terça-feira, 9 de outubro de 2012
Um dia é preciso parar de sonhar e de algum modo partir...
É melhor tomar um caminho, desembarcar dos sonhos e tomar uma atitude.
Mil vezes a perspectiva de enfrentar a pior tempestade do que as normais calmarias sem rumos, sem ir a lugar nenhum.
Barcos de verdade não navegam por acaso...
Não existem atividades humanas sem riscos...
O risco maior da grande viagem está na capacidade de se preparar...
O que importa na verdade, é o material de que é feita a vontade, e não o barco...
No mar, conta mais, infinitamente mais que a experiência, a iniciativa, o respeito e a capacidade de aprender.
É preciso ir além de mares demarcados...
Uma travessia não termina em qualquer lugar, mas, num ponto preciso, escolhido e alcançado.
E, enquanto não se toca esse ponto, travessia nenhuma existe".
(Fernando Pessoa)
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Gostei muito do livro:
"O desejo havia me transformado em um caçador implacável em busca de pistas, paronóico, romântico, lendo significados em tudo.
Mesmo assim, fosse qual fosse minha impaciência com os rituais da sedução, eu estava consciente de que o mistério dava a Chloe um encanto especial. Os mais atraentes não são aqueles que nos permitem que os beijemos de imediato) logo nos sentimos desinteressados) ou aqueles que nunca permitem que os beijemos (logo os esquecemos), mas aqueles que sabem ministrar cuidadosamente diferentes doses de esperança e desespero".
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Sou de um tempo e lugar em que os comboios eram lentos, tão
vagarosos que pareciam arrependidos da viagem. Na estação, não havia despedida.
Nada de separação traumática, o golpe definitivo da partida. Tudo era tão lento
e esfumado que se convertia em irrealidade. A despedida como repentina ruptura
eu aprendi mais tarde, no meu primeiro aeroporto. Voar é o sonho da própria
poesia. Mas o voo tem despesas de afecto muito pouco poéticas.
Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.
Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.
Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.
Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.
Mia Couto
Crônica sobre a cidade da Beira, sua cidade natal.
Jornal Expresso. Suplemento Única, pp. 40-44. Lisboa, 09 de fevereiro de 2007.
Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.
Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.
Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.
Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.
Mia Couto
Crônica sobre a cidade da Beira, sua cidade natal.
Jornal Expresso. Suplemento Única, pp. 40-44. Lisboa, 09 de fevereiro de 2007.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Encurtando... - Martha Medeiros
“Passado e o futuro são dois períodos
que já não interessam: cultua-se o presente como nunca. O que vale é este
momento, agora, o instante vivido. Tudo digitalizado, virtual,
instantâneo”Quanto tempo leva para superar a dor da perda?
Quanto tempo para digerir uma rejeição? Absorver que um sonho terminou? Esquecer
uma frustração? Uma mágoa de infância? Um trauma? Uma demissão? Os psicanalistas
provavelmente responderão que é preciso respeitar o ritmo de cada um. Há quem
seja rápido na retomada da vida, há os mais lentos, que necessitam de um
acompanhamento mais intensivo. Não há como decretar: dois dias, dois meses, dois
anos.
Só que a maioria da população não procura psicanalistas. Não tem dinheiro pra isso, e muito menos disponibilidade. As pessoas não podem parar no meio do dia para se consultar, pois trabalham insanamente, e tampouco possuem tempo para, segundo elas, desperdiçar. Sabe-se que análises são demoradas, que buscam e rebuscam nossa intimidade, que não é num estalar de dedos que se atenuam as dores internas. E qualquer coisa que demore, hoje em dia: não, obrigada.
Que inquietação. O passado e o futuro são dois períodos que já não interessam: cultua-se o presente como nunca antes. O que vale é este momento, agora, o instante vivido. Tudo digitalizado, virtual, instantâneo. Quem ainda espera dias por uma resposta? Meses por uma solução? Na vida burocrática, governamental, a demora ainda é praxe e se vale da morosidade para arrecadar mais e mais dinheiro, mas no plano pessoal, encurtaram-se as durações. Vive-se tudo de forma mais compacta, o começo e o fim mais próximos do que jamais foram. E acabamos impregnados dessa urgência, dessa vontade de resolver todas as tranqueiras com a maior agilidade possível.
