quarta-feira, 21 de julho de 2010

“Aos que vierem depois de nós”
“Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura.Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade.Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigosque precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
e o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo.Mas
evitar a violência,retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria
.E eu não posso fazê-lo.
Realmente,vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam,sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas.E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,

ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais frequentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
(Bertolt Brecht, na tradução de Manuel Bandeira)

terça-feira, 20 de julho de 2010

UM CANTEIRO
Quem sabe um dia um milagre me leve a me tornar íntima das plantas. E me dê um fim de vida com a pá no bolso, de olho nas folhas secas e ervas daninhas. As mãos calejadas sujas de terra, a roupa surrada e macia, o rosto enrugado entretido pelo prazer. E a corcunda a olhar para baixo em busca do que cresce, contemplando o passado-futuro. Terra, terra e Terra. Finalmente amiga da vida. E, como aquela minha querida, uma morte plena e repente pra virar um bom adubo.
Amém.
Publicado por Pequena em 27 de maio de 2010
http://amoreponto.blogspot.com/

segunda-feira, 19 de julho de 2010


Festa no outro apartamento

Anos atrás a cantora Marina compôs com o irmão dela, o poeta Antônio Cícero, uma música que dizia: "eu espero/acontecimentos/só que quando anoitece/é festa no outro apartamento". Passei minha adolescência inteira com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar, porém eu não havia sido convidada.Até aí, nada de novo. Não há um único ser humano que já não tenha se sentido deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. O problema está em como a gente reage a isso. A grande maioria que espera "acontecimentos" fica ligada demais na festa do vizinho, se perguntando: como fazer para ser percebido? A resposta deveria ser: percebendo-se a si mesmo. Mas é o contrário que acontece: a gente passa a se vestir como todo mundo, falar como todo mundo, pensar como todo mundo. Só então consegue passe livre: ok, agora você é um dos nossos, a casa é sua.As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação tão infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias de jornal. As pessoas alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.É preciso amadurecer para descobrir que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro não costumam ser revelados. Pra consumo externo, todos são belos, lúcidos, íntegros, perfeitos. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada/todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". Fernando Pessoa sacando que nada é o que parece ser.Sua solidão, sua busca por paz interior, seus poucos e leais amigos, seus livros, suas músicas, fantasias, de desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na sua biografia, e pode ser mais divertido que uma balada em algum lugar distante. Pegar carona na alegria dos outros é preguiça, e quase sempre é furada. Quer festa? Promova-a dentro do seu apartamento.
Martha Medeiros

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A modernidade é o que é - uma obsessiva marcha adiante -, não porque queira sempre mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torna mais ambiciosa e aventureira, mas porque as suas aventuras são mais amargas e as suas ambições frustradas. (...) Estabelecer uma tarefa impossível não significa amar o futuro mas desvalorizar o presente. O presente está sempre "a querer", o que o torna feio, abominável e insuportável."
"Modernidade e Ambivalência" de Zygmunt Bauman.

Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.
A carne nova come-se com velhos garfos.
Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros.
As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.
Tempos Modernos"Bertolt Brecht

terça-feira, 13 de julho de 2010


O Bêbado e o Equilibrista
Começa assim...
De repente um nó na garganta e um pequeno desassossego.
A sensação é que o tênue fio que o segura, o fio condutor, o fio mestre, aquele que lhe dá a razão de existir, está prestes a romper.
Sorrateiramente, uma voz começa a lhe questionar: Para quê tudo isso, aonde vai te levar?
Aumenta o atordoamento. Um ligeiro desequilíbrio e o cansaço de tudo. As cores da vida desbotam, e os olhos não querem mais abrir.
Agora, não mais uma voz, e sim uma nuvem espessa cresce paulatinamente encobrindo todas as coisas, toda a alegria. O fio condutor, por uns momentos, parece fugir de seus pés, e perto da exaustão sai de suas entranhas um grito rouco: “ Pare, isso vai levar-lhe para dentro do buraco!” .
“Hoje é domingo, pé de cachimbo,
o cachimbo é de ouro, bate no touro
o touro é fraco, cai no buraco,
o buraco é fundo, acabou-se o mundo”.
Movimento estranho, um redemoinho vai carregando tudo para o buraco sem fundo.
A estranha força, o fio condutor que assegura a tranquilidade e a beleza da vida, por pouco não rompe.
Às vezes , essa sensação dura dias ou meses e, às vezes, vai embora ligeiro, mas sempre deixa seus rastros de medo e perdição.
O grito rouco, o sopro enigmático disparou e mais uma vez salva esse equilibrista da vida.
Loucura, depressão, acídia, marasmo, que nome dar para isso?
Com certeza ”embriaguez do mundano”, síndrome ocasionada toda vez que nos vemos impossibilitados de tirar um pé do chão para trocar de passo, sem o contato com o Provedor da Vida-Deus.


participação de JULHO : Fabrica de Letras
Tema: DISPAROU

domingo, 11 de julho de 2010

MEMÓRIA AGRADECIDA
" A ressurreição de Jesus para a condição humana
alarga o espaço e a estreiteza da morte".

