quinta-feira, 26 de novembro de 2015
sábado, 7 de novembro de 2015
Caixa
de lápis de cor
Todo mundo é confuso como vozes na noite.
Fernando Pessoa
Quando ainda estudante de psicologia, lembro-me de uma professora que tinha um jeito muito carinhoso de aproximar-se de alguém que estava com depressão. Ela perguntava: "Quem roubou sua caixa de lápis de cor"?
Ou então,
“..hoje parece que o vermelho não está aí!”, para falar da falta de vitalidade,
energia e disposição que presenciava
naquela pessoa.
Sabemos que as cores revelam o nosso estado de
espírito e de saúde, influenciam nossa conduta e até mesmo as nossas emoções.
Podemos brincar com a ideia da caixa de lápis de
cor, dizendo que na tristeza –sentimento não patológico - os lápis de cor não
foram perdidos, mas precisam ser apontados.
Na depressão, porém, tudo é diferente. A
sensação é de não ter nenhum lápis colorido. Só há lugar para apatia e para o
vazio. A vitalidade é quase nula. Há uma sensação de perda muito grande e o
mundo mostra-se carregado de ameaças.
A pessoa
com depressão sente-se despojada de certas formas de sentir e ser, e tem
dificuldade em conviver socialmente; até mesmo com os familiares. Afasta-se do
contato para evitar a dor e a vergonha, pois não consegue compartilhar dos
sentimentos de alegria e otimismo que o Outro demonstra ter.
A depressão é uma doença do corpo todo e não só do cérebro. Atualmente a O.M.S. estima que a depressão afeta quatrocentos e cinquenta milhões de pessoas em todo o mundo e que o número dobrou nos últimos cinquenta anos.
Mas, mesmo com todas as informações, ainda é uma
doença incompreendida e bem pouco tolerada.
Na História da Humanidade, encontramos desde
sempre o procedimento de atribuir ao doente a culpa dos males que o afligem e
com a depressão isso parece ser ainda mais forte. É comum essas pessoas
sentirem-se incompreendidas ou “cobradas” por não conseguirem reagir de forma
diferente.
Assim, além de enfrentar o sofrimento psíquico,
a pessoa também sofre com o preconceito.
É necessário e urgente termos, frente às doenças
da alma, maior compreensão e aceitação, e não nos fecharmos em resistências
tolas.
Se formos sensíveis, inteligentes e humanos
podemos fazer dessa situação uma ótima oportunidade de viver com o Outro a
experiência de companhia, amizade e solidariedade. Ficar perto um pouquinho,
tocá-lo e ouvir esse ser humano tão debilitado emocionalmente são os bálsamos
necessários para os hematomas da alma. Não é necessário ter uma explicação
convincente sobre o porquê da doença ou dizer palavras sábias de
fortalecimento. O fundamental é a intenção de acolher.
Para essas situações das quais ninguém está imune de viver, Arthur da Távola
deixou-nos uma bela receita:
“Só quem já foi capaz de sentir os muitos sentimentos do
mundo é capaz de saber algo sobre as outras pessoas e aceitá-las,com
tolerância.
Sentir os muitos sentimentos do mundo não é ser uma caixa de sofrimentos.
Isso é ser infeliz. Sentir os muitos sentimentos do mundo é abrir-se a qualquer forma de sentimento.”
Sentir os muitos sentimentos do mundo não é ser uma caixa de sofrimentos.
Isso é ser infeliz. Sentir os muitos sentimentos do mundo é abrir-se a qualquer forma de sentimento.”
O prazer de ver o mundo como uma linda caixa de gizes
coloridos, que está ao nosso dispor, vem devagar nas pessoas com depressão, e
cabe a todos nós ajudá-las nesse processo. Mas, para isso, precisamos crer na
capacidade de renovação de cada ser humano e lembrar que toda doença pede ação,
mas também, o exercício da paciência.