Porém, há tranqueiras e tranqueiras.
Você consegue resolver pendências profissionais de imediato, consegue tomar decisões práticas sem se alongar: parabéns. Salve a produtividade. Mas não foram essas as questões levantadas no início desse texto. Falávamos de tristezas, de cicatrizar feridas, de aceitar o destino que nos coube, de assimilar mudanças. Sentimentos não são regidos por megabytes por segundo, não se vinculam a relógios, não obedecem a leis objetivas — é o curso da natureza que manda. E a natureza é surda e cega para o desatino. Exige a introspecção devida, sem a qual nada se resolve, só se mascara.
Diante da dor emocional, só há uma ordem a respeitar: paciência. De nada adianta inventar alegrias fajutas e se oferecer para a cobiça do mundo sem antes estar com a alma serenada e forte. É preciso saber esperar, do contrário a gente se atrapalha e só reforça a miséria existencial que preenche as madrugadas. Basta de tanta gente evitando pensar, evitando chorar, evitando olhar para dentro de si mesmo, sorrindo de um jeito tão triste que só faz demorar ainda mais o reencontro com o sorriso verdadeiro — aquele aguardando a hora certa de voltar.
Só que a maioria da população não procura psicanalistas. Não tem dinheiro pra isso, e muito menos disponibilidade. As pessoas não podem parar no meio do dia para se consultar, pois trabalham insanamente, e tampouco possuem tempo para, segundo elas, desperdiçar. Sabe-se que análises são demoradas, que buscam e rebuscam nossa intimidade, que não é num estalar de dedos que se atenuam as dores internas. E qualquer coisa que demore, hoje em dia: não, obrigada.
Que inquietação. O passado e o futuro são dois períodos que já não interessam: cultua-se o presente como nunca antes. O que vale é este momento, agora, o instante vivido. Tudo digitalizado, virtual, instantâneo. Quem ainda espera dias por uma resposta? Meses por uma solução? Na vida burocrática, governamental, a demora ainda é praxe e se vale da morosidade para arrecadar mais e mais dinheiro, mas no plano pessoal, encurtaram-se as durações. Vive-se tudo de forma mais compacta, o começo e o fim mais próximos do que jamais foram. E acabamos impregnados dessa urgência, dessa vontade de resolver todas as tranqueiras com a maior agilidade possível.
Porém, há tranqueiras e tranqueiras.
Você consegue resolver pendências profissionais de imediato, consegue tomar decisões práticas sem se alongar: parabéns. Salve a produtividade. Mas não foram essas as questões levantadas no início desse texto. Falávamos de tristezas, de cicatrizar feridas, de aceitar o destino que nos coube, de assimilar mudanças. Sentimentos não são regidos por megabytes por segundo, não se vinculam a relógios, não obedecem a leis objetivas — é o curso da natureza que manda. E a natureza é surda e cega para o desatino. Exige a introspecção devida, sem a qual nada se resolve, só se mascara.
Diante da dor emocional, só há uma ordem a respeitar: paciência. De nada adianta inventar alegrias fajutas e se oferecer para a cobiça do mundo sem antes estar com a alma serenada e forte. É preciso saber esperar, do contrário a gente se atrapalha e só reforça a miséria existencial que preenche as madrugadas. Basta de tanta gente evitando pensar, evitando chorar, evitando olhar para dentro de si mesmo, sorrindo de um jeito tão triste que só faz demorar ainda mais o reencontro com o sorriso verdadeiro — aquele aguardando a hora certa de voltar.
O GLOBO
29/07/2012
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
O caminho que não tomei
Entre duas
possibilidades, que caminho tomar?
Um dos poemas mais
conhecidos da literatura norte-americana foi escrito por Robert Frost
(1874-1963). É o famoso "The road not taken", e foi traduzido pelo
poeta português Antônio Simões com o título "O caminho que
não tomei". Está numa recente antologia onde ele verteu competentemente 112
poemas do inglês para a nossa língua.
