sexta-feira, 14 de agosto de 2015



Num tempo não tão distante assim

Num tempo não tão distante assim, viviam  pessoas um tanto estranhas, de um modo um tanto  estranho  também .

Moravam em pequenas cidades e seus hábitos eram por demais diferentes dos nossos - seres modernos e sofisticados - que têm como diversão, após uma jornada de trabalho de dez ou doze horas, colocarem-se em frente à tevê ou computador e distraírem-se até o sono chegar.

Sinceramente, não sei o que aquelas pessoas pensavam sobre a vida; o que sei é que os fatos relatados são a mais pura verdade, mas vou avisando: ”qualquer semelhança é mera coincidência”, afinal, não poderíamos ter parentesco algum com seres tão “ingênuos”.

Nas tardes mais quentes, por volta das dezoito horas (imaginem!), já estavam em casa e, após o jantar em que comiam sem se preocupar com as calorias ingeridas, puxavam as cadeiras e sentavam-se nas calçadas. Às vezes, só a família,  outras vezes, abriam a roda para os vizinhos e  todos juntos ficavam conversando até  bem tarde .

De madrugada, o leiteiro passava entregando o leite e, um pouco mais tarde, o padeiro deixava o pão quentinho. Mas, só após o apito da fábrica é que todos se levantavam. Os homens saíam para trabalhar e as mães preparavam seus filhos para a escola; durante o percurso eram muitos “bom-dia“. Algumas mulheres colocavam-se à janela para um papinho ou para fofocar, outras varriam suas calçadas e outras passavam apressadamente com um saco de roupas na cabeça. Tudo muito estranho realmente! À tarde, geralmente, as mulheres e suas empregadas faziam deliciosos quitutes: bolachinhas, bolos, biscoitos e a vizinha sempre ganhava uma generosa porção. Alguns dias depois, era a vizinha que vinha com outras guloseimas no prato emprestado, pois era  ” falta de educação”  devolvê-lo vazio.

Quando o casal saía a pé para passear, o homem tinha por costume zelar pela proteção da mulher, tomando sempre a posição de ficar do lado da rua e a mulher “guardada” do movimento dos carros ou dos transeuntes.
Não era necessário dinheiro, cheque ou cartão de crédito na compra de alguma coisa; o costume era marcar, pôr na “conta”, ou na caderneta e, no final do mês, pagava-se o que estava devendo, sem juros, imaginem! Nas padarias era costume o proprietário agradecer o pagamento efetuado pelo cliente com alguns doces deliciosos.

Porém, nem tudo era um mar de flores nesse país muito estranho.
As preocupações existiam, pois as ameaças sempre estiveram presentes na vida dos seres humanos, mas eles contavam com mecanismos de proteção infalíveis. Antes de dormir, as crianças olhavam embaixo da cama para verificar se não havia ladrão  e, ao deitar, pediam a bênção do pai e da mãe, após rezarem pedindo a proteção do Anjo da guarda.

Os adultos, quando saíam de casa, escondiam a chave no vaso do terraço, ou na janela, para que seus filhos pudessem entrar quando chegassem.
Os medos, geralmente, eram de assombrações, mulas- sem- cabeça, almas penadas.
Aventura era pular do trampolim na piscina, subir em árvore, escorregar no corrimão das escadas ou jogar amarelinha para chegar ao céu.

É claro que nesse tempo as crianças não eram ”santinhas”, já faziam suas artes, como esconderem-se atrás da porta para observar a avó tirar a dentadura ou usar estilingue para matar passarinhos. Os adolescentes eram terríveis, escondiam-se no banheiro para fumar, as mocinhas, nos quartos, para lerem fotonovelas e, no “escurinho do cinema”, davam beijos apaixonados.

Consideravam “maior barato” mascar chiclete e bala Chita.
Tinham também suas crendices, como deixar o gomo menorzinho da tangerina secando para que Nossa Senhora viesse buscá-lo, e dar um susto na pessoa que estava com soluço. Cantavam seu grito de guerra ao som da Jovem Guarda, “quero que vá tudo para o inferno”, “eu sou terrível”; tocavam com seus violões  a música do Caetano que incitava  todos a saírem “sem lenço e sem documento”, e recebiam muitas outras influências , até do além- mar - como um grupo de jovens cabeludos que faziam as meninas desmaiarem quando apareciam com suas guitarras cantando “Yellow Submarine”.

