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quarta-feira, 11 de abril de 2012


“Ás vezes é preciso dormir, dormir muito. Não pra
fugir, mas pra descansar a alma dos sentimentos. Quem nasceu com a
sensibilidade exacerbada sabe quão difícil é engolir a vida. Porque tudo,
absolutamente tudo devora a gente. Inteira.”
Marla de Queiroz

segunda-feira, 2 de abril de 2012


Abrimos um álbum e mostramos aos amigos as fotos da viagem. Paisagens. Aqui um lago. Ali um pôr-do-sol. A foto é a mesma. Mas quem garante que as paisagens das almas sejam as mesmas?
Aquilo que sinto, vendo o lago e o pôr-do-sol, não é a mesma coisa que você sente, vendo o mesmo lago e o mesmo por-do-sol. “O que sinto, a verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é”, diz Bernardo Soares.
As paisagens da alma não podem ser comunicadas. A alma é um segredo que não pode ser dito. Por isso, quanto mais fundo entramos nas paisagens da alma mais silenciosos ficamos. A alma é o lugar onde os sentimentos são profundos demais para palavras. “Calamos”, diz Sor Juana, “não porque não tenhamos o que dizer, mas porque não sabemos como dizer tudo aquilo que gostaríamos de dizer”.
(Rubem Alves. In: As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas [SP]: Papirus Editora, 2001, p. 153.

terça-feira, 20 de março de 2012



“Árvore (…) é uma pessoa que não fala; que vive sempre de pé no
mesmo ponto; que em vez de braços, tem galhos; que em vez de unhas, tem folhas;
que, em vez de andar falando da vida alheia e se implicando com a gente (como
os tais astrônomos), dão flores e frutas. Umas dão pitangas vermelhas; outras
dão laranjas doces ou azêdas – e é destas que tia Nastácia faz doces; outras,
como aquela enorme ali (as lições eram sempre no pomar) dão bolinhas pretas
chamadas jaboticabas (…) [as árvores não saem do mesmo lugar] Porque têm raízes
(…) Raiz é o nome das pernas tortas que elas enfiam pela terra adentro. Bem
querem andar, as pobres árvores, mas não conseguem. Só saem do lugarzinho em
que nascem quando surge o machado. (…) Machado é o mudador das árvores – muda a
forma delas, fazendo que o tronco e os galhos fiquem curtinhos. Muda-lhes até o
nome. Árvore machadada deixa de ser árvore. Passa a ser lenha. (…).
(Monteiro
Lobato, Memórias da Emília, São Paulo: Brasiliense, 1973, p. 92-93)

quinta-feira, 15 de março de 2012


Disquisição na insônia:

" Que é loucura;
ser cavaleiro andante
Ou
segui-lo como escudeiro?
De nós dois,
quem o louco verdadeiro?
O que,
acordado, sonha doidamente?
O que,
mesmo vendado,
Vê o
real e segue o sonho?
Eis-me, talvez, o único
maluco,
E me
sabendo tal, sem grão de siso,
Sou -
que doideira - um louco de juízo."

Carlos D
rummond de Andrade sobre Dom Quixote.

terça-feira, 13 de março de 2012



vale a pena conhecer o blog : http://10paezinhos.blog.uol.com.br/arch2010-01-01_2010-01-31.html

Quem apresentou-me o trabalho de Fábio Moon e Gabriel Bá, foi o meu filho e genro Luis Octávio

sábado, 10 de março de 2012

Agora, aqui, veja, é preciso correr o máximo que você puder para permanecer no mesmo lugar. Se quiser ir a algum outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais de pressa do que isso!
Lewis Carroll

domingo, 4 de março de 2012


"O que é REAL?, perguntou o Coelho um dia, quando estavam deitados lado a lado, perto da grade do quarto das crianças, antes de Naná vir arrumar o quarto.
"Significa ter coisas que murmuram dentro de você e uma alça do lado de fora?"
"Real não é a forma com que você é feito", respondeu o Cavalo de Pele.É uma coisa que acontece com você. Quando uma criança gosta de você por muito , muito tempo, não somente para brincar, mas gosta REALMENTE de você, aí você se torna Real". ...
"Não acontece de repente" continuou o Cavalo de Pele.
"Você se transforma. Leva bastante tempo. É por isso que nem sempre acontece para quem se quebra com facilidade ou tem bordas àsperas ou precisa ser guardado com cuidado. Geralmente, até você se tornar Real, a maior parte de seu pêlo já caiu de tanto carinho,você já perdeu os olhos, está com as juntas moles e bastante gasto.Mas essas coisas não têm a mínima importância, porque quando você é REAL, não pode ser feio, a não ser para quem não entende".
The Velveteen Rabbit, por Margery Williams

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


"O importante não é morrer nem em que idade se morre ,
é o que se está fazendo no momento em que se morre".
A elegância do ouriço/Muriel Barbery
um livro que recomendo

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Todo momento é importante,
Todo encontro é surpresa.
Todo rosto é revelação.
Carlos G. Vallés

domingo, 29 de janeiro de 2012

Gostei muito deste livro...