Pe. Dalton Barros de Almeida

"O tempo é feito para os ritos da relação e não da produção"

Pe. Dalton Barros de Almeida





"O cotidiano não deve significar mesmice .

Rotina em latim, significa "rodinha/ engrenagem necessária para a vida fluir.

Para que a vida não seja àspera nós criamos rodinhas.

O cotidiano deve ter Sentido, Valor e Prazer".

Pe. Dalton


fotos: Centro Pastoral Santa Fé/ São Paulo

sábado, 10 de julho de 2010


Sou mesmo um crítico triste; conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo
É COMUM se dizer, sobre o filósofo Kant (1724 – 1804), que duas coisas o encantavam: no universo, a lei da gravidade e, no mundo, a lei moral. Para mim, duas coisas me assombram: no universo, a solidão dos elementos e, no mundo, a misericórdia.
Não me refiro à falsa misericórdia, aquela que mais é uma alegria mesquinha que sentimos diante da miséria alheia e que é, na realidade, uma espécie de gozo infame a serviço dos recantos mais obscuros de nossa frágil alma.Perdão, mas hoje vou falar de cabala (a mística medieval judaica). Digo “perdão” porque, hoje em dia, ela está na moda.“Meu Deus, como amo a moda”, dizia a madame de Sévigné, em agonia. Deve-se evitar a moda. Infelizmente, “ensina-se” cabala por aí como se fora ela uma forma de escravizar Deus e o universo aos nossos desejos mesquinhos de sucesso.
Cara leitora mística, atenção: se alguém se disser “professor de Cabala”, cuidado! Antes de pagar as aulas, cheque se ele tem um profundo conhecimento de hebraico (não basta ser fluente na língua). Se não for o caso desista.Se quiser escravizar o universo aos seus mesquinhos desejos de sucesso, restrinja-se a alguma técnica energética barata.
Deve haver uns dez caras no mundo que entendem de cabala e nenhum deles mora na Vila Madalena ou atende via web.Um dos “galhos” da árvore da cabala é chamado “Hod”, que é traduzido por especialistas em história da cabala como “agradecimento”

.É nisso que penso quando lembro que respiro, que minha mulher e meus filhos respiram, que meus (poucos) amigos respiram e, às vezes, sorriem.Muitos teólogos sejam judeus, sejam muçulmanos ou sejam cristãos afirmam que a única teologia verdadeira é aquela que agradece. O leitor pergunta: “Mas este colunista deve ser bipolar. Como pode escrever hoje isto, se, nas semanas passadas, parecia habitado pelo demônio da crítica triste do mundo?”.Fácil responder essa. Não tenho diagnóstico de bipolaridade, mas quase sempre sou mesmo um crítico triste do mundo.
Conheço melhor a tristeza do demônio do que a beleza do mundo (acalme-se, leitor, uso a palavra “demônio” como metáfora) e, por isso, é que me sinto parte da humanidade.Os humores variam, como as águas de um mar que responde a fúria da fortuna. Pela tradição judaica, Davi é o especialista na maior virtude hebraica antiga: a humildade. Em seus belos Salmos, ele canta a beleza de Deus e Sua misericórdia que escorre do Céu.Muitos localizam esta misericórdia na mesma “árvore”, como sendo “Hesed” (as vezes também traduzida como “piedade”). Davi respira essa misericórdia, por isso ele é considerado o “preferido de Deus”.Comentários rabínicos ao primeiro livro da Torá, “Bereshit” (na tradição cristã, Gênesis), contam uma história interessante sobre a relação entre a Justiça, a Verdade e a Misericórdia na origem da Criação.
Faço aqui a minha versão preferida dessa tradição: para mim a Verdade de Deus é Sua misericórdia. Estava Deus prestes a criar o homem e a mulher quando foi assolado por dúvidas terríveis. Chamou então alguns de seus assessores, a Justiça (próxima à ideia de julgamento ou “Din”, outro atributo divino na cabala) e a Misericórdia.Pergunta Deus a eles se valeria a pena criar o homem e a mulher, levando-se em conta o que nós faríamos (o pecado). A Justiça se coloca contra a empreitada dizendo que nós não valemos o “investimento”.Somos mentirosos, infiéis e orgulhosos. Seu voto seria contra. Já a Misericórdia vota a nosso favor. Diz que, mesmo sendo como somos, daríamos grande alegria a Deus nos poucos momentos em que seriamos capazes de ver, em meio à impenetrabilidade assustadora do nosso orgulho, Sua beleza.Deus pensa e decide a nosso favor.Todavia, talvez como forma de castigar a Misericórdia, que O convenceu a nos criar, Ele a despedaça contra o chão e a dispersa pelo mundo.Assim sendo, ficamos submetidos, desde o alto, à desconfiança eterna da Justiça divina, ao mesmo tempo em que desesperados, arrastando pelo chão, buscamos os cacos da Misericórdia (ou da Verdade) que habita os recantos distantes do mundo e os detalhes infinitos da vida.Por isso, dirão os sábios, Deus está no detalhe. Felizes aqueles que conseguem ainda contemplar a delicadeza desses detalhes. Toda vez que vejo a Misericórdia no gesto de alguém, me calo.

