?
Onde está você, mulher, que escrevia bilhetes apaixonados, guardava no diário a flor arrancada dos canteiros das praças e sonhava em ser professora?
Que se arrepiava ao ser tocada , dizia “eu te amo” com rubor e participava de passeatas exigindo paz e amor?
Onde está o seu mistério, sua inocência e seu pudor?
Onde está você, mulher, que agora não sonha mais, que passa o tempo só trabalhando e ralando?
Que se enfeita toda, cuida do corpo para continuar bela, mas desaprendeu de viver uma noite de amor?
Que conversa com todos, sorri e se alegra, mas ao chegar a sua casa está cansada, amuada e irritada?
Cadê você, mulher? Onde ficou seu viço, seu perfume natural, o brilho de seus olhos, o arfar de seu coração?
Mulher, quando foi que você se esqueceu, onde foi que você se perdeu?
Ouça seu coração, ouça com atenção: Você é Mulher.
Sua essência precisa de amor, paixão e carinho; a liberdade conquistada não tem sentido se o preço for a morte da mulher.
Acorda, respire fundo e diga bem devagar: Eu sou Mulher.
Repita quantas vezes for necessário, grite se for preciso, chore e esperneie se for o caso, mas faça alguma coisa para resgatar a mulher que agoniza em você. Pois só assim será capaz de ser feliz.

Eliete Cascaldi Sobreiro



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Saudade é esperar que a farinha se refaça em grão.
Mia Couto
Todo silêncio é música em estado de gravidez.
Mia Couto


Quem perde esperança foge.
Quem perde confiança esconde-se.
Mia Couto
Antes de nascer o mundo

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011


Narciso e Narciso
Ferreira Gullar


Se Narciso se encontra com Narciso

e um deles finge

que ao outro admira

(para sentir-se admirado),

o outro

pela mesma razão finge também

e ambos acreditam na mentira.


Para Narciso

o olhar do outro,a voz

do outro, o corpo

é sempre o espelho

em que ele a própria imagem mira.

reflete o que o admira

num jogo multiplicado em que a mentira

de Narciso a Narciso

inventa o paraíso.

E se amam mentindo

no fingimento que é necessidade

e assim

mais verdadeiro que a verdade.
Mas exige, o amor fingido,

ser sincero o amor

que como ele é fingimento.

E fingem mais

os dois

com o mesmo esmero

com mais e mais cuidado

- e a mentira se torna desespero.

Assim amam-se agora se odiando.

O espelho

embaciado,

já Narciso em Narciso

não se mira:

se torturam

se ferem

não se largam

que o inferno de Narciso

é ver que o admiravam de mentira

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011


OS 7 TIPOS DE PAZ.

Os índios Aymara, que habitam há séculos as margens do lago Titicaca, nos Andes, defendem a necessidade de sete diferentes tipos de paz.


O primeiro tipo de paz é para dentro de cada um de nós. Com a saúde de nosso corpo, a clareza de nossa mente, a satisfação com nosso trabalho, a alegria com a pessoa que escolhemos para amar. Sem paz consigo mesmo, não há Paz.


O segundo é para cima. Com o espírito de seus antepassados, com o Deus de cada um. Se você não está em paz com o mundo sobrenatural, espiritual, com a metafísica de sua existência, sua paz está incompleta.


O terceiro tipo de paz é para frente, com o seu passado. Diferentemente dos homens brancos com sua arrog ante cultura ocidental que põem o passado para trás, os Aymara o colocam para adiante, por ser o visto, o vivido, o conhecido. Quem tem remorsos, culpas, dívidas não pagas, arrependimentos , não está totalmente em paz


.O quarto tipo de paz é para trás, com seu futuro. Quem tem medo do que virá, está assustado com dívidas a pagar, se apavora com o que terá de enfrentar, com a possibilidade de más notícias, com emprego incerto, esperando más notícias, não está em paz.


O quinto é para o lado esquerdo, com seus próximos. Sem a paz familiar, não há paz. Desavenças domésticas, disputas, queixas, ranger de dentes com a família, o descontentamento com familiares e amigos próximos, tira o sentimento de paz.


O sexto tipo de paz é para o lado direito, com seus vizinhos. Não adianta a paz em casa, se do outro lado da rua estão a ameaça, a desavença, o descontentamento com a casa ao lado tra z impedimentos para a verdadeira Paz.