Entre duas
possibilidades, que caminho tomar?
Pode ser entre dois
amores, dois empregos, duas ruas, dois países. Pode ser uma encruzilhada
qualquer. O fato é que a escolha é às vezes algo complicado. Tão complicado que
uns psicólogos norte-americanos criaram a "teoria da dissonância cognitiva"
baseada nesse drama. Como escolhemos as coisas, seja uma simples geladeira, uma
proposta, uma roupa, e que racionalizações fazemos para justificar a direção
tomada?
O poema é simples,
Robert Frost foi um poeta que escrevia simples, e de tão popular que era foi
chamado para ler um poema na posse do presidente Kennedy, em 1961.
Diz o poeta que duas
estradas divergentes surgiram-lhe num bosque amarelado, e infelizmente ele não
podia viajar ao mesmo tempo pelas duas. Eram duas estradas e ele era uma pessoa
só. Ele estendeu os olhos sobre a primeira delas tão longe quanto podia até que
ela se perdesse na folhagem.
No entanto, mesmo diante
dessa sedução, ele tomou a outra via, que tinha uma agreste vegetação
dificultando-lhe o caminho. Fazer tal escolha foi, ao mesmo tempo, obter e
perder alguma coisa.
Na última estrofe, que
reproduzo aqui em português e inglês, ele resume a perplexidade da
situação:
"Suspirando, estarei contando a ti,
Daqui a
mil anos, o que aconteceu:
Dois
caminhos bifurcavam, e eu -
O menos
pisado tomei como meu
E a diferença está toda aí."
I
shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages
hence:
Two
roadas diverged in a wood, and I -
I
took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Ou seja, em minha vida
eu tomei a estrada mais difícil, menos usada, e isto fez toda a diferença.(...)
O poema de Frost fala de
algo mais ético e existencial. É inevitável associar a ele um outro poema, do
poeta português José Régio, intitulado "Cântico Negro", e que
começa assim:
"Vem por aqui!" - dizem-me alguns com olhos
doces,
estendendo-me os braços e seguros
de que
seria bom que eu os ouvisse
quando me
dizem: "Vem por aqui!"
Eu
olho-os com olhos lassos,
(Há, nos
meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo
os braços
e nunca vou por ali..."
E depois de repetir que
não segue os outros, que só vai por onde bem quer, o poema assim
termina:
"Não sei para onde vou
não sei
para onde vou.
- Sei que não vou por aí!"
André Gide
dizia que , nessa vida, o diabo é que dos cem caminhos a gente tem que escolher
um e ficar com a nostalgia dos outros 99.
É possível. E há quem
sinta nostalgia de todos os cem. Esse tipo de frase de efeito antigamente me
tocava. Mas hoje, menos pretensiosamente, acho que nos cabe tornar o caminho
escolhido mais belo e nele descobrir seus fascinantes mistérios.
Affonso
Romano de Sant'Anna -
Tempo de delicadeza
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
AMOR NÃO É BISCOITO
Em época de vínculos frágeis, os pais tentam assegurar o afeto
do filho dando a ele tudo o que ele quer
Como tem sido difícil para muitas mães ensinar aos filhos a importância da boa alimentação. Há pouco tempo para preparar a comida em casa, para estar com os filhos nos horários das refeições, para fazer o lanche que levarão à escola etc.
No mundo da velocidade, ensinar a criança a comer e a conviver com a família em torno da mesa tem sido tarefa quase impossível.
Precisamos reconhecer: a oferta de porcarias deliciosas dirigidas às crianças está muito grande. E esses alimentos são muito, muito sedutores. Lanches dos mais variados tipos, biscoitos coloridos com ou sem recheio, salgadinhos crocantes de todos os formatos e cores, frituras mil, chocolates, refrigerantes e muitos, muitos doces.