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
escrito para o Jornal O COMBATE
imagem: da internet
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Nó na linha
Ninguém
deve esquecer o que acha importante.
J.M.Coetzee
Minha avó queria me ensinar a costurar e eu desejava
costurar tal qual ela o fazia.
O movimento daqueles pés no pedal de sua máquina de
costura era fascinante!
Como controlar com os pés a velocidade dos pedais e,
ao mesmo tempo, ter tanta agilidade com as mãos?
Pernas fortes e decididas eram o vapor de sua máquina
de costura e, em pouco tempo, eis, em minhas mãos, um lindo vestido. Como
desejei ganhar aquela máquina de costurar sonhos; como sonhei sentar naquela
cadeira e dominá-la, como se faz com um cavalo bravo ou como um exímio
maquinista de trem que leva seus vagões pelas estradas sinuosas!
Mas... quando
me deparei com os outras tarefas da costura, o fascínio foi esmaecendo-se. Colocar
a linha na agulha, dar o nó na linha eram gestos difíceis demais.
Meus dedos relutavam; não me obedeciam, mostravam-se
desajustados e recusavam-se a dar o nó na linha. Desmanchar a costura, cerzir,
alfinetar, passar carbono e carretilha eram decepcionantes!
O desejo de costurar ficou órfão; a paciência bateu em
retirada, e eu? Somente pensava em
acompanhá-la.
Demasias! Não suportava a precisão que a costura
exigia.
Por fim constatei, com um certo alívio
e com muita tristeza, que não possuía as habilidades necessárias para tão
grande Arte.
Costurar não foi a primeira dificuldade que encontrei,
mas quis a memória guardar a experiência
do primeiro nó na linha da minha vida.
Sei que minha avó percebeu toda dificuldade, mas nunca
se zangou nem me criticou. Continuou amando-me com a mesma intensidade.
Hoje, muito tempo depois, sei que seu amor e dedicação
não foram em vão. Não me tornei uma costureira exímia, mas penso que essa
inabilidade em fazer o nó na linha acompanha-me e, de uma certa forma, lucro com isso à medida que procuro
enfrentar, com um pouco menos de confusão, as situações adversas que acontecem
em minha vida.
texto:Eliete T. Cascaldi Sobreiro publicado no jornal :
O COMBATE
Imagem da internet
O COMBATE
Imagem da internet
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Barcos ao léu
Chove torrencialmente
lá fora. A chuva varre os telhados, afoga as calhas, lava carros e ruas. É a
estação das chuvas. Dentro, uma vela e fósforos estão a postos, caso, falte a luz.
As crianças estão eufóricas. Correm da porta à janela de vidro para verem a
enxurrada que está se formando. É um misto de sentimentos; medo e alegria fazem
com que elas desejem a chuva e, ao mesmo tempo, anseiem que passe depressa.
A atenção é
toda voltada para a enxurrada, o quanto ela está grande.
O jogo de botão,
as bonecas o ferrorama e todos os outros brinquedos, por hora, estão totalmente
esquecidos. As crianças esperam a ordem do capitão-pai para começarem a
executar os barcos que deverão zarpar com uma difícil missão.
Apesar da
fragilidade do material, acreditam que seus barcos irão muito longe, alcançando
lugares desconhecidos e levando mensagens para quem os encontrar. Os barcos são
pintados com bandeiras desse mundo, com o endereço de sua origem e com o nome
dos construtores. É uma tarefa e tanto, logo não é possível postergar... atrasar...
A enxurrada pode passar depressa demais, e não
esperar pelas embarcações.
A chuva, aos poucos, acalma e as crianças
junto com o capitão – pai correm até a
beira da calçada para colocarem seus barcos que, amedrontados, oscilam
com o volume e com o movimento impetuoso das águas. Alguns sucumbem
assim que saem, outros seguem vigorosos e corajosamente em direção do bueiro-
local misterioso - onde se define o futuro das embarcações.