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, 17/05/2010 LUIZ FELIPE PONDÉ

domingo, 4 de julho de 2010


PROMESSA DE VIDA

Tem trechos que a vida amolece a gente.
Guimarães Rosa


É senso comum entre nós, brasileiros, que o ano inicia, de fato, depois do carnaval, quando começamos a colocar em andamento os planos traçados.
Apesar das chuvas, que castigam anualmente muitas cidades, trazendo problemas tão graves para tantas famílias, não são destas águas e sim das águas de Tom Jobim que quero falar.
“....são as águas de março fechando o verão,
é a promessa de vida no teu coração”.
Águas que chegam para lavar e arrastar os percalços do caminho, anunciando novos sonhos, novos projetos de vida.
Somos cientes de que estamos vivendo momentos difíceis, tempo de transição, com crises irrompendo em todas as dimensões das nossas vidas e, como consequência, um atordoamento constante.
Há muito pau, pedra ,resto de toco, caco de vidro,estrepe, prego,lama no caminho.
Não é possível fecharmos os olhos e negar a realidade impiedosa em que vivemos: desemprego aumentando em todo o mundo, guerras, terrorismos, terremotos financeiros e geográficos, desagregação familiar e muito mais.
No entanto, a capacidade de sonhar, acreditando que é possível mudar essa situação, precisa correr muito forte em nossas veias, pois não podemos propagar o negativismo e desacreditar em nossas forças e no poder do nosso Criador. É preciso lutar com os sentimentos de impotência, apatia, temor e conformismo ( doenças da modernidade tardia) que acabam surgindo em todos nós.
Precisamos, frente ao mistério profundo que é a vida, seguir a marcha estradeira e crer que há sol, regato, fonte , peixe ,lenha, um pedaço de pão. Que as condições necessárias existem e estão ao nosso dispor, desde que façamos o projeto da casa juntos, com a firme convicção de que ela deve ser para todos.
Afinal há tijolos chegando. isto é, há recursos intelectuais e humanos sempre disponíveis , se utilizados com criatividade e alojados éticamente para o bem comum . Sempre haverá tijolos chegando, se nossas disposições para o belo, para o bem e para o certo forem orientadas pelos ensinamentos do grande arquiteto, Jesus Cristo.
Um belo horizonte e a “Terra Prometida” serão por todos vislumbrados se não levantarmos trincheiras com nossas atitudes , se não provocarmos exclusões e separações de qualquer ordem.
A promessa de vida em teu coração é o convite para voltar a sonhar, acreditar e lutar pelos ideais que estão sendo abortados e sufocados em nossas vidas.
Esta tarefa de” limpar o terreno” não é tarefa para indivíduos (aqueles que se fecham em si mesmos) e sim, para cidadãos( os que se abrem para o bem comum).
Quando, verdadeiramente, nos conscientizarmos de que o egoísmo, o individualismo, o consumismo, e todos os “ismos” são o carro enguiçado dos nossos tempos, então conseguiremos alcançar o fim da ladeira, o fim da canseira, a luz do amanhã.
Um mundo melhor é tarefa desafiadora ,pois exige que fiquemos lado a lado, João, José, Eu e Você.
Todos unidos nos mesmos ideais seremos as águas de março, fechando esses tempos difíceis e trazendo a esperança de um mundo melhor às próximas gerações.
Inspiração:
Águas de março: Tom Jobim (letra e música)
crônica escrita em março/2009 para a revista Ranking Social
autoria: Eliete T. Cascaldi Sobreiro