Temos tentado resolver essa questão principalmente porque a saúde infantil tem reclamado. Sobrepeso e obesidade, hipertensão, taxas altas de colesterol, doenças do aparelho digestivo e distúrbios alimentares -problemas antes restritos ao mundo adulto- agora marcam presença na vida de muitas crianças.
Em função desse panorama, vários Estados brasileiros já elaboraram leis para obrigar cantinas escolares a vender exclusivamente alimentos saudáveis e proibir a comercialização de itens gordurosos e industrializados, por exemplo.
Muitas escolas também já começam a oferecer alguns recursos para colaborar com o enfrentamento do problema: contratam nutricionistas, oferecem lanches balanceados, orientam pais e professores, realizam atividades culinárias com as turmas e abordam o tema da alimentação com seus alunos.
A questão é difícil tanto para as famílias quanto para as escolas. Afinal, como ajudar a criança a aprender a comer bem? Vamos tentar localizar alguns focos dessa questão.
O relacionamento entre pais e filhos mudou muito nas últimas décadas. Uma dessas mudanças foi radical: os pais têm receio, hoje, de perder o amor de seus filhos. Antes era o oposto: os filhos obedeciam por medo de perder o amor dos pais.
Dá para entender essa virada: em um mundo de relacionamentos afetivos extremamente frágeis, precisamos ter a garantia da permanência de alguns vínculos. Numa época em que o prefixo "ex" se multiplica na frente de palavras como marido, sogra, cunhado etc., nada como tentar assegurar que o bom relacionamento com os filhos permanecerá.
O problema é que isso tem se concretizado de maneiras equivocadas. Uma delas é a atitude de muitos pais de tentar dar ao filho tudo o que ele quer.
E o que a criança quer comer? Aquilo que achamos gostoso e que oferecemos a ela justamente por esse motivo. Vamos falar a verdade: queremos que as crianças se alimentem bem por questões de saúde, não é verdade? Mas elas logo percebem que o que lhe oferecemos porque consideramos gostoso não coincide com o que queremos que comam porque faz bem.
A mãe de uma garota de menos de dois anos me disse que estava bem difícil fazer a filha almoçar, porque ela só queria biscoito.
Perguntei à essa mãe como a criança descobrira os tais biscoitos e ela me respondeu que ela mesma é que havia introduzido esse alimento em casa. "Por que eu deveria privar minha filha de comer coisas gostosas? Eu só não sabia que ela iria gostar tanto a ponto de passar a recusar as refeições."
E devo dizer: essa mãe permite que a sua filha substitua o almoço e o jantar por biscoitos. "Vou deixar que ela chore de fome?", perguntou ela.
A maior parte das dificuldades alimentares de uma criança tem, portanto, origem no tipo de relação que seus pais estabelecem com ela e também com as escolhas que nós, adultos, fazemos do que consideramos gostoso. É ou não é?
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
FOLHA DE
S.PAULO
21/08/2012
21/08/2012
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
No livro FACES OCULTAS, o pintor Salvador Dalí cita a instrução que o soberano espanhol Filipe II costumava dar ao criado na véspera de eventos importantes:"Vista-me devagar, pois estou com muita pressa".
...Só quando estamos realmente presentes ao que fazemos- que é o significado desse "vista-me devagar"- é que podemos ser mais eficazes. Se a mente está atribulada, pensando nisso ou naquilo, nossa atenção fica bipartida, não nos concentramos, e, com isso, a ação acaba malfeita.
Monja Coen no livro de Lauro Henriques Jr/Palavras de Poder
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Luis Carlos Ferracioli
...Ele me ensinou que coragem só é mesmo coragem quando sentimos um imenso medo.Dizia ele que, quando nos arremessamos a fazer alguma coisa que em princípio exige coragem, deve existir junto uma dose de medo, senão a empreitada se revela irresponsável. Pode-se estar diante de uma loucura, de um desatino ou estupidez.
A coragem, é justamente sentir o medo que enrijece a alma e o poder de enfrentar o desafio serena e positivamente. Dizia ele que o medo faz parte da história, é necessário para acordar o organismo e fazê-lo reagir com todos os seus recursos.
