terça-feira, 7 de junho de 2011

foto: Eliete Cascaldi

MEU PRIMEIRO AMOR

As coisas pedem pouso quando amam.

Carlos Nejar

Era um domingo de verão e o sol dava sinais de que estava chegando para valer. Os cachorros já se colocavam a postos, cuidando para que ninguém se aproximasse da casa de seus donos, e os passarinhos voavam e cantavam, saudando o alvorecer.Eu estava pronta para a caminhada diária, pensava fazer o mesmo percurso de sempre.Mas, por alguma razão não consciente, fui tomando o caminho do centro da cidade. Após alguns minutos, encontrava-me perto do jardim da Catedral.Os passos ficaram mais lentos e, interiormente, fiz marcha a ré.Meus olhos observavam cada detalhe daquela paisagem; as pedras, as árvores e os bancos que ali permaneciam fiéis às suas histórias.Decepcionada, percebo habitantes novos, as pombas que parecem ter feito daquele lugar seu habitat.Sinto muita tristeza e uma grande culpa por ter- me afastado por tanto tempo daquele lugar mágico.Lágrimas brotaram instantaneamente de meus olhos. Era só saudade.

saudade, palavra triste quando se perde um grande amor”

O jardim da Catedral foi o meu primeiro amor, e esse reencontro com minha história causou-me uma profusão de sentimentos.

“igual uma borboleta vagando triste por sobre uma flor”

Como a força de um ímã, aquele chão de pedras atraiu vários fragmentos de memória, que foram ligando um fato ao outro, um sentimento com outro.Aos domingos, meu irmão e eu íamos à missa das nove horas, e caso nos comportássemos bem, poderíamos brincar no coreto do jardim e correr por suas calçadas.Naquele jardim, aprendi a andar de tico-tico, passeava com o carrinho vermelho de bolinhas brancas, levando minha boneca preferida, e foi naquele jardim que fiquei maravilhada com as unhas postiças feitas com flores amarelas que nasciam nos canteiros que rodeavam o jardim.Dou-me conta de que todas essas lembranças estão vivas e fazem vibrar todo o meu corpo.

Hoje consigo perceber que o jardim, com suas duas partes, a superior, que parecia uma extensão da Catedral, guarda todas as vivências da criança que fui, e a parte debaixo do jardim contém recordações da adolescência. Muitas vezes íamos à tarde, depois das aulas, para namorar.Quantas lembranças naqueles bancos ali espalhados, e que estavam sempre ocupados por namorados ou grupos de jovens a conversar.

Esse jardim ainda continuou a fazer parte de minha vida por muito tempo. Quando casada ,muitas vezes levei minha filha para ver a fonte luminosa, comer pipoca e ouvir a banda tocar no coreto.Tenho certeza de que esse jardim não foi só meu, que foi o primeiro amor de muitas pessoas que aqui nasceram e cresceram.O sino da Catedral tocou, e o silêncio, povoado de ressonâncias do vivido intensamente, esvaiu-se , e minha atenção dirigiu-se para o momento presente, lembrando-me de que tinha um longo caminho de volta para casa.

Hoje quero conhecer lugares novos que irão proporcionar-me experiências maravilhosas, de que mais tarde recordarei com saudades, mas também sei que o primeiro amor o tempo não leva. É muito bom quando os lugares mágicos ficam preservados para confirmar nossas lembranças, o que infelizmente nem sempre acontece.

Inspiração: Meu primeiro amor

Composição: Hermínio Gimenez, José Fortuna e Pinheirinho Jr.

7 comentários:

  1. Bom dia,Eliete!!

    Que lindo texto!Existem lugares que ficam pra sempre na memória!!É um primeiro amor bem interessante!!
    Beijos pra ti!!!

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  2. Lindo!
    Só passando para "bater o ponto" e te deixar um beijo!!!!

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  3. Dá pra sentir, ver, apreciar cada palavra sua...
    Lindo!
    Bjoo!

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  4. Eliete querida.

    A gente consegue viajar nas tuas lembranças e conhecer esses lugares. Lindas recordações!

    Que bom que voltaste amiga.
    Senti sua falta.
    Grande beijo!

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  5. Luz linda... própria de outono... e de quem tem "o" olhar. :)

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  6. Neste jardim ia com meu pai para longas sessões fotográficas. Após os bailes era o local do lanche da madrugada e a parte de baixo,um pouco mais misteriosa aguçava minha imaginação.Preciso voltar lá para passear e quem sabe, despertar lembranças escondidas.
    Angelina

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"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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