Naus que são
tragadas pelo ventre dos bueiros dando-lhes direção e força para prosseguirem
em sua jornada.
As crianças retornam
às suas casas ávidas de esperanças de que os barquinhos irão encontrar novos mundos,
terras virgens, homens gigantes e que desejarão conhecê-las.
Dormir e
sonhar com esse encontro é o que lhes restam fazer naquele momento; sonhar com
as naus e suas infinitas possibilidades de um novo devir.
E, se tiverem
sorte, esse devir estará sempre vivo e ressoando em suas mentes adultas,
trazendo-lhes a capacidade de celebrar o cotidiano como uma eterna revelação.
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: internet
Artigo publicado no jornal O COMBATE
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
E não foram felizes
para sempre
Desculpem-me, mas hoje não estou feliz; meus olhos
estão assustados, a cabeça atordoada e o coração pulsa lenta e silenciosamente.
É desolação. O pensamento insiste em fixar-se numa antiga maldição chinesa:
“Possa você viver em tempos interessantes”- lembrando-me de que somos
protagonistas de tempos interessantes.
Estamos impactados com a imagem de uma criança síria
de três anos afogada nas águas do Mediterrâneo. Seus pais eram parte integrante
dos dois milhões de refugiados, exaustos e famintos, buscando por um mundo sem
guerra e com mais oportunidades.
Infelizmente, não foi somente essa criança que morreu.
Tantas outras! Famílias inteiras são dizimadas pela fome e doenças. Milhares
marcadas “a ferro” por estupros, pedofilia, tráfico de drogas, tráfico humano,
abandono, xenofobia, homofobia...
Tristeza, impotência, descrença não em Deus, mas nos
homens. Na própria humanidade que caminha a passos de tartaruga.
Em 1936, Saint Exupéry, em seu livro, Terra dos Homens, já fazia referência à
desumanização, quando escreveu: “ Não há jardineiros para os homens. Mozart
criança irá para a estranha máquina de entortar homens”. E um pouco mais
adiante: ... “é Mozart assassinado um pouco em cada um desses
homens!” Verdade implacável!
Quantas crianças ceifadas da possibilidade de viver
sua infância; quantos adolescentes sem condições de desenvolver seus talentos,
quantos adultos com os caminhos de realização pessoal fechados e quantos idosos
abandonados.
É o adoecimento
ontológico - adoecimento da natureza humana; tempos de coisificação, tempos de
não pessoalidade - da não abertura para o encontro com o outro; onde interesses
econômicos e políticos sobrepujam as necessidades humanas; onde há uma intensa
dissociação do homem com a natureza e com a sua própria condição humana.
Quantas vezes Herodes, quantas vezes Pilatos, quantas
vezes Zaqueu? repetição agônica!
Caro poeta, Vinícius de Moraes, sei “que é melhor ser alegre do que ser
triste”, mas como?
Como ser feliz quando há tantas vidas sobrecarregadas
de sofrimentos, que conhecem a miséria e o desespero, geralmente, contra sua
vontade?
Como acreditar que um dia a humanidade mudará para
melhor?
Mas... é necessário
o exercício da fé na possibilidade humana. É preciso acreditar que temos
condições de nos transformar em pessoas melhores e mais saudáveis.
Nesse momento tão traumático é importante que entendamos
a comoção global das pessoas como sinal de uma humanidade ainda viva dentro de cada pessoa e,
talvez tenhamos de nos espelhar nos ipês que, na estação mais seca, respondem
com uma floração exuberante.
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: internet Aylan
texto publicado no jornal: O COMBATE (26 de setembro de 2015)
imagem: internet Aylan
texto publicado no jornal: O COMBATE (26 de setembro de 2015)
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Ostra feliz não faz pérola.
Rubem Alves
Querida
ostra, sou sua pérola; sou o resultado de sua luta em sobreviver.
Nasci do seu
esforço em não morrer, cresci de sua briga por respirar.