Nuno Cobra/A semente da Vitória
terça-feira, 7 de agosto de 2012
O conceito maduro de felicidade no seu mais elevado desdobramento poderia ser expresso da seguinte maneira:
"Sou independente das circunstâncias externas, sejam elas quais forem. Posso ser feliz em qualquer circusntância, porque sei que até os acontecimentos desfavoráveis ou desagradáveis têm uma finalidade. Eles me ensinam alguma coisa e, assim, levam-me para mais perto da liberdade e da felicidade."
O conceito imaturo de felicidade poderia ser enunciado da seguinte maneira:
"Só posso ser feliz se tiver o que quero, do jeito que eu quero e quando quero. Caso contrário, serei infeliz."
Evas Pierrakos.Judith Saly em Criando União
terça-feira, 31 de julho de 2012
Devemos encontrar algo que funcione como uma viga sobre a qual a personalidade inteira vai se acomodar, se apoiar, se fundamentar e finalmente relaxar. Precisamos nos perguntar o que nos serve de apoio e ser capaz de prover esta fonte de apoio, cuidando de nunca deixar a personalidade sem retarguarda.Para cada pessoa este apoio vem de "lugares" diferentes. Seja lá de onde venha o seu, trate de buscá-lo.
O livro ds Atitudes astrologicamente corretas/Marcia Mattos
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Se não se sabe para onde se está indo, o melhor que se pode fazer é acreditar que se está indo para um bom lugar.
Uma renúncia ao controle, uma sujeição às circunstâncias que nos ultrapassam, uma abdicação do "Eu" onipotente para realização de um desejo e um alinhamento da própria vontade com aquilo que corriqueiramente chamamos de seja feita a vontade de Deus é difícil de se praticar, mas é a mais sábia das atitudes.
O livro das Atitudes astrologicamente corretas/Marcia Mattos
segunda-feira, 23 de julho de 2012
ILHA
Ilha não é só um pedaço de
terra cercado por água por tudo quanto é lado.
Ilha é qualquer coisa que
se desprendeu de qualquer continente.
Por exemplo: um garoto
tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha.
Um velho que esperou a
visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha.
Até um cara assoviando
leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha.
Tudo na gente que não
morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha.
Toda ilha é
verde.
Uma folha caindo é ilha
cercada de vento por tudo quanto é lado.
Até a lágrima é ilha,
deslizando no oceano da cara.
Oswaldo Montenegro
terça-feira, 17 de julho de 2012
De quanta dor é feita nossa vida?
De quanta dor evitável?
Ás vezes penso que na hora da morte não veremos correr diante dos olhos toda a nossa vida, como costumam dizer, mas somente uma parte dela: os gestos de amor que faltaram, as carícias que não foram feitas, a compreensão que não foi dada, a cara amarrada mantida por tempo demais, aquela teimosia que só se alimentava de si mesma.
livro: Para sempre/Susanna Tamaro
quinta-feira, 5 de julho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
James Jean
Pois os homens e as mulheres não são somente eles mesmos. São a região onde nasceram, o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, as brincadeiras que brincaram na infância , as conversas fiadas que ouviram por acaso, os alimentos que comeram, as escolas que frequentaram, os poemas que leram e o Deus em que creram.
Somerset Maugham
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Oração
da Criança
Abençoai o leite e o pão
E este macio colchão
Em que vou ficar deitada
Descansando, sossegada.
E fazei com que eu não tenha
Medo da noite que passa,
E durma até que o sol venha
Bater na minha vidraça.
Abençoai o leite e o pão
E este macio colchão
Em que vou ficar deitada
Descansando, sossegada.
E fazei com que eu não tenha
Medo da noite que passa,
E durma até que o sol venha
Bater na minha vidraça.
Abençoai meus brinquedos
Que para mim não têm segredos;
Meus sapatos que aonde eu queira
Me levam; minha cadeira;
E a lâmpada, e o fogo ardente;
E essa mão boa e paciente
Que cuida tão bem de mim;
E os meus amigos; e enfim,
Minha mamãe, meu papai,
Sempre unidos. Abençoai Pelo mundo diferente
Os filhos de toda gente.