Algumas vezes as pessoas podem desaparecer bem diante dos nossos olhos. Às vezes o descobrem mesmo quando estavam olhando para você o tempo todo. Às vezes nos perdemos de vista quando não estamos prestando atenção suficiente.



...Todos nós nos perdemos de vez em quando, algumas vezes por escolha própria, outras devido a forças além do nosso controle. Quando aprendemos a necessidade de aprendizado da nossa alma, o caminho se apresenta por si só. Algumas vezes enxergamos o caminho,mas vagamos para mais longe e mais adentro sem nos darmos conta; o medo, a raiva ou a tristeza não nos permitem retornar.Às vezes preferimos ficar perdidos e vagar, às vezes é mais fácil assim . Algumas vezes encontramos nossa própria saída.Mas, seja como for, sempre somos encontrados.


Cecelia Ahern

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Tiare_Rose_Bent



...Já ouvi demais sobre a audácia heróica.

Conte-me como você desmorona quando

esbarra no muro,

o lugar que você não pode transpor pela força

da sua vontade.

O que conduz você para o outro lado desse muro,

para a frágil beleza da sua condição humana?




...Mostre-me como você cuida dos negócios

sem deixar que eles determinem quem você é.

Quando as crianças estão alimentadas mas as vozes

internas e as externas

gritam que os desejos da alma têm um preço alto

demais,

vamos lembrar um ao outro que o que importa não é o
dinheiro.


Oriah M.Dreamer
A Dança

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012







Pelo sonho é que vamos
Pelo sonho é que vamos,comovidos e mudos.
Chegamos?





Não chegamos?



Haja ou não haja frutos,pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.



Basta a esperança naquilo que talvez não teremos.




Basta que a alma demos,com a mesma alegria,




ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia.
Chegamos?




Não chegamos?




- Partimos.




Vamos.



Somos.
(Sebastião da Gama
)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011



A felicidade (Jorge Luis Borges)


O que abraça a uma mulher é Adão.

A mulher é Eva.

Tudo acontece pela primeira vez.

Hei visto uma coisa branca no céu.

Dizem-me que é a lua,mas que posso fazer com uma palavra e com uma mitologia.

As árvores me dão um pouco de medo.

São tão formosas.

Os tranquilos animais se aproximam para que eu lhes diga seu nome

Os livros da biblioteca não têm letras.

Quando os abro surgem.

Ao folhear o atlas projeto a forma de Sumatra.

O que acende um fósforo no escuro está inventando o fogo.

No espelho há outro que está à espreita.

O que olha o mar vê à Inglaterra.

O que profere um verso de Liliencron há entrado na batalha.

Hei sonhado a Cartago e as legiões que desolaram a Cartago.

Hei sonhado a espada e a balança.

Louvado seja o amor no qual não há possuidor nem possuída,mas os dois se entregam.

Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o inferno.

O que descende a um rio descende ao Ganges.

O que olha um relógio de areia vê a dissolução de um império.

O que joga com um punhal pressagia a morte de César.

O que dorme é todos os homens.

No deserto vi a jovem Esfinge que acabam de lavrar.

Nada há tão antigo baixo o sol.

Tudo acontece pela primeira vez, mas de um modo eterno.


O que lê minhas palavras está inventando-as.
(Tradução de Héctor Zanetti)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011



Uma das orações matinais do poeta Juan Ramón Jiménez :


LIVRE-ME DE ADERÊNCIAS , AURORA.

Que hoje seja apenas hoje!

domingo, 20 de novembro de 2011

imagem da internet


Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem percorre para se conhecer. Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza.


Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente aprender o idioma que as rãs falam com as águas e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros do mundo pelo coração de seus cantos.

Estudara nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens. Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles – esse pessoal.



Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala.