Sou aqueles
grãozinhos de areia que invadiram, impiedosamente, suas entranhas sem que você
pudesse controlar.
Seu nácar
protegeu-me e agora sou essa pérola maravilhosa que a todos seduz, mas que só você soube gestar.
Meu valor é o
seu valor; minha beleza espelha sua beleza. Por saber que a vida nos pede luta,
destreza e, em alguns momentos, asperezas, reverencio-lhe porque sei do que você
foi capaz: exemplo de uma vida de muita dedicação e que mesmo ferida foi capaz
de envolver-me de amor.
Você é uma pequena
que se revelou gigante; eu sou sua pérola, sua mais bela criação.
Em seu
isolamento me libertou; não me aprisionou como posse e propriedade sua e seu
amor é oferenda ao mundo.
Mas a vida é
isto: luta e entrega. Agora estou pronta para cumprir o meu destino.
Talvez
encontre um ourives generoso que me faça brilhar num lindo colar e, quem sabe,
poderei selar a união de um grande amor.
artigo publicado no jornal "O Combate"
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Foto: internet
domingo, 13 de setembro de 2015
“O espírito do amor segreda com tanta
timidez”
Leio, releio, torno a ler,
incansavelmente, a crônica “Imagem” de
Cecília Meireles.
Como é possível escrever, com
tamanha clareza, uma batalha travada no interior de uma pessoa?
O texto narra a história de uma
mulher que encontra, em seu caminho, um gatinho abandonado e doente e, diante
dessa situação, é rodeada por uma “assembleia de espíritos”, que tentam convencê-la a ignorar tal
questão.
Ela vacila, sofre e desperdiça
a oportunidade de fazer a diferença na vida de alguém - seja animal ou gente.
“E só o espírito do amor segredava tímido: ‘Toma-o nas mãos e leva-o
contigo!
Verás
que, no teu colo, seus olhinhos lacrimosos se fecharão adormecidos; sua fome se
esquecerá, suas feridas fecharão... ’ Mas o espírito do amor segreda com tanta
timidez” .
Por que será que o espírito do
amor reside de um modo tão tímido e fraco em nós, seres humanos?
Por que as pessoas não se
sustentam nos três pilares da vida humana: a inteligência, a coragem e o amor
ao próximo, citados pelo psicólogo Victor Frankl?
Por que será que, às vezes, é
tão difícil amar quem está próximo e nas situações cotidianas?
Temos o potencial para o amor,
com certeza, mas o espírito prático do mundo fala mais alto.
“Senti o desejo de ajudar
aquela pessoa, mas sei que não devemos dar dinheiro para um pedinte, pois ele
gastará com droga ” .
“Dei um prato de comida para o
moço que bateu na minha porta, mas é só dessa vez, pois ele pode se acostumar e
voltar sempre”.
“Chequei em casa com o propósito
de ler um livro para meu filho pequeno dormir, mas acabei deitando no sofá e
peguei no sono.”
“Já cansei de falar para meus
filhos irem ver os avós , mas, você
sabe, a juventude é difícil!”
“Sei que preciso ir mais
frequentemente à casa dos meus pais, mas chego tão cansado do trabalho,
que acabo desistindo e aí sinto-me
culpado. ”
Cecília Meireles parece ter
razão quando diz que “o espírito
prático é o mais covarde e o mais vil espírito
da era
contemporânea”. Estamos perdendo a pessoalidade e o
cotidiano não tem
sido vivido como um lugar de encontro e
partilha. Há uma hipertrofia funcional
e o ser humano, com
pouca ressonância da sua afetividade, está sendo,
cada vez
mais, menos humano.
Texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Imagem: internet
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Não importa! Não importa
mesmo quem mora mais perto, em que direção, o quanto de distância, ou qualquer
outra coisa do gênero.