E fazei com que eu também
Durma e acorde
Versão de: Guilherme de Almeida
quinta-feira, 21 de junho de 2012
ALICE NO
PAÍS DO PLEBISCITO
Há uma
passagem muito conhecida de Alice no País das Maravilhas, na qual a pequena
heroína de
Lewis Carroll dialoga com um gato. Ela não quer mais continuar onde está e pergunta ao animal:
"Como posso sair daqui?" O gato responde:
"Depende".
A menina indaga: "Depende de quê?" E o gato esclarece: "Depende de para onde você quer ir."
O diálogo
prossegue. A garota diz que quer sair de onde está, mas não tem nenhuma
preferência
quanto ao lugar para onde vai. Então o bicho lhe retruca: "Se você não
sabe para onde quer ir, então é indiferente o caminho que venha a seguir."
O episódio
tem fascinado os leitores de Lewis Carroll desde o século passado. Como toda criação importante da fantasia literária, ele comporta diversas interpretações e não se deixa esgotar por nenhuma delas.
Todos nos identificamos com Alice, na medida em que já vivemos situações nas quais estávamos em lugares de que desejávamos sair, fosse para onde fosse. E todos reconhecemos a sabedoria do gato, que nos lembra que o sentido do nosso movimento é aquele que nós mesmos lhe imprimimos.
Sem garantias antecipadas de sucesso.
A
advertência do gato vale para a experiência de cada um e vale, também, para a
história política, que somos chamados a fazer coletivamente. Na vida privada, cada um faz suas escolhas, tenta decidir seu futuro: opta por um trabalho, por um casamento, por uma determinada estruturação da família, por uma determinada organização da existência quotidiana (com seus prazeres e suas responsabilidades). Na história política, procuramos nos articular com o nosso grupo, assumimos nossos compromissos, discutimos, fazemos propostas, optamos por um programa de transformações que consideramos exeqüíveis e convenientes à nossa sociedade. Em ambos os casos, implícita ou explicitamente, estamos
decidindo para onde pretendemos ir.
Quando têm
consciência, efetivamente, das escolhas que estão fazendo quanto à direção que decidem seguir (e sabem dos riscos que tais escolhas sempre comportam), é normal que as pessoas fiquem tensas, é compreensível que elas tenham momentos de hesitação e angústia.
Convém recordarmos, entretanto, que a hesitação, tanto na vida particular como na história política, tem sua legitimidade. E às vezes as pessoas ou correntes que não vacilam nunca são apenas aquelas que jamais param para pensar na gravidade da advertência do gato de Lewis Carroll:
simplesmente fecham os olhos diante dos perigos.
Algumas embarcam no ônibus da utopia, sem examinar o itinerário que ele vai percorrer;outras enveredam por qualquer caminho (só para sair de onde estão); e há as que acabam se resignando a ficar onde já se encontram, aguardando passivamente uma salvação mágica.
(Leandro Konder in “O Globo”, 20/03/1993)
quarta-feira, 20 de junho de 2012
"Há
sempre uma diferença entre querer e desejar.
Querer corresponde a uma
necessidade. Querer é algo que o indivíduo compreende. Eu quero tomar água, eu
quero dormir, eu quero me proteger do frio.
Enquanto desejar é aquilo que
ninguém compreende, é algo muito particular, singular de cada um e jamais nós
temos uma resposta que nos satisfaça completamente. Essa é a base da criação ou
é a base do sofrimento.
Na psicanálise o que acontece quando um desejo é
realizado? São raros os momentos e nesse momento a pessoa tem uma sensação de
uma quase morte. Os franceses chegam a chamar o orgasmo de uma pequena morte. A
pessoa tem a sensação como se estivesse no olho de um furacão, uma sensação de
perda de identidade, uma sensação de tontura, uma sensação de querer se agarrar
no outro, e isso passa. O que é que vem depois? Pode vir uma depressão, de algo
perdido, pode vir uma vontade de reinventar esse prazer tão rápido que é a
realização de um desejo".