Sócrates falava que as expressões mais eróticassão donzelas. E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.
Do livro: “Memórias Inventadas – As infâncias de Manoel de Barros”.

terça-feira, 8 de novembro de 2011



Quando quero ficar humilde eu visito os açougues,entro em um em um, pra ver as mulheres de chinelo de borracha, apertando os pedaços com aqueles dedos grossos que não merecem anéis.

Dizem que todo mundo tem uma crucificaçãozinha particular que é muito boa pra abaixar o orgulho e é mesmo.



A simplicidade é aquela que em todas as leis divinas deixa para os que vão perecer toda verbosidade, ostentação e preciosidade, enfeites e curiosidade, e vai atrás da medula e não da casca, do conteúdo e não do continente".(escritos de São Francisco).



Fonte: Adélia Prado /Solte os cachorros / Record editora








sexta-feira, 4 de novembro de 2011






A boa manhã
Rubem Braga




Apenas passo os olhos pelos jornais; jogo-os fora, alegremente, porque eles pretendem dar-me notícia de muitos problemas, e eu não tenho nem quero problema nenhum.


Acordei um pouco tarde, abri todas as janelas para o sábado louro e azul, e o mar me deu bom-dia. Passa um pequeno barco branco no mar de safira: como vai ligeiro, como vai contente, com seu bigodinho de espumas brilhantes! Uma ave se detém um instante peneirando, depois mergulha na vertical em grande estilo; quando volta, um pequeno peixe brilha em seu bico.


Chupo uma laranja, e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples - porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços e pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.


Nenhuma tristeza do mundo nem de meu passado me pega neste momento. Tenho prazer em ver que a Ilha Rasa está lá direitinha, em seu lugar, com o farol branco. Vejo ao longe, saindo da praia, dois amigos; estão conversando e rindo. Tomaram seu banho de mar, vão almoçar; estou contente porque os amigos vão bem e suas mulheres esperam crianças. Saúde e prosperidade! Estou contente porque recebi uma boa notícia. Nada de extraordinário, mas uma notícia muito simpática.

Sei que o mundo está cheio de horríveis problemas - e eu mesmo, pensando bem, tenho alguns bem chatos. Mas não estou pensando neles; estou vivendo nesta fresca manhã um momento de bem-estar, de felicidade.
Ora, considerando que a felicidade é uma suave falta de assunto, eu me despeço de todos com um cordial bom-dia e vou almoçar.



Não quero contar prosa, mas tenho arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem.


Um velho amigo vem honrar a minha mesa; falaremos com simpatia das mulheres bonitas desta formosa capital. Conversa de brasileiros! Bom dia, passem bem todos com suas mulheres, com seus amigos, com suas amantes também.

(“Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

imagem da internet




Do que eu preciso?

Anna Veronica Mautner*


A fronteira entre acumular pensando no futuro e o vício de guardar coisas inúteis parece tênue e é preciso saber reconhecê-la. Desde pequenos, quando ganhamos nossa primeira caixinha ou gaveta para guardar brinquedos, até adultos, donos de nossas casas, temos de exercer constantemente o poder de decisão -saber o que guardar e o que jogar fora, sem chorar depois.


Viver rodeado do passado pode ser confortável, mas afundar nele é pesado e acaba tendo como resultado a sensação de que o nosso futuro -os sete palmos de terra- já está aqui. Com espaço, é fácil manter ordem e encontrar o que procuramos. Cada coisa tem um tempo de vida -e há também a hora certa de se desfazer delas.


Vivendo em tempos de obsolescência precoce, como no caso dos aparelhos eletroeletrônicos, desfazer-se é imposição, com tempo previsto pelos fabricantes. Rádio velho poucos guardam. De roupas, louças e engenhocas ninguém sabe quando é hora de se desfazer. Nem estou falando ainda sobre o mar de papéis a nos inundar o cotidiano, cujo prazo de guarda é estabelecido pelo governo e por estatais.


A Receita Federal exige que todo cidadão guarde por uns tantos anos recibos de tudo que descontou. Eis um campo em que não se confia em computador. Para recibos ou procurações, é o papel que vale. E, quando o cidadão morre, cabe aos herdeiros, no que costuma ser um dia dos piores, remexer as intimidades oficiais do falecido. Aí, os sobreviventes decidem o que fica com quem e o que vai.


Nós, vivos, donos únicos das nossas coisas, resolvemos a cada dia o que vai e o que fica. "Será que um dia ainda vou receber para jantar ou posso passar adiante as minhas travessas?" Esse tipo de pergunta faz parte do amadurecimento, não só do envelhecimento. Quando é hora de jogar fora velhas cartas de amor? É sempre triste imaginar que ninguém vai curtir as fotografias que tanto significam para mim.