E o sétimo tipo de paz é para baixo:Com a terra que você pisa, de onde virá seu sustento. Se você provoca a tempestade ou a seca, se o solo secar ou tremer, não haverá paz .

Agradeço à Nádia do blog http://nadialis.blogspot.com/
mais um selinho .
Obrigada, querida Nádia.
1. Grande Sertão:Veredas
Guimarães Rosa
2. Bíblia
3.Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
4.Todos os blogs que sigo

domingo, 20 de fevereiro de 2011


Oração da Criança

Abençoai o leite e o pão

E este macio colchão

Em que vou ficar deitada

Descansando, sossegada.

E fazei com que eu não tenha

Medo da noite que passa,

E durma até que o sol venha

Bater na minha vidraça.

Abençoai meus brinquedos

Que para mim não têm segredos;

Meus sapatos que aonde eu queira

Me levam; minha cadeira;

E a lâmpada, e o fogo ardente;

E essa mão boa e paciente

Que cuida tão bem de mim;

E os meus amigos;

e enfim,

Minha mamãe, meu papai,

Sempre unidos.

Abençoai

Pelo mundo diferente

Os filhos de toda gente.

E fazei com que eu também

Durma e acorde em paz.

Amém!

Versão de: Guilherme de Almeida

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Isto deve ficar claro: a emoção em si, desordenada e caótica,não vale nada. O importante na emoção é o seu significado. Não podemos falar de emoção sem razão ou, inversamente, de razão sem emoção:uma é o caos, e a outra, matemática pura".
"o porquê é fundamental, pois para nós a experiência é importante; mas o significado da experiência é ainda mais importante.Queremos conhecer os fenômenos, mas queremos sobretudo conhecer as leis que os regem.
Para isso serve a arte: não só para mostrar como é o mundo,mas também para mostrar por que ele é assim e como se pode transformá-lo. Espero que ninguem esteja satisfeito com o mundo tal qual ele é: por isso, há de querer trnasformá-lo".
Augusto Boal em Jogos para atores e não-atores.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011


"A sociedade humana criou a linguagem para podermos comunicar nossos pensamentos, sentimentos e intenções".
Sua opinião, que ele não ventila, é que a origem da fala está no canto, e as origens do canto na necessidade de preencher com som o vazio grande demais da alma humana.
Acabei de ler o livro de J. M. Coetzee/Desonra e adorei.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Vidência
Paulo César Pinheiro

Eu vi uma velha, um velho e vi um menino.
E sobre as mãos e o colo da anciã
Eu vi a renda, a agulha, o bilro e a lã
Com que tecia as malhas do Destino.
Eu vi uma velha, e vi um menino e um velho.
E o quase cego olhar desse ancião
Tentava achar em nosso coração
Vestígio ao menos de seu Evangelho.
Eu vi um menino, um velho e vi uma velha.
E esse menino me arrastava a ela.
E a luz do velho se fechava em breus.
Chama-se Tempo esse menino forte.
E a costureira, pois, chama-se Morte.
E o velho cego, então, chama-se Deus.
o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte,
olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo.

domingo, 13 de fevereiro de 2011


Canção de Homens e Mulheres Lamentáveis
Antônio Maria

Esta noite... esta chuva... estas reticências.
Sei lá.
Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?
De dizer o nome?
De lembrar, sequer lembrar, o rosto?
Quem seria capaz de contar a história?
De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:
— Estou me sentindo assim, assim, assim...
A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre.
Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses.
E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira.
Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.
Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância.
Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome?
De pensar o seu nome?
Você diria em público o nome da Amada?
E suportaria ouvi-lo?
Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela).
Não há diferença.
E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita?
Seria mais fácil.
Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando.
E tudo se transformaria em notícia:
"Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country".
Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas.
Qualquer das escolhas seria desprezível.
Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém.
A morte, mesmo em combate, é burlesca.
Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção.
Quem saberia discriminar o ódio do amor?
Ninguém.
Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.
Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo.
E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça.
Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:
— Que é que houve? O senhor está mais velho?
Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas.
Mas o homem continuou:
— O que é que houve?
De ontem para cá, o senhor envelheceu.
Tinha pensado que, sem os óculos...
Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender.
Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada.
Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite.
Neruda, coitado, as mais tristes.
Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta.
Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.
(9/10/1964)

sábado, 12 de fevereiro de 2011


Preciosidades de Mia Couto

Onde nada se passa, tudo pode acontecer.