(Jorge Forbes)
(Jorge Forbes)
segunda-feira, 18 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
TEMPO DE CRIANÇA
Valdemiro Mendonça
O tempo que as princesas tinham tempo,
se foi no tempo das horas que já passou,
entre bordados, pincéis e bailes da
corte.
ficou curto o tempo para coisas que amou.
Até o caramanchão de erva de passarinho
que eu fiz obedecendo à sua real
quimera
não rebrotou com as chuvas
deste verão
também não quer florescer nesta
primavera.
Quem sabe seja este jardineiro sem
pratica
que não sabe cuidar de flores tão belas assim,
Ou quem sabe seja o doce olhar da
princesa
Que não passeia mais pelo seu triste jardim.
Por isto desesperado plantei um canteiro
trevos de quatro folhas e arruda do norte,
quem sabe a princesa se lembre do jardim
e possa vir nos dar um pouquinho de sorte.
Pois ela nos mais loucos desejos se
espalha
e suspira inebriada em seu sonho
proibido,
tenta um reencontro da alma e seu encanto
na musica antiga que não tem mais sentido.
Hoje a torre norte não tem aquele doce canto
a voz bem timbrada saudando o brilho do luar,
pois fizeram um feitiço para a nossa
princesa
trocar o jardim sem flores pela estrela
do mar.
O cavalo alado que o príncipe deu de
presente
anda tristonho, com saudade no esquecimento,
pois sua princesa nunca mais desejou
cavalgar
voando nas nuvens brancas ao sabor do vento.
Vou fazer promessas para o São Jorge lá da Lua
para ele quebrar o feitiço desmanchando a
teia,
para que toda noite que ela olhar da torre
norte
veja sempre o brilho prateado de uma
lua cheia.
Assim ela há de ver o jardim e talvez se
lembre
da gangorra que eu fiz no pé de ipê
antes florido,
quando eu empurrava e ela gritava, mais
alto vai,
hoje até ele não floresce pois se acha
esquecido.
Que fez a princesa mudar modificando
todo o seu ser,
e agora ela só fica sonhando aqueles sonhos
malucos
por culpa desta tal natureza que fez
a menina crescer.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Vergonha
Aceitar-se com defeitos é o único jeito de suportar o olhar do
outro sem ser aniquilado.
Se tiver que escolher entre sentir vergonha ou
sentir culpa, o que você preferirá? Já respondeu? Agora respondo eu: prefiro
sentir culpa.
Quando digo que errei, quero dizer que conheço o certo, mas não quis, não pude, não consegui fazer certo. Posso relatar circunstâncias que me levaram ao erro, pecado, transgressão. Se me sinto culpada, é porque acho que deveria ter feito o certo. Caberia a mim lançar mão do necessário para acertar.
A culpa parte de um conhecimento de causa ou de um conhecimento que eu supostamente deveria ter. Parece até que é de lei que o desconhecimento da regra pode atenuar, mas não isentar de culpa. Por aí se vê que a culpa é resultante de uma relação falha entre o sujeito e as regras do mundo. Cabe julgamento, perdão, absolvição. A culpa pode desaparecer sem deixar nódoa.
E a vergonha? A vergonha tem a ver com a autoestima. Com o que você imagina que deve ser para se gostar e se aprovar. Você pode morrer de vergonha de coisas pelas quais ninguém vai culpá-lo.
Quando nos envergonhamos, o olhar do outro se torna insuportável. O envergonhado quer deixar de existir para não ser visto na sua falha. A vergonha tem a ver com a depreciação instantânea de nós mesmos. Escorregar e cair nos deixa envergonhados. Sem condenação, sem perdão, sem absolvição.
Antigamente, chamava-se a área genital de "vergonha". O homem nu cobre seus genitais como último recurso para evitar a vergonha total. O tema chega a ganhar leis: é proibido desnudar-se em certos lugares. "Pode despir-se, eu sou médico", dizem os profissionais nos consultórios.