quinta-feira, 1 de julho de 2010


Certas coisas

Affonso Romano de Sant’Anna

Certas coisas não se podem deixar para depois.
Muitos poemas perdi pensando:
“depois escrevo”,“agora estou almoçando”
ou “consertando a porta”.
Assim, adiei-perdio melhor? de mim.
Certas coisas não se podem deixar para depois,
e nisto incluo: frutos no galho,mudanças sociais,
certas coxas e bocas e esta manhã que se esvai.
Certas coisas não se podem deixar para depois.
O amor não se adia como se adiam o imposto,
a viagem, a utopia.
O desejo sabe o que quer,detesta burocracia.
Feito depois, o amor é murcha lembrançado que,
não sendo, seria.
Certas coisas não se podem deixar para depois.
Como o amor e as pessoas,
não se pode recuperar- a poesia.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Não durmo para descansar...
simplesmente durmo para sonhar.

Walt Disney





"Não deixe que os seus medos
tomem o lugar dos seus sonhos"
Walt Disney

segunda-feira, 28 de junho de 2010

domingo, 27 de junho de 2010


A liberdade é realmente um jogo maior que o poder.

O poder diz respeito ao que você pode controlar.

A liberdade diz respeito ao que você pode desatar.

Harriet Rubin

quinta-feira, 24 de junho de 2010


MA-RA-VI-LHO-SO...
ESTOU AMANDO...
Em busca do Tempo Perdido (No caminho de Swann) ,Proust
"Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por que, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena.
Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusórios sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza.
De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la?
Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo.
É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida.
É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato a minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito.
É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá.
Explorar? Não apenas explorar: criar.
Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.”

quarta-feira, 23 de junho de 2010


Tristeza, sim, tem fim
Músicas que ampliam a angústia do adeus nos lembram dos améns que dizemos para ficar junto de alguém.
QUANDO SOFREM pancadas que atingem o coração, as pessoas se perguntam por que, para corrigir os erros e se preparar para acertos.Mas o vazio que sentem é tão profundo que as paralisa.Provoca autopiedade, não autoanálise; depressão, não determinação. Ironicamente, um mergulho no desespero é um meio de se recuperar.Eu, quando estava de coração partido, ouvia baladas de Sinatra sobre a agonia do abandono: confirmavam e ampliavam o que eu já sentia.Se ele, em "I'm a Fool to Want You"(sou um tolo de te querer), podia implorar a alguém incapaz de amá-lo "Take me back!"(volte pra mim!), por que eu, mero mortal, não poderia ter a mesma fantasia? Deixava Sinatra me arrastar para o fino da fossa, onde podia exaurir minha dor e me erguer de novo.Ouvir música de autoajuda como "Amanhã é Outro Dia" me afundaria mais. Precisava me sentir como o personagem sem amor do livro "Tanto Tempo na Pior que o que Pintar é uma Boa".Quem se nega a fazer esse mergulho emocional tem medo de sentir. Alguns se protegem da dor do abandono depreciando-a. Comparam quem os deixou a bondes e dizem: outro logo vai passar.Outros fingem que o amor é indolor. Basta pensar em um recém-largado que tenta ser o mais animado da festa.Brasileiro também usa música de fossa para curar o coração, da desesperadora "Me Dê Motivo", de Tim Maia, à dilacerante "Atrás da Porta", na voz de Elis.Mas bossa nova melancólica também pode ser trilha de cena de amor ou animar baile. Casais mais velhos dançam agarradinhos ouvindo sucessos como "Tristeza Não Tem Fim" ou "Eu Sei que Vou te Amar", que evoca a dor de cada despedida.É o mesmo com a canção de Cole Porter, "Ev'ry Time We Say Goodbye", que sussurro para a minha mulher em momentos românticos.Essas músicas, ampliando a angústia do adeus, lembram-nos dos améns que dizemos por estarmos juntos."Futuros Amantes", de Chico Buarque, também investiga por que as músicas sobre amores que já se foram criam um clima romântico.Os vestígios do amor que a canção menciona (fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos) vão contagiar quem quer que os descubra.A mensagem da música? O amor é uma força que se autorregenera. Como a fênix mitológica, pode morrer em um clarão, mas se levanta das cinzas e nasce mais uma vez.


MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 27 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque- confissões e desabafos de um gringo brasileiro" (ed. Record).

segunda-feira, 21 de junho de 2010


Tenho comigo que chorar é nobre, expressão maior dos melhores sentimentos que habitam nosso interior.
Quando as lágrimas insistem em cair, quando os olhos ficam vermelhos e o nariz dá sinais de que fez seu esforço máximo para conter tal emoção, é a linguagem mais clara de que aquela pessoa está em contato com sua alma. As máscaras vão, como geleiras, despencando gradativamente.
É a pessoa em seu estado nu e cru; à flor da pele. Totalmente sem defesas, entregue, demasiadamente humana.
Talvez seja por sentir-se assim que, ao chorar, escondemos nossos rostos com as mãos; uma tentativa de proteger-nos frente a fragilidade que rompe : imperativa e retumbante.
Os olhos fecham-se, tentam comprimir-se com muita intensidade, mas os soluços saem do peito como vulcão. Nesses momentos, as lágrimas parecem gotas resignadas e caladas, que evadem envergonhadas daquela tempestade assustadora, procurando ,quem sabe, pelo mar...
Chorar é o melhor do nosso Ser; é como o dormir, onde todos são inocentes e puros.
É a alma que, com o seu soluço, tenta expressar a angústia perante o viver; é a confirmação da fragilidade ; é o entregar as armas.
Talvez, cobrir o rosto seja uma tentativa para que o outro não fique contagiado com essa aflição ou, quem sabe, porque desejamos viver nossa dor intimamente.
De qualquer forma, penso que não devemos dizer para uma pessoa não chorar, ou que pare com seu choro. Permita a expressão desse milagre ,e se quiser dizer alguma coisa, diga: chore quanto quiser ou precisar,e saiba que estarei aqui, bem perto de você.
Eliete Cascaldi Sobreiro


“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne,e sangra todo dia.”
José Saramago (R.I.P.)

domingo, 20 de junho de 2010

Meu adeus a José Saramago
Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008
Na categoria
Outros Cadernos de Saramago
José Saramago pelas lentes do fotógrafo SebastiãoSalgado


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Nossa família está em festa...


Nossos corações celebram...

os 80 anos de nossa mãe: MARIA IGNEZ

faremos uma linda festa "SURPRESA"

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mais surpresas na caminhada de domingo...
...há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado...
Seu relincho estremece as raízes

e ele ensina aos ventos
a alegria de sentir livres seus movimentos.

trechos da poesia de Cecília Meireles :Cavalinho branco

DOMINGO: CLARICE LISPECTOR

Que perfume, é domingo de manhã. O terraço está varrido. Liga o rádio, então. Almoçar tarde dá pensamentos, ele ri e dá-lhes uma forma. Se bebe água,mas domingo ninguém tem sede. E começa a beber vinho sem a ânsia da sede. Às quatro horas da tarde hastearão a bandeira no pavilhão.(Mas do que ele tem mesmo medo é dessas noites felizes de domingo) .

domingo, 13 de junho de 2010

Caminhando bem cedo tive uma linda surpresa...
Apaixonei-me
Será que é preciso dizer alguma coisa?

sábado, 12 de junho de 2010


CONSELHO PARA ESCOLHER CARREIRA

A escola pública italiana impunha uma aula semanal de religião (católica, claro). Na terceira série, aprendi que, para me tornar sacerdote, seria imprescindível que eu tivesse "a vocação" (com o artigo definido).
Em princípio, essa condição facilitava as coisas: afinal, ou eu era chamado por Deus ou não era. No entanto, Deus não chama a gente por carta registrada.

Era possível, eu pensava, que ele se manifestasse por sinais misteriosos, que eu não entenderia, ou pior, que eu evitaria entender -talvez porque preferisse perseguir ambições mais mundanas ou porque meus pais não gostassem da ideia de ter um filho padre.

Seja como for, se eu recebesse, mas não escutasse a chamada, não estaria apenas fazendo pouco caso da vontade divina: eu estaria fugindo de meu destino, seria culpado de desperdiçar minha vida.
Na quarta e quinta séries, foi a vez de o Estado se preocupar com nossas vocações. Naquela época, era necessário escolher muito cedo entre o clássico, o científico e os cursos técnicos que levavam diretamente para o trabalho, sem dar acesso para as faculdades.

Tratava-se, portanto, de saber se tínhamos jeito para as humanas ou para as exatas e, em cada caso, qual era o tamanho do nosso jeito. Uma casa caiu, sepultando seus moradores; seu primeiro pensamento é "se Deus existe, por que ele permite tamanho sofrimento?"; pois bem, as humanas são sua vocação.
Restava verificar, com outros testes, se você tinha pano suficiente para ser professor de filosofia ou se era melhor que você se contentasse em ser repetidor no primário.