Viraram notícia os casos extremos de inutilidades acumuladas por certas pessoas, sempre gente solitária. O mau cheiro, os insetos e as queixas dos vizinhos acabam decidindo pelo indeciso acumulador. Li até um caso de uma pessoa que dormia na garagem, dentro do próprio carro (que também não era usado), por falta de outro espaço livre.

Não é só a morte a ameaça temida por aquele que acumula. Criança odeia quando jogam fora seus brinquedos, mesmo os velhos e quebrados. Freqüentemente o espaço privativo dos jovens vira depósito de camisetas, tênis, meias, CDs e engenhocas que eles pretendem reciclar um dia -que nunca chega. Numa kitchenette de jovem, encontramos dois copos e dois pratos, mas no corredor estão penduradas dez mochilas pelo menos.

O apego nem sempre resulta de escassez, traumas ou carência. É muito mais uma forma de protelar a chegada do dia de amanhã e de continuar fazendo de conta que hoje é ainda ontem.


A síndrome de "juntar coisas" com a falta de espaço gera um estresse que nos torna mais indecisos ainda e menos seguros para jogar fora. O que importa para usar amanhã, esse dia tão desconhecido?


Para não jogar nada fora, basta ter medo do amanhã.

[...] Cada coisa tem um tempo de vida, e há também a hora certa de se desfazer delas

*Anna Veronica Mautner, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)
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Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0507200701.htm

terça-feira, 1 de novembro de 2011



Artigo publicado em: 20/03/08 por Antonio Ricardo Nahas


Picolé da alma

Quando criança adorava os picolés.
O meu recorde foram oito picolés em poucos minutos. Cada um de um sabor! Morango, abacaxi, creme holandês, limão, chocolate, coco queimado e uva. Que delícia!
Os picolés são mágicos. O vendedor de picolés é um grande vendedor de cores e sabores, quem sabe de verdades metafísicas.
Aquele carrinho carregava dentro de si sonhos e paisagens. Cada gosto me levava para um lugar diferente.
Enquanto chupava o picolé, minha mente viajava pelo mundo todo. Meditava nos mistérios da vida e do universo.
Cada pingo que caia fazia-me lembrar o quanto a vida é transitória.
Quando a gente chupa picolés não se pode perder tempo. Isso porque o calor também gosta dos picolés.
Talvez sejamos picolés! Cada um tem o seu sabor e a sua cor. Alguns são doces como o creme holandês, outros azedos como tamarindo.
Ou quem sabe somos todo o carrinho, lotado de picolés com todos os sabores e cores.
Mas todos os picolés têm o seu tempo. Alguns derretem mais rapidamente, outros demoram mais.
O fato é que todos nós derretemos no calor do tempo e da vida.
A cada dia um pingo de vitalidade se perde no calor da temporalidade.
Ficamos mais velhos e mais líquidos. O tempo tem o poder de derreter a solidez de nossos egos picolés.
O sólido ego no fluxo da existência vai transformando-se no líquido “self” da essência.
Todos os dias nós derretemos um pouquinho mais no calor da vida. E a vida é quente, muito quente.
Alguns derretem com sabedoria. Mas a maioria briga com os pingos coloridos que caem na terra.
Envelhecer não é nada fácil. Aceitar a transitoriedade da vida e o fato de que somos “hebreus”, para muitos, é experiência de terror.
Hebreu significa aquele que está de passagem. Somos passantes. Somos picolés.
A única coisa que não derrete é o palito. Mas o que é o palito?
O palito é a estrutura dos picolés. A coluna vertebral que dá suporte e base para o sólido que tem como destino o líquido.
O palito não derrete e pode até ser reaproveitado.
O que em nós não derrete com o tempo?
O que em nós permanece quando tudo é transitório?
Naqueles tempos já sabia que os picolés eram metáforas humanas. Brincar com os picolés é arte iniciática. É penetrar nos mistérios da vida e da morte.
Cabe a nós derreter com sabedoria e amor.
Porque cada gota que cai na terra será um dia uma nuvem no céu.
http://www.intirp.com.br/index.php

domingo, 30 de outubro de 2011

foto da internet


Vista cansada
Otto Lara Resende


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver.


O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar.


Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe.


De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu.


Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho.


Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.Mais sobre Otto Lara Resende e sua obra em "
Biografias".

Apontadora de Idéias

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São Paulo, Brazil
"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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