O que vale é que elas são
minhas vizinhas e, com certa frequência, me visitam. Fico a imaginar a casa
delas. Dona Tristeza deve morar em uma casa cinza, apertada, janelas bem
trancadas e sem alpendre.
Dona Alegria, por sua
vez, deve ter uma casa toda ensolarada, com janelas azuis, vasos de flores nas
paredes, amplas varandas. Nas varandas, periquitos, passarinhos, cachorro, gato
e uma rede bem rendada.
Dona Tristeza, quando me
visita, vem com uma mala pesada e vai entrando sem pedir licença. Pouco fala,
pouco se explica. É cheia de rodeios, não se revela. Faz questão de avisar que
está chegando, pois arrasta seus
chinelos fazendo um barulho irritante. Tem uma peculiaridade: geralmente chega à
noite, quando o sol, há muito, já se pôs. É de uma mudez e de uma teimosia...
Prende-me em sua energia,
afasta-me de todos e de tudo e leva-me a lugares que sempre evito explorar.
Dona Alegria parece-me
mais tímida e é muito respeitosa. Sempre
espera por um sinal, um gesto, um convite para se aproximar. Nunca vem sozinha;
sempre lhe acompanha um cheirinho de alecrim, um calor gordinho, uma fita de
filó que enlaça nossas mãos. Quando percebo, já estou rodopiando na sala,
apaixonada por tudo que existe ao meu redor. São muitas horas, dias, meses em que
somente falo bobeiras, sorrio à toa, canto bem alto, telefono para os amigos e
faço mil planos com o tempo futuro, que sempre é recebido como um querido amigo.
Não sei como chegar à
casa delas: se viro à esquerda ou à direita
do meu coração, apenas elas é que sabem me encontrar. Confesso que, por muito
tempo, quis decifrá-las, conhecer suas origens, compreendê-las para dominá-las.
Conseguiria, assim, levantar muros bem altos, colocar câmeras
a fim de detectar e evitar a visita indesejável da vizinha
Dona Tristeza. Ansiava, no entanto, por descobrir a casa da Dona Alegria,
pois construiria uma chaminé que levasse uma fumacinha branca de boas vindas ou,
então, o cheiro de um café passado e coado na hora.
Hoje estou em paz. Recebo-as,
igualmente, porque sei que as duas têm muito a me ensinar. Vivo os arredores dessas emoções procurando não
afugentá-las, dando a cada visita a maior consideração, pois, somente assim, tenho a possibilidade de me conhecer melhor
e ser a pessoa que hoje sou.
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: internet
imagem: internet
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Num tempo não tão distante assim
Num tempo
não tão distante assim, viviam pessoas um tanto estranhas, de um modo um
tanto estranho também .
Moravam em pequenas cidades e seus hábitos eram por demais
diferentes dos nossos - seres modernos e sofisticados - que têm como diversão,
após uma jornada de trabalho de dez ou doze horas, colocarem-se em frente à tevê ou
computador e distraírem-se até o sono chegar.
Sinceramente, não sei o que aquelas pessoas pensavam sobre a vida; o que sei é que os fatos relatados são a mais pura verdade, mas vou avisando: ”qualquer semelhança é mera coincidência”, afinal, não poderíamos ter parentesco algum com seres tão “ingênuos”.
Nas tardes mais quentes, por volta das dezoito horas (imaginem!),
já estavam em casa e, após o jantar em que comiam sem se preocupar com as
calorias ingeridas, puxavam as cadeiras e sentavam-se nas calçadas. Às vezes,
só a família, outras vezes, abriam a
roda para os vizinhos e todos juntos
ficavam conversando até bem tarde .
De madrugada, o leiteiro passava entregando o leite e, um pouco
mais tarde, o padeiro deixava o pão quentinho. Mas, só após o apito da fábrica
é que todos se levantavam. Os homens saíam para trabalhar e as mães preparavam
seus filhos para a escola; durante o percurso eram muitos “bom-dia“. Algumas
mulheres colocavam-se à janela para um papinho ou para fofocar, outras varriam
suas calçadas e outras passavam apressadamente com um saco de roupas na cabeça.