De fato, a orientação profissional precoce eternizava a divisão social (nunca vi um aluno de classe média-alta ser encaminhado para cursos técnicos). Mas a intenção era nobre: descobrir qual era a semente escondida em cada um de nós.
Detectando o embrião de nossas aptidões e disposições, poderíamos agir de maneira que a vida realizasse plenamente o nosso potencial.

A partir dos anos 60, em grande parte graças à influência da psicologia de Alfred Adler, ficou claro que, na hora de escolher uma carreira, os talentos e as predisposições são tão importantes quanto os sonhos, os devaneios, as paixões e as imagens idealizadas de tal ou tal outra profissão que encontramos, por exemplo, nas ficções que nos marcam.

O medo de não escutar a chamada divina foi substituído pelo medo de não entender direito nosso próprio desejo -pois seríamos competentes, "realizados" e felizes só se nossa profissão for uma extensão de nossas paixões íntimas. Nesse caso, o trabalho seria leve e divertido, como um hobby.
Em suma, a semente que estaria em nós e que deveria vingar se tornou mais complexa. Mas a ideia de que existe uma semente que é preciso descobrir continuou valendo e preocupando pais e filhos.

Uma leitora, Cecília, me escreve sobre as inquietudes da filha, Luana, 16, na hora de escolher uma carreira que esteja "em consonância com a personalidade, o temperamento, o querer" de Luana e também "com o mercado do trabalho".
Uma sugestão para Luana. Entendo que a escolha de um vestibular, de uma faculdade e, em última instância, de uma profissão, pareça um ato definitivo, mas não é nada disso.

Você pode mudar de faculdade e de carreira; pode cursar um ano de direito, escolher passar para ciências sociais, decidir que o que você realmente quer é biologia e, quem sabe, cursar medicina aos 35 anos. Menos óbvio e mais importante é entender que essas mudanças não seriam a prova de fracasso algum.

Se você mudar de faculdade ou carreira, não será porque você se enganou na tentativa de descobrir qual era a semente que você carregava consigo.

Aliás, esqueça a ideia da semente. Ser jovem não é ser semente; é ser, antes de mais nada, uma narrativa aberta. Imagine que você é o começo de uma história: havia uma moça de 16 anos que gostava dos Beatles e dos Rolling Stones e, um belo dia, ela saiu para fazer sua inscrição no vestibular... Continue. E lembre-se de que uma boa história tem reviravoltas e surpresas.

Em poucas palavras, em vez de tentar descobrir a famosa semente, invente sua vida.
CONTARDO CALLIGARIS

quarta-feira, 9 de junho de 2010

ALÉM DO ESPELHO
Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu
A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de ver seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que olhando meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu
A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu
A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Homenagem ao meu querido pai que vive em nossos corações .

domingo, 6 de junho de 2010

Estava vazio...

A chícara espera pelo café,
A meia, pelo pé
E eu espero por você.

O prato está cheio,
O trânsito engarrafado
E eu espero por você.

A página está em branco,
O livro, por abrir
E eu espero por você.

Sou cheia de sonhos,
Você ,repleto de medos...
Mesmo assim: espero por você.

Sem tempo para amar
Sem espaço para dançar,
Com artérias entupidas
Com sobrecarga de deveres,
Mesmo assim: espero por você.

Vazios e cheios,
carentes e descrentes
vamos vivendo.
Será que cada dia
mais solitários seremos?