Temos vergonha de não poder pagar a conta de algo já consumido. Dizer que deixaremos nosso relógio em pagamento ou lavaremos pratos no restaurante são situações constrangedoras.
A vergonha pode ser paralisante. Vergonha do próprio corpo pode impedir a frequência a lugares esportivos. O gago fica mais gago por vergonha de ser gago. Quem enrubesce fica mais vermelho por vergonha de ter enrubescido. Quem sua nas mãos sua mais de medo de que percebam seu suor.
Todos queremos funcionar bem. Disfunções que não são culpa de ninguém diminuem a autoestima. Não saber quais talheres usar num banquete pode ser uma situação paralisante para quem se acha no dever de saber tudo. Quem acha que todos devem saber tudo tem vergonha de perguntar. Pedir orientação no trânsito é impossível para quem acha que tem que saber tudo.
A culpa não é paralisante. O juiz, as leis, os estatutos podem deliberar pela sua exclusão, por exemplo.
A vergonha só tem um remédio: aceitar-se com defeitos, o que significa se sentir com maior valor, melhorar a autoestima. Isso nos permitiria suportar o olhar do outro sem que esse olhar nos aniquilasse.
ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora) e "Educação ou o quê?" (Summus)
Quando digo que errei, quero dizer que conheço o certo, mas não quis, não pude, não consegui fazer certo. Posso relatar circunstâncias que me levaram ao erro, pecado, transgressão. Se me sinto culpada, é porque acho que deveria ter feito o certo. Caberia a mim lançar mão do necessário para acertar.
A culpa parte de um conhecimento de causa ou de um conhecimento que eu supostamente deveria ter. Parece até que é de lei que o desconhecimento da regra pode atenuar, mas não isentar de culpa. Por aí se vê que a culpa é resultante de uma relação falha entre o sujeito e as regras do mundo. Cabe julgamento, perdão, absolvição. A culpa pode desaparecer sem deixar nódoa.
E a vergonha? A vergonha tem a ver com a autoestima. Com o que você imagina que deve ser para se gostar e se aprovar. Você pode morrer de vergonha de coisas pelas quais ninguém vai culpá-lo.
Quando nos envergonhamos, o olhar do outro se torna insuportável. O envergonhado quer deixar de existir para não ser visto na sua falha. A vergonha tem a ver com a depreciação instantânea de nós mesmos. Escorregar e cair nos deixa envergonhados. Sem condenação, sem perdão, sem absolvição.
Antigamente, chamava-se a área genital de "vergonha". O homem nu cobre seus genitais como último recurso para evitar a vergonha total. O tema chega a ganhar leis: é proibido desnudar-se em certos lugares. "Pode despir-se, eu sou médico", dizem os profissionais nos consultórios.
Temos vergonha de não poder pagar a conta de algo já consumido. Dizer que deixaremos nosso relógio em pagamento ou lavaremos pratos no restaurante são situações constrangedoras.
A vergonha pode ser paralisante. Vergonha do próprio corpo pode impedir a frequência a lugares esportivos. O gago fica mais gago por vergonha de ser gago. Quem enrubesce fica mais vermelho por vergonha de ter enrubescido. Quem sua nas mãos sua mais de medo de que percebam seu suor.
Todos queremos funcionar bem. Disfunções que não são culpa de ninguém diminuem a autoestima. Não saber quais talheres usar num banquete pode ser uma situação paralisante para quem se acha no dever de saber tudo. Quem acha que todos devem saber tudo tem vergonha de perguntar. Pedir orientação no trânsito é impossível para quem acha que tem que saber tudo.
A culpa não é paralisante. O juiz, as leis, os estatutos podem deliberar pela sua exclusão, por exemplo.
A vergonha só tem um remédio: aceitar-se com defeitos, o que significa se sentir com maior valor, melhorar a autoestima. Isso nos permitiria suportar o olhar do outro sem que esse olhar nos aniquilasse.
ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora) e "Educação ou o quê?" (Summus)
Folha de
S.Paulo
12/06/2012
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Apontadora de Idéias
- Eliete
- São Paulo, Brazil
- "A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)
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