Tudo muito estranho realmente! À tarde, geralmente, as mulheres e suas empregadas
faziam deliciosos quitutes: bolachinhas, bolos, biscoitos e a vizinha sempre
ganhava uma generosa porção. Alguns dias depois, era a vizinha que vinha com
outras guloseimas no prato emprestado, pois era ” falta de educação” devolvê-lo vazio.
Quando o casal saía a pé para passear, o homem tinha por costume
zelar pela proteção da mulher, tomando sempre a posição de ficar do lado da rua
e a mulher “guardada” do movimento dos carros ou dos transeuntes.
Não era necessário dinheiro, cheque ou cartão de crédito na compra
de alguma coisa; o costume era marcar, pôr na “conta”, ou na caderneta e, no
final do mês, pagava-se o que estava devendo, sem juros, imaginem! Nas padarias
era costume o proprietário agradecer o pagamento efetuado pelo cliente com
alguns doces deliciosos.
Porém, nem tudo era um mar de flores nesse país muito estranho.
As preocupações existiam, pois as ameaças sempre estiveram
presentes na vida dos seres humanos, mas eles contavam com mecanismos de
proteção infalíveis. Antes de dormir, as crianças olhavam embaixo da cama para
verificar se não havia ladrão e, ao
deitar, pediam a bênção do pai e da mãe, após rezarem pedindo a proteção do Anjo
da guarda.
Os adultos, quando saíam de casa, escondiam a chave no vaso do terraço, ou na janela, para que seus filhos pudessem entrar quando chegassem.
Os medos, geralmente, eram de assombrações, mulas- sem- cabeça,
almas penadas.
Aventura era pular do trampolim na piscina, subir em árvore,
escorregar no corrimão das escadas ou jogar amarelinha para chegar ao céu.
É claro que nesse tempo as crianças não eram ”santinhas”, já faziam suas artes, como esconderem-se atrás da porta para observar a avó tirar a dentadura ou usar estilingue para matar passarinhos. Os adolescentes eram terríveis, escondiam-se no banheiro para fumar, as mocinhas, nos quartos, para lerem fotonovelas e, no “escurinho do cinema”, davam beijos apaixonados.
Consideravam “maior barato” mascar chiclete e bala Chita.
Tinham também suas crendices, como deixar o gomo menorzinho da
tangerina secando para que Nossa Senhora viesse buscá-lo, e dar um susto na
pessoa que estava com soluço. Cantavam seu grito de guerra ao som da Jovem
Guarda, “quero que vá tudo para o inferno”, “eu sou terrível”; tocavam com seus
violões a música do Caetano que incitava todos a saírem “sem lenço e sem documento”, e
recebiam muitas outras influências , até do além- mar - como um grupo de jovens
cabeludos que faziam as meninas desmaiarem quando apareciam com suas guitarras
cantando “Yellow Submarine”.
Realmente estranhos esses habitantes, pois não ficavam como nós assistindo ao Big Brother Brasil e pensando qual participante deve sair da casa e quem merece ganhar o prêmio e pousar nu para as revistas para, finalmente, e conseguir a “fama”. Estavam sempre “gamados”, ou melhor, apaixonados, só queriam dançar de rostinho colado e de olhos fechados.
Estar na moda era ter uma calça ” jeans” desbotada, (para isso, a esfregavam no tanque até ficar bem surrada).
Poderia continuar a relatar muitas outras esquisitices desse povo,
mas vou terminar com o que considero o mais estranho e o mais “repugnante“ de
todos os fatos.
O tempo, nesse tempo, era diferente, andava mais devagar. Uma mulher que não tivesse um namorado até por volta dos 20 anos ia ficar “pra titia” e, após os cinquenta anos, as pessoas eram consideradas velhas!