Desafio: Fábrica de Letras

Tema: Estava vazio

autoria: Eliete T. Cascaldi Sobreiro


quinta-feira, 3 de junho de 2010


Pôr da Lua
Hoje estou com uma tristeza mansa e bonita. Acabo de contemplar um pôr-da-lua...
Ah! Você nunca viu ninguém falar sobre "pôr-da-lua”? Nem eu. Os poetas falam muito sobre o pôr-do-soL "Mas eu fico triste como um pôr-do-sol”, escreveu Alberto Caeiro. E Wordsworth, nos seus versos famosos: «As nuvens que se juntam ao redor do sol que se põe/ ganham suas cores solenes/ de olhos que têm atentamente/ montado guarda sobre a mortalidade humana”. E Browning: “Quando nos sentimos mais seguros, então acontece algo: um pôr-do-soL E outra vez estamos perdidos». E Bachelar: A vela que se apaga é um sol que morre. A vela morre mesmo mais suavemente que o astro celeste"".
Os pores-do-sol nos comovem porque somos seres diurnos. O pôr-do-sol é o fim do dia. Metáfora do fim da vida. Daí a sua tristeza. E se fôssemos seres noturnos, aves para as quais o pôr-do-sol não é o fim, mas o inicio da noite? Então o sol poente anunciaria a madrugada da noite, o nascer do viver.
Põe-se o sol; nasce a lua. Com a lua nascente, para os seres noturnos, começa o tempo da vida, o tempo do amor. O cri-cri dos grilos, o coaxar dos sapos, o pio das corujas, o piscar dos vaga-lumes e o vôo frenético das mariposas. Pulsações de uma vida que desperta quando a noite cai e a lua nasce. Então, para os seres noturnos, um pôr-da-lua deve ter a mesma beleza triste que tem um pôr-do-sol para os seres diurnos.
Entre nós, humanos, não haverá seres noturnos? Indo um pouco mais fundo: não haverá em todos nós um ser noturno que aparece quando o ser diurno vai dormir? O sol desperta em nós o ser que pensa, age e trabalha. A lua desperta o ser que sonha, contempla e ama. Fala a Cecília sobre a lua que envolve os noivos abraçados. Ah! Como o verso ficaria ridículo se, em vez de lua, ela dissesse sol! A luz da lua desperta em nós o ser tranquilo. Parodiando Bachelard: «Quer ficar tranquilo? Contemple a lua que faz mansamente o seu trabalho de luz”. Há recantos da alma que só acordam sob a luz branca e fria da lua. Ouça os “Noturnos”, de Chopin, e sua nostálgica beleza. Como o seu nome diz, foi no silêncio da noite que Chopin os ouviu. E o “Clair de Lune”, de Debussy?
A psicanálise é um ser noturno. Ela só acorda quando o sol se põe e a noite desce. Ela só vê bem na escuridão. A luz do sol a ofusca. Por isso, durante o dia, ela fica em silêncio, deixando que outros falem. Descendo a noite, entretanto, os homens se põem a sonhar e a amar. É ai, em meio ao sonhar e ao amar, que a psicanálise acorda e se põe a cantar o seu canto manso de coruja de Minerva. Brilham luzes suaves na noite escura do inconsciente: estrelas, vaga-lumes, meteoros e luas, muitas luas... Quando essas luzes brilham, acordam os artistas, os poetas, os místicos e os intérpretes de sonhos. Estou triste porque contemplei um pôr-da-lua: Judith Andreucci era uma lua no mundo da psicanálise. Ela mergulhou no horizonte. Não mais veremos o seu brilho suave. Quem era ela?
Era uma maga de voz mansa e rosto tranquilo. Se estranham que eu a chame de maga, digo que foi o próprio Freud que reconheceu o parentesco entre a magia e a psicanálise (como Guimarães Rosa viu o parentesco entre a magia e a poesia).A psicanálise é um exercício de poesia. Não admira que Freud tenha encontrado iluminação para a sua arte não na ciência, mas na literatura. Somos literatura. Cada pessoa é um poema encarnado. Aprendemos psicanálise lendo-nos ruminantemente. Somos textos da literatura e da poesia do corpo. A nossa infelicidade —neurose, se quiserem— se deve ao fato de que nos esquecemos do poema que está em nós inscrito.
O psicanalista é o intérprete do poema estrangulado. Intérprete não no seu sentido comum, de alguém que diz em linguagem diurna o que o corpo diz em linguagem noturna. Essa é interpretação, necessária quando se trata de esclarecer obscuridades diurnas, de inspiração cartesiana, filosófica. Mas há um outro sentido para a palavra “interpretação”, que nos vem da música. O pianista lê a partitura silenciosa, deixa-se ser possuído por ela e, possuído, ele a “interpreta” ao piano: realiza-a como música, tornando sensível a beleza.
Pois nós somos partituras que nós mesmos não sabemos interpretar. O ofício do psicanalista é o oficio do artista: ele lê a partitura misteriosa que nós mesmos não entendemos e interpreta-a para que, ouvindo a nossa própria beleza, sejamos por ela libertados.
Judith Andreucci era psicanalista. Era uma intérprete, no sentido musical. Lembro-me bem da sessão em que conversamos sobre um sonho que tive: eu tocava o prelúdio 22, do primeiro volume do “Cravo Bem Temperado”. Mas o tocava de uma forma estranha, com as mãos cruzadas, enquanto dizia: “Esse prelúdio é muito organístico”.
A psicanálise (como a religião) tem uma vertente, a meu ver, sinistra, identificada por Bachelard de forma humorística: “O psicanalista é alguém que, diante de uma flor, logo pergunta: ‘Mas o estrume, onde está?”’. A doutora Juju — era assim que a chamávamos na intimidade— procedia ao inverso. Vendo estrume, perguntava: “E a flor, onde está?”. Ela se permitia ser levada pelo humor e pela beleza. Ela se deleitava com a minha música. Lembro-me que, relatando-lhe as coisas incríveis que aconteciam no sobradão colonial do meu avô, onde passei boa parte da minha vida, ela dizia com espanto e deslumbramento:
«Mas doutor, isso é mais fascinante que ‘Cem Anos de Solidão”’. Foi ela que me encorajou a explorar o inconsciente belo e equilibrado que é o nosso destino.
No seu consultório, havia uma gravura que me impressionou e da qual não me esqueço. Era um enorme bloco de gelo, transparente, um iceberg flutuando no mar e, dentro dele, uma figura humana congelada. Haverá metáfora mais forte para a condição humana?
A lua se pôs. Mas a sua luz, onde tocou, ficou...