A realidade é mais rasteira, feita de peso e de pés na terra.


Em casa de pobre ser o último é ser nenhum.


Confiança manchada, amizade desmanchada.


A pessoa viaja é para ser esperado, do outro lado a mão de gente que é nossa, com nome e história.Como um laço que pede as duas pontas.


fonte: O fio das missangas

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011


Que linda declaração de amor!
faço esta declaração a Deus.

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na Profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinitas dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente
Eu te amo
Desde a criação das águas,
Desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
E te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
Quieto
( Adalgisa Nery )

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Para as coisas que há de pior, a gente não alcança fechar as portas".
João Guimarães Rosa/Grande Sertão :Veredas



Não alcanço fechar as portas...
Deste cansaço que esmaga meus gestos
Da angústia que aniquila as ilusões
Do medo que atravanca grandes transformações.
Não alcanço fechar as portas...
Meu fôlego é pequeno prá tantas léguas.
(Eliete)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças, a cada 15 dias, na coluna da Folha de São Paulo.(08/02)
SOU, COM FREQUÊNCIA, chamado a fazer palestras para turmas de formandos. Orgulha-me poder orientar jovens em seus primeiros passos profissionais. Há uma palestra que alguns podem conhecer já pela web, mas queria compartilhar seus fundamentos com os leitores da coluna.
Sempre digo que a atitude quente é muito mais importante do que o conhecimento frio. Acumular conhecimento é nobre e necessário, mas sem atitude, sem personalidade, você, no fundo, não será muito diferente daquele personagem de Charles Chaplin apertando parafusos numa planta industrial do século passado. É preciso, antes de tudo, se envolver com o trabalho, amar o seu ofício com todo o coração. Não paute sua vida nem sua carreira pelo dinheiro. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como consequência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser um grande bandido ou um grande canalha. Napoleão não conquistou a Europa por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro.E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. Tudo o que fica pronto na vida foi antes construído na alma. A propósito, lembro-me de um diálogo extraordinário entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar dos leprosos, diz: "Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo". E ela responde: "Eu também não, meu filho". Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar e realizar têm trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.
Meu segundo conselho: pense no seu país. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Era muito difícil viver numa nação onde a maioria morria de fome e a minoria morria de medo. Hoje o país oferece oportunidades a todos. A estabilidade econômica e a democracia mostraram o óbvio: que ricos e pobres vão enriquecer juntos no Brasil. A inclusão é nosso único caminho.
Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laodiceia.É preferível o erro à omissão; o fracasso ao tédio; o escândalo ao vazio. Porque já li livros e vi filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso (ou narra e fica muito chato!).Colabore com seu biógrafo: faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido.
Tenho consciência de que cada homem foi feito para fazer história.Que todo homem é um milagre e traz em si uma evolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, caminhando sempre com um saco de interrogações numa mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não dê férias para os seus pés. Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: "Eu não disse? Eu sabia!". Toda família tem um tio batalhador e bem de vida que, durante o almoço de domingo, tem de aguentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo o que faria, apenas se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados, de empresários de mesa de bar, de pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta à noite, todo sábado e todo domingo, mas que na segunda-feira não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama "sucesso". Seja sempre você mesmo, mas não seja sempre o mesmo. Tão importante quanto inventar-se é reinventar-se. Eu era gordo, fiquei magro. Era criativo, virei empreendedor. Era baiano, virei também carioca, paulista, nova-iorquino, global.Mas o mundo só vai querer ouvir você se você falar alguma coisa para ele. O que você tem a dizer para o mundo?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011