Ainda bem que a civilização moderna chegou!
texto: Elliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: Mone
texto: Elliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: Mone
domingo, 2 de agosto de 2015
TEMPO É TERNURA
Viver tem
sido adiantar o serviço do dia seguinte. No domingo, já estamos na segunda, na
terça já estamos na quarta e sempre um dia a mais do dia que deveríamos viver.
Pelo excesso de antecedência, vamos morrer um mês antes.
Está na
hora de encarar a folha branca da agenda e não escrever. O costume é marcar o
compromisso e depois adiar, que não deixa de ser uma maneira de ainda
cumpri-lo.
Tempo é ternura.
Perder
tempo é a maior demonstração de afeto. A maior gentileza. Sair daquele
aproveitamento máximo de tarefas. Ler um livro para o filho pequeno dormir.
Arrumar as gavetas da escrivaninha de sua mulher quando poderia estar fazendo
suas coisas. Consertar os aparelhos da cozinha, trocar as pilhas do controle
remoto. Preparar um assado de 40 minutos. Usar pratos desnecessários, não
economizar esforço, não simplificar, não poupar trabalho, desperdiçar simpatia.
Levar uma
manhã para alinhar os quadros, uma tarde para passar um paninho nas capas dos
livros e lembrar as obras que você ainda não leu. Experimentar roupas antigas e
não colocar nenhuma fora. Produzir sentido da absoluta falta de lógica.
Tempo é ternura.
O tempo
sempre foi algoz dos relacionamentos. Convencionou-se explicar que a paixão é
biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo.
Não é
verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração.
Somente
descobriremos a intensidade se permitirmos durar. Se existe disponibilidade
para errar e repetir. Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais
do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto.
Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte.
Acima da
obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer
ao lado da esposa. Interromper o que precisamos para despertar novas
necessidades.
Intensidade
é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou. É começar a
cuidar justamente porque não funcionou.
Casais há
mais de três décadas juntos perderam tempo. Criaram mais chances do que os
demais. Superaram preconceitos. Perdoaram medos. Dobraram o orgulho ao longo
das brigas. Dormiram antes de tomar uma decisão.
Cederam o
que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas. Dar uma vida a alguém
será sempre maior do que qualquer vida imaginada.
Fabrício
Carpinejar
foto internet
foto internet
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Uma parábola antiga diz o seguinte: ”Se
dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se
encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um pão. Porém se
dois homens vêm andando por uma estrada, cada um portando uma ideia, e ao se
encontrarem trocam suas ideias , cada um vai embora com duas ideias”.
Muitas coisas em nossas vidas poderiam
ser diferentes se fossemos capazes de compreender esse ensinamento como uma ideia
sagrada. Teríamos um farol mais seguro norteando nossas ações ao que é
essencial em nossas vidas.
Agendas tão sufocadas por deveres e
tarefas, tão suadas por distrações alienantes, tão temerosas das linhas em
branco deixariam fluir um tempo maior para ir ao encontro do Outro.
Talentos, ideias , sentimentos,
lágrimas, sorrisos, pensamentos, seriam
compartilhados e ,com certeza, seríamos pessoas mais desarmadas, com
menor necessidade de ter razão, de ser melhor ou de ter cada vez mais coisas.
Teríamos companhia - comeríamos o pão
juntos, sem pudor e sem pressa, haveríamos de dar um lugar cativo para a alegria e para o amor e
nossos corações poderiam sair para dançar a dois, a três, a mil mãos.
Utopia? Possível na Terra do Nunca ou
no Mundo da Fantasia?
Besteira?
Não. Impossível, não é ! Pois
encontros acontecem. Só não estamos conseguindo dimensioná-los, sacralizá-los,
investi-los de maior envergadura e importância.
VIR-A SER- pode ser um projeto de
vida, se formos um SER - COM, um SER –PARA.;através da disposição de considerar
e abrir-se para possibilidades mais amplas de quem somos.