Realmente estranhos esses habitantes, pois não ficavam como nós assistindo ao Big Brother Brasil e pensando qual participante deve sair da casa e quem merece ganhar o prêmio e pousar nu para as revistas para, finalmente, e conseguir a “fama”. Estavam sempre “gamados”, ou melhor, apaixonados, só queriam dançar de rostinho colado e de olhos fechados.

Estar na moda era ter uma calça ” jeans” desbotada, (para isso, a esfregavam no tanque até ficar bem surrada).
Poderia continuar a relatar muitas outras esquisitices desse povo, mas vou terminar com o que considero o mais estranho e o mais “repugnante“ de todos os fatos.

O tempo, nesse tempo, era diferente, andava mais devagar. Uma mulher que não tivesse um namorado até por volta dos 20 anos ia ficar “pra titia” e, após os cinquenta anos, as pessoas eram consideradas velhas!
Ainda bem que a civilização moderna chegou!


texto: Elliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: Mone



domingo, 2 de agosto de 2015




TEMPO É TERNURA
Viver tem sido adiantar o serviço do dia seguinte. No domingo, já estamos na segunda, na terça já estamos na quarta e sempre um dia a mais do dia que deveríamos viver. Pelo excesso de antecedência, vamos morrer um mês antes.
Está na hora de encarar a folha branca da agenda e não escrever. O costume é marcar o compromisso e depois adiar, que não deixa de ser uma maneira de ainda cumpri-lo.
Tempo é ternura.
Perder tempo é a maior demonstração de afeto. A maior gentileza. Sair daquele aproveitamento máximo de tarefas. Ler um livro para o filho pequeno dormir. Arrumar as gavetas da escrivaninha de sua mulher quando poderia estar fazendo suas coisas. Consertar os aparelhos da cozinha, trocar as pilhas do controle remoto. Preparar um assado de 40 minutos. Usar pratos desnecessários, não economizar esforço, não simplificar, não poupar trabalho, desperdiçar simpatia.
Levar uma manhã para alinhar os quadros, uma tarde para passar um paninho nas capas dos livros e lembrar as obras que você ainda não leu. Experimentar roupas antigas e não colocar nenhuma fora. Produzir sentido da absoluta falta de lógica.
Tempo é ternura.

O tempo sempre foi algoz dos relacionamentos. Convencionou-se explicar que a paixão é biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo.
Não é verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração.
Somente descobriremos a intensidade se permitirmos durar. Se existe disponibilidade para errar e repetir. Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto. Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte.

Acima da obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer ao lado da esposa. Interromper o que precisamos para despertar novas necessidades.
Intensidade é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou. É começar a cuidar justamente porque não funcionou.
Casais há mais de três décadas juntos perderam tempo. Criaram mais chances do que os demais. Superaram preconceitos. Perdoaram medos. Dobraram o orgulho ao longo das brigas. Dormiram antes de tomar uma decisão.

Cederam o que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas. Dar uma vida a alguém será sempre maior do que qualquer vida imaginada.

Fabrício Carpinejar

foto internet



quarta-feira, 22 de julho de 2015

                                       

imagem da internet: autor desconhecido

 VIR - A - SER

Uma parábola antiga diz o seguinte: ”Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um pão. Porém se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um portando uma ideia, e ao se encontrarem trocam suas ideias , cada um vai embora com duas ideias”.

Muitas coisas em nossas vidas poderiam ser diferentes se fossemos capazes de compreender esse ensinamento como uma ideia sagrada. Teríamos um farol mais seguro norteando nossas ações ao que é essencial em nossas vidas.

Agendas tão sufocadas por deveres e tarefas, tão suadas por distrações alienantes, tão temerosas das linhas em branco deixariam fluir um tempo maior para ir ao encontro do Outro.

Talentos, ideias , sentimentos, lágrimas, sorrisos, pensamentos, seriam  compartilhados e ,com certeza, seríamos pessoas mais desarmadas, com menor necessidade de ter razão, de ser melhor ou  de ter cada vez  mais coisas.

Teríamos companhia - comeríamos o pão juntos, sem pudor e sem pressa, haveríamos de dar um  lugar cativo para a alegria e para o amor e nossos corações poderiam sair para dançar a dois, a três, a mil mãos.
Utopia? Possível na Terra do Nunca ou no Mundo da Fantasia?
Besteira? 