"DESTRALHE-SE"
(por Carlos Solano)
"-Bom dia, como tá a alegria"? Diz dona Francisca, minha faxineira rezadeira, que acaba de chegar.
"-Antes de dar uma benzida na casa, deixa eu te dar um abraço que preste!" e ela me apertou.
Na matemática de dona Francisca, "quatro abraços por dia dão para sobreviver; oito ajudam a nos manter vivos; 12 fazem a vida prosperar".
Falando nisso, "vida nenhuma prospera se estiver pesada e intoxicada". Já ouviu falar em toxinas da casa?
Pois são:
- objetos de que você não precisa,
- roupas que você não gosta ou não usa há um ano,
- coisas feias,
- coisas quebradas, lascadas ou rachadas,
- velhas cartas, bilhetes,
- plantas mortas ou doentes,
- recibos/jornais/revistas antigos,
- remédios vencidos,
- meias velhas, furadas,
- sapatos estragados...
Ufa, que peso! "O que está fora está dentro e isso afeta a saúde", aprendi com dona Francisca. "Saúde é o que interessa. O resto não tem pressa!", ela diz, enquanto me ajuda a 'destralhar', ou liberar as tralhas da casa...
O 'destralhamento' é a forma mais rápida de transformar a vida e ajuda as outras eventuais terapias. Com o destralhamento:
- A saúde melhora;
- A criatividade cresce;
- Os relacionamentos se aprimoram...
É comum se sentir cansado, deprimido, desanimado, em um ambiente cheio de entulho, pois "existem fios invisíveis que nos ligam a tudo aquilo que possuímos".
Outros possíveis efeitos do "acúmulo e da bagunça":
- sentir-se desorganizado;
- fracassado;
- limitado;
- aumento de peso;
- apegado ao passado...
No porão e no sótão, as tralhas viram sobrecarga; na entrada, restringem o fluxo da vida; Empilhadas no chão, nos puxam para baixo; acima de nós, são dores de cabeça; sob a cama, poluem o sono".
"Oito horas, para trabalhar; Oito horas, para descansar; Oito horas, para se cuidar."
Perguntinhas úteis na hora de destralhar-se:
- Por que estou guardando isso?
- Será que tem a ver comigo hoje?
- O que vou sentir ao liberar isto?

...e vá fazendo pilhas separadas...
- Para doar!
- Para jogar fora!
Para destralhar mais:
- livre-se de barulhos,
- das luzes fortes,
- das cores berrantes,
- dos odores químicos,
- dos revestimentos sintéticos...
e também...
- libere mágoas,
- pare de fumar,
- diminua o consumo da carne,
- termine projetos inacabados.
"Se deixas sair o que está em ti, o que deixas sair te salvará.. Se não deixas sair o que está em ti, o que não deixas sair te destruirá", Arremata o mestre Jesus, no evangelho de Tomé.
"Acumular nos dá a sensação de permanência, apesar de a vida ser impermanente", diz a sabedoria oriental. O Ocidente resiste a essa idéia e, assim, perde contato com o sagrado instante presente.
Dona Francisca me conta que "as frutas nascem azedas e no pé, vão ficando docinhas com o tempo". A gente deveria de ser assim, ela diz: "Destralhar ajuda a adocicar."
Se os sábios concordam, quem sou eu para discordar...

domingo, 6 de fevereiro de 2011


“Um mapa mundi que não inclua a Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras a que a Humanidade está sempre aportando”

Oscar Wilde – A alma do homem sob o socialismo

sábado, 5 de fevereiro de 2011


Interessante e muito inteligente.Vale a pena ler!
RIVOTRIL: FERNANDA TORRES
NUNCA FUI corajosa. Depois do nascimento dos meus filhos, o instinto de preservação quintuplicou minha covardia latente. Lutei contra a natureza por quase 20 anos, mas a maternidade me venceu por completo.Li com inveja e espanto a notícia de uma mulher que desconhece o medo. A síndrome de Urbach-Wiethe destruiu sua amígdala, uma estrutura em forma de amêndoa situada no fundo do cérebro, e desarmou seus alertas internos de proteção e perigo.Seria isso uma benção ou uma danação?O fim do ano de 2010 foi especialmente difícil para mim e os meus. Mortes na família, doenças graves, decisões urgentes e infecções sorrateiras culminaram no funil esperançoso de Natal e Ano-Novo.