Esse é um propósito estimulante para
energizar nossa vida com VIDA; um
projeto de felicidade e alegria , pois o poeta está certo quando diz:
”Ai
daqueles que nunca cantam, morrendo com toda a sua música dentro de si”.
Direi,
SIM, a um novo VIR-A SER.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Na roda da vida
Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu
A gente
estancou de repente
Ou foi o
mundo então que cresceu.
Chico
Buarque
Há dias e mais dias...
Há dias em que a gente questiona se é isso mesmo: se estamos vivendo
bem, fazendo o certo, se estamos fazendo bem o Bem, se é assim que queremos
viver.
Há dias em que a gente interroga a
vida: as voltas e rodopios que ela dá.
Para que isso, por que assim, o que afinal está acontecendo?
“Viver é negócio muito perigoso”, “viver é um descuido prosseguido”, dizia
Guimarães Rosa. Mesmo assim, não desistimos de querer ter voz ativa sobre a
vida, sobre os acontecimentos e sobre o tempo. Tal como os amantes que mesmo
discordando e brigando não abrem mão de ficarem juntos, acreditando que um dia,
um mudará o outro e, aí sim, serão felizes para sempre. Essa é nossa postura frente à vida .
Há dias em que a roda-vida
mostra-se uma bela dama, dá-nos liberdade
de escolha, deixa-se conduzir por nossas mãos e nos seduz com seu encanto. É a
mais pura paixão!
Um enorme arco-íris de emoções nasce em nossos corações, e nós bailamos
com leveza e graça.
Há dias em que ela parece mais preguiçosa, menos voraz em relação às horas, permitindo que respiremos devagar.
Proporciona-nos poucas novidades e, quando amantes das pequenas coisas,
absorvemos tudo com mais sabor .
É pura magia e diversão!
Há dias em que se mostra generosa,
a cada volta que ela dá, uma surpresa boa nos espera, um presente que chega de
repente, uma dádiva que nos escolhe para dar a mão.
Mas há dias em que a roda parece enlouquecida, é um verdadeiro ciclone,
vira tudo de cabeça para baixo, arranca aquilo que está em desenvolvimento. Sentimos
medo e atordoamento e não sabemos para onde correr. Nem sequer somos ouvidos, pouco
importa nosso querer. A gente reage, “vai contra a corrente” , tranca as mãos,
emperra, estanca, mas ela é soberana.
É só desolação!
Nesses momentos, a roda é uma roca ceifando desejos e ilusões. O
cotidiano, com seus sonhos e projetos acalentados, é mexido e remexido, não
deixando pedra sobre pedra. É a roda
girando e levando para longe nosso sossego e segurança.
“Na volta do barco é que sente,
O quanto deixou de cumprir...”
Dias passam, outros vêm, e nós não cansamos de nos perguntar: onde
erramos, o que deveríamos ter feito e que não fizemos, o que poderíamos ter evitado e
que não evitamos?
“Roda mundo...”
Seu giro é impessoal e indiferente ao nosso querer.
Seus propósitos nem sempre conseguimos entender, e ela vai desenhando
figuras fantásticas sempre diferentes no ar. Será moinho, será pião, roda
gigante?
Capturados pela grande aventura, fascinados por sua força de atração e
pelas lembranças dos momentos vividos, respiramos fundo e mergulhamos como
crianças, seduzidos novamente pela velha cantiga de roda tão bela e tão louca chamada
Vida.
Há um dia em que uma força mansa e tenaz nos tira da roda.
A volta foi completada e é o momento de voltar para casa.
Esse passo não é ensinado a ninguém. Quem dançou com altivez e coragem
todos os movimentos da roda, com certeza, saberá soltar as mãos e se deixar levar para o definitivo encontro
amoroso com o seu Criador e se tornar,
assim, encantado .
Texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Imagem: Internet
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- "A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)
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