Rubem Alves - psicanalista, escritor e professor emérito da Unicamp, é autor de “O Amor que Acende a Lua” e "Concerto para Corpo e Alma", entre outros. www.rubemalves.com.br

quarta-feira, 2 de junho de 2010


Quino, Autor da “Mafalda”, desiludido com o rumo deste século no que respeita a valores e educação, deixou impresso nos cartoons o seu sentimento.


















domingo, 30 de maio de 2010


A ERA DA CORRERIA

Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente. Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores. Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqUentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho. Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.Aprendemos a nos apressar e não, a esperar.Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos. Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias.Essa é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Essa é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas 'mágicas'. Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na despensa. Uma era que leva essa carta a você, e uma era que te permite dividir essa reflexão ou simplesmente clicar 'delete'.Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Lembre-se dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer. Lembre-se de dizer 'eu te amo' à sua companheira (o) e às pessoas que ama, mas, em primeiro lugar, ame... Ame muito.
GEORGE CARLIN

sexta-feira, 28 de maio de 2010


ESCONDE –ESCONDE
O psicanalista inglês Donald W. Winnicott expressou certa vez o seguinte pensamento: “Esconder-se é um prazer, não ser encontrado é um desastre”.
Penso que, nesta frase, encontram-se aspectos fundamentais para nossas relações pessoais.
Na infância, com certeza, todos nós brincamos de esconde-
-esconde. Buscávamos lugares difíceis, como esconderijos para que ninguém nos achasse, e assim nos sentíamos vitoriosos. Mas, se depois de algum tempo, ninguém viesse à nossa procura , íamos sentindo medo ou tristeza e passávamos a acreditar que as pessoas haviam-nos esquecido. Assim, aquela brincadeira tornava-se um desastre.
Acontece de pessoas já adultas, sem muita consciência do mecanismo utilizado, continuarem a “brincar” de esconde-
- esconde com seus amigos. Distanciam-se de pessoas de que gostam, agora, não mais como diversão, e sim com o propósito de “checar” se elas serão procuradas. Acontece que o” Outro” com quem estas pessoas “jogam”, não tem a mínima ideia dos seus propósitos, e entendem o sinal emitido (afastamento) como uma manifestação do desejo de ficar só, e assim não buscam a aproximação, respeitando o companheiro.
Instala-se, assim, um desastre.
Este mecanismo tende a repetir-se por mais vezes, e o resultado acaba sendo o isolamento, esquecimento ou mesmo o fim de uma relação prazerosa. Terminam-se amizades que eram importantes, sobrando aos envolvidos grandes mágoas e , muitas vezes, a certeza errônea de que as pessoas não são amigas e muito menos confiáveis.
É a mais pura insensatez, pois a pessoa que assim se comporta , não percebe que suas atitudes expressam o contrário dos seus desejos , e estará sempre tecendo teias que acabam por isolá-la das pessoas queridas.
A realização pessoal só é alcançada quando se é capaz de construir o lugar do singular e do coletivo em nossas vidas.
Esta construção requer atenção contínua e autoconhecimento, para agir sem ambiguidades, pois ” desejo entendido é desejo atendido”.
Muitas vezes, acabamos perdendo pessoas e situações valiosas como consequência das incoerências das atitudes e da baixa autoestima que portamos .
autoria: Eliete T. Cascaldi Sobreiro




Apontadora de Idéias

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"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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