O resultado foi um temor angustiado que virou o ano de mãos dadas comigo e se recusou a voltar a um nível tolerável depois de passadas as festas.O processo ansioso, cego e insistente, o choro que alimenta o choro, levou muitos amigos a me aconselharem uma visita a um psiquiatra. O nome que mais ouvi, antes mesmo do telefone de um especialista, foi o do milagroso Rivotril. A panaceia me foi descrita como um unguento milagroso, capaz de cortar a sinistrose pela raiz.Em "O Erro de Descartes" (Companhia das Letras, 336 pág., R$ 63), Antônio R. Damásio faz uma advertência contundente a respeito do uso indiscriminado de antidepressivos. Segundo o neurologista português, abrir mão da tristeza é dar adeus a uma das poderosas armas evolutivas responsáveis por manter a raça humana em estado de atenção. Anular a dor seria uma solução tão estranha quanto desligar o radar para não sofrer com a antecipação da tempestade.


Eu não sei se o homem das cavernas, correndo diariamente o risco de ser devorado por uma besta-fera, tinha mais ou menos ansiedade do que um sedentário de meia-idade que assiste às infindáveis hecatombes cotidianas pela TV. Talvez a luz elétrica e o computador tenham nos trazido mais frustrações do que amparo, talvez as paúras de uma vida tão afastada da feroz mãe natureza só se aplaquem mesmo mediante o uso de medicamentos, não sei.Eu sempre desconfiei das bulas reguladoras do humor; do humor, do sono e do apetite. E foi com tal desconfiança que me dirigi à psiquiatra, uma mulher inteligente de quem ouvi uma explicação bastante convincente para os efeitos benéficos que um antidepressivo, ou um ansiolítico, poderiam me trazer.O cérebro é um órgão dotado de uma impressionante capacidade de se remodelar. Graças à essa plasticidade, nos recuperamos de derrames graves, aprendemos a tocar instrumentos e agimos com rapidez diante de situações-limite. Os neurônios acionam novas sinapses, criam vias alternativas, ligam e religam circuitos conforme a necessidade.Mas a persistência de um estado melancólico, por exemplo, potencializa determinadas correntes neurais, fortalecendo uma rede funesta que impede o surgimento de novas saídas para o espírito. Como um rio sobrecarregado em uma enchente, a força das águas foge ao controle da própria vontade e deságua na chamada depressão.O remédio interditaria o pessimismo vicioso e daria chance ao cérebro de se rearticular.


Convencida a derrubar a fundação do muro das lamentações, experimentei o famoso Rivotril pela primeira vez, adiando a investida no antidepressivo.Passei três dias sonolenta e algo abobalhada, evitei dirigir. No terceiro dia, desestimulada e apática, achei que estava pior que antes. Decidi não recorrer ao medicamento na quarta noite e tive dificuldade para dormir. Quando cogitei tomar uma gota do elixir para ir ao encontro de Morfeu, os sinos de emergência badalaram soltos sob a pele.Nunca tive problema de sono. Qualquer droga, lícita ou ilícita, que mexa com esse metabolismo me arrepia os cabelos. Fritei no lençol até cinco da matina. Passei o dia seguinte imprestável e, no outro, depois de uma noite bem dormida e sem sedativos, acordei refeita.O Rivotril me ajudou. Ele agiu como um elefante branco que a gente põe na sala e, no dia que tira, sente um alívio inaudito; mas não resolveu. Sem o auxílio da farmacêutica, recorri a um amigo que insiste em estar vivo há mais de 74 anos."Finja! Crie um personagem e finja ser ele", me disse Domingos Oliveira. "Quem enfrenta a realidade enlouquece, a única saída para a sanidade é uma dose de alienação. A arte é a única saída possível."Não foi bem pela arte.
Meu escapismo atendeu pelo nome de Fernando de Noronha. O mar, os bichos marinhos, o sol e a natureza agreste reverteram violentamente os fluídos da minha psique.
Folha de São Paulo:05 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011


"Eu queria crescer para passarinho".
Manoel de Barros


Ontem estava aqui na minha clínica e eis que recebo uma visita inesperada!


Bate na porta com seu biquinho e curioso parece confirmar que o lugar que procura é este mesmo.
Pede para entrar, afinal, o calor estava demais lá fora.


Maravilhada fico insensível ao seu pedido e corro para fotografá-lo. Ele sem entender meu gesto diz que só veio trazer-me boas notícias. Instantes depois de cumprir a sua missão voa para o céu.

Apontadora de Idéias

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"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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