Não. Impossível, não é ! Pois encontros acontecem. Só não estamos conseguindo dimensioná-los, sacralizá-los, investi-los de maior envergadura e importância.
VIR-A SER- pode ser um projeto de vida, se formos um SER - COM, um SER –PARA.;através da disposição de considerar e abrir-se para possibilidades mais amplas de quem somos.

Esse é um propósito estimulante para energizar nossa vida com VIDA; um  projeto de felicidade e alegria , pois o poeta está certo quando diz:
Ai daqueles que nunca cantam, morrendo com toda a sua música dentro de si”.

Direi, SIM, a um  novo VIR-A SER.

quarta-feira, 1 de julho de 2015


Na roda da vida

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu.
Chico Buarque

Há dias e mais dias...
Há dias em que a gente questiona se é isso mesmo: se estamos vivendo bem, fazendo o certo, se estamos fazendo bem o Bem, se é assim que queremos viver.
Há dias em  que a gente interroga a vida: as voltas e rodopios que ela dá.

Para que isso, por que assim, o que afinal está acontecendo?
“Viver é negócio muito perigoso”, “viver é um descuido prosseguido”, dizia Guimarães Rosa. Mesmo assim, não desistimos de querer ter voz ativa sobre a vida, sobre os acontecimentos e sobre o tempo. Tal como os amantes que mesmo discordando e brigando não abrem mão de ficarem juntos, acreditando que um dia, um mudará o outro e, aí sim, serão felizes para sempre. Essa  é nossa postura frente à vida .

Há  dias em que a roda-vida mostra-se uma bela dama, dá-nos  liberdade de escolha, deixa-se conduzir por nossas mãos e nos seduz com seu encanto. É a mais pura paixão!

Um enorme arco-íris de emoções nasce em nossos corações, e nós bailamos com leveza e graça.
Há dias em que ela parece mais preguiçosa, menos voraz em relação às  horas, permitindo que respiremos devagar.
Proporciona-nos poucas novidades e, quando amantes das pequenas coisas, absorvemos  tudo com mais sabor .
É pura magia e diversão!

Há dias em  que se mostra generosa, a cada volta que ela dá, uma surpresa boa nos espera, um presente que chega de repente, uma dádiva que nos escolhe para dar a mão.
Mas há dias em que a roda parece enlouquecida, é um verdadeiro ciclone, vira tudo de cabeça para baixo, arranca aquilo que está em desenvolvimento. Sentimos medo e atordoamento e não sabemos para onde correr. Nem sequer somos ouvidos, pouco importa nosso querer. A gente reage, “vai contra a corrente” , tranca as mãos, emperra, estanca, mas ela é soberana.
É só desolação!

Nesses momentos, a roda é uma roca ceifando desejos e ilusões. O cotidiano, com seus sonhos e projetos acalentados, é mexido e remexido, não deixando pedra sobre pedra. É  a roda girando e levando para longe nosso sossego e segurança.

“Na volta do barco é que sente,
O quanto deixou de cumprir...”

Dias passam, outros vêm, e nós não cansamos de nos perguntar: onde erramos, o que deveríamos ter feito e  que não fizemos, o que poderíamos ter evitado e que não evitamos?

“Roda mundo...”

Seu giro é impessoal e indiferente ao nosso querer.
Seus propósitos nem sempre conseguimos entender, e ela vai desenhando figuras fantásticas sempre diferentes no ar. Será moinho, será pião, roda gigante?
Capturados pela grande aventura, fascinados por sua força de atração e pelas lembranças dos momentos vividos, respiramos fundo e mergulhamos como crianças, seduzidos novamente pela velha cantiga de roda tão bela e tão louca chamada Vida.

Há um dia em que uma força mansa e tenaz nos tira da roda.
A volta foi completada e é o momento de voltar para casa.
Esse passo não é ensinado a ninguém. Quem dançou com altivez e coragem todos os movimentos da roda, com certeza, saberá soltar as mãos e  se deixar levar para o definitivo encontro amoroso com o seu Criador e se  tornar, assim, encantado .

Texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro

Imagem: Internet






sexta-feira, 26 de junho de 2015




Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) –
são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é
preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos
flores diminutas se abrem ao amanhecer. (...) E também não basta ter recordações. É preciso
saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si.
Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e
gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa
hora muito rara brote do meio delas a primeira palavra de um poema.
Rainer Maria Rilke
Os cadernos de Malte Laurids Brigge

sábado, 13 de junho de 2015


imagem da internet: goth 07.jpg

Temporal em minha alma

Quando a alma fala, já não fala a alma.
Friedrich Schiller

Estou sombria; acho que vou chover e parece que é chuva pesada.
Sinto medo, não gosto de sentir o tempo carregado; não sei se terei capacidade para dar vazão a todo fluxo que cairá. Descuidei-me dos bueiros, devem estar abarrotados de lixo que, com o tempo, fui depositando,
Sempre, com a desculpa de que “depois eu vejo isto”.
Agora, anuncia-se a chuva e sei que não será uma chuva leve, gostosa e calma. Os ventos estão cada vez mais fortes e carregam todas as certezas que pareciam tão firmes no meu solo. Tudo parece ir pelos ares e a visão é turva devido à poeira levantada daqueles lugares tão esquecidos e  tão pouco cuidados . As nuvens das palavras não ditas, dos sentimentos estancados querem desabar e arrasar tudo. A fúria é grande.
Será que os telhados suportarão; restarão fantasias e sonhos? Ou todos serão engolidos pelas águas salgadas do meu mar?
Para quem eu dei o melhor de mim?
O que será o melhor de mim? Como será o meu verão, onde estará  o meu sol,  em que estrela guardei o meu tesouro?
Quem sabe de mim? Meus pais, irmãos, amigos?
Como refazer-me após a tempestade, como reconstruir o que for desabado?
Valerá à pena restaurar, tal como sou agora? Eu sou o quê?
Eu quero o quê? Eu amo o quê?
Acho que não consegui decifrar-me  e a tempestade me devorará .
Nem ao espelho poderei recorrer, dizem que não é bom ficar perto dele em noites de tempestades.
Quem me dirá quem sou , quem me salvará? Onde estará o pedaço de mim que é bom, que é belo e que é meu?
E, quando encontrá-lo, para quem ofertar?

texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro




terça-feira, 26 de maio de 2015



Moderno peregrino


Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa.
Guimarães Rosa


Se compreendêssemos profundamente nossa condição de peregrinos neste mundo, saberíamos vivenciar intensamente cada minuto desta estrada, cada direção escolhida, cada inclinação assumida, cada oferta recebida.

Se compreendêssemos profundamente nossa condição de peregrinos neste mundo, estenderíamos nossas mãos, esgarçaríamos nossas dúvidas, saberíamos dimensionar nosso tamanho, e aproximar-nos-íamos  de todos os  que também peregrinam .

Se compreendêssemos profundamente nossa condição de peregrinos neste mundo, exploraríamos melhor os imensos tesouros de nossas almas, debruçar-nos-íamos atentamente nos ditames do coração e não temeríamos nossas sombras.

Se compreendêssemos profundamente que o importante não é a distância percorrida nem a bagagem  adquirida , acumularíamos a sabedoria do caminho, desataríamos os nós do egoísmo, respiraríamos profundamente os momentos de repouso, abrigar-nos-íamos no silêncio de nosso interior ...

Se compreendêssemos profundamente que a vida é, em essência, movimento e transformação, despojar-nos-íamos das cargas do medo, dos mecanismos de proteção e ficaríamos de mãos estendidas  para as alquimias necessárias.

Se compreendêssemos que o dínamo  que nos dá vitalidade é o amor, espalharíamos e multiplicaríamos suas sementes, e deixaríamos nossas  marcas pelo caminho.
Se compreendêssemos que a esperança é a força que nos faz erguer os olhos para o alto e que fortalece novos passos, faríamos desta travessia uma epifânia .
Viver mais profundamente  é uma questão de decisão que só vem com a compreensão profunda do verdadeiro sentido da vida .  A vida é muito mais do que se vê , é muito mais do que se suspeita, é uma bênção que dorme esperando a salvação .

texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: internet:pecksing_popud





terça-feira, 19 de maio de 2015


Primeiro levaram os negros,
mas não me importei com isso.
Eu não sou negro.
Em seguida, levaram alguns operários,
mas não me importei com isso.
Eu também não sou operário.
Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
também não me importei.
Agora estão me levando,
mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo
Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956)
Imagem: Ellen Kooi (internet)

sábado, 16 de maio de 2015






RITA LISAUSKAS
15 Maio 2015 | 09:00

Malala, a menina que queria ir para a escola. Ilustração: Bruna Assis Brasil
Malala, a menina que queria ir para a escola.
Ilustração: Bruna Assis Brasil
Ela não perdeu muito tempo se lamentando pelos cantos quando se sentiu injustiçada. Nem esperou que um príncipe a resgatasse. Malala até chorou um pouco, é verdade, mas quem não choraria ao ver seu país invadido pelos talibãs que, de quebra, ainda decretaram que as meninas não podiam mais estudar? Quem não choraria ao ver mais de 400 escolas destruídas? Malala logo botou a boca no mundo. “Como o Talibã se atreve a tirar meu direito à educação?”, discursou publicamente em 2008, quando tinha apenas 11 anos. Depois, usando um pseudônimo, escreveu um blog contando ao mundo como era sua vida durante a ocupação. Chamou a atenção por defender o acesso das mulheres à educação formal e, por isso, foi ameaçada e baleada pelos barbudos extremistas em outubro de 2012, quando voltava da escola.
A repórter especial do Estadão, Adriana Carranca, embarcou para o Paquistão logo depois que o Talibã tentou matar Malala, com uma missão: descobrir mais sobre a menina e contar essa história em um livro para o público adulto. Mas voltou de lá com um livro para as crianças. “Ficou claro para mim que esta era uma história incrível para os pequenos, por Malala ser também apenas uma menina, uma jovem de uma zona tribal que acreditou nos seus sonhos. Por ser uma história de amor à escola, aos professores, aos livros”, conta. Adriana se hospedou com moradores da cidade para entender o lugar onde Malala nasceu e cresceu. Conheceu a escola onde a menina estudou, conversou com amigas e colegas de classe. Falou com os médicos que a atenderam depois do atentado, parentes, vizinhos, e conheceu o quarto de Malala que, na época da visita de Adriana, lutava pela sobrevivência em um hospital da Inglaterra.
Ilustração: Bruna Assis Brasil
Ilustração: Bruna Assis Brasil
“Malala, a menina que queria ir para a escola”, da Companhia das Letrinhas, é um livro-reportagem que apresenta essa personagem tão contemporânea. “Todas as crianças provavelmente já ouviram falar de Malala, mas ninguém ainda tinha contado essa história para elas”, afirma Adriana. Chega a ser um bálsamo que uma menina tão forte e real seja apresentada aos nossos filhos que, muitas vezes, são levados a acreditar cegamente em princesas frágeis e em príncipes machões. “Ela não sonhava em encontrar um príncipe encantado, mas em ir para a escola; não queria se realizar por meio do casamento, mas por si própria com o mundo de possibilidades que a educação oferece. É uma anti-Cinderela”, completa.
Meu filho ainda não sabe ler, mas ao me ver uma tarde inteira debruçada sobre a história de Malala, quis saber do que se tratava o livro. “É sobre uma menina que foi proibida de ir para a escola, Samuca”. E ele, intrigado, arriscou uma teoria para a tal proibição. “Por que ela era muito bagunceira, mamãe?”. Eu expliquei que não, que existiam lugares onde as meninas eram impedidas de ir à escola por alguns homens maus. Ele, que já começa a achar as meninas legais, reclamou. “Nossa! Que lugar injusto esse!”
No livro, que será lançado neste sábado, 16/05 ,as crianças aprendem também que na cidade de Malala não é apenas na escola que as mulheres não eram bem-vindas. “No mercado de rua de Mingora, cidade da Malala, há uma faixa: Proibida a circulação de mulheres”, conta Adriana. Mostrar questões áridas para quem ainda está em processo de formação de caráter, pode ser uma boa forma de promover a tolerância religiosa, racial e cultural, segundo a autora. “Nós explicamos o que é uma igreja, uma sinagoga, uma mesquita, um templo; o hijab, o quipá, a cruz”, afirma. “É uma forma de ajudá-los a compreender o tempo em que vivemos”, completa. E no tempo em que vivemos, ainda bem, é possível também que um Prêmio Nobel da Paz seja dado a uma adolescente paquistanesa, como Malala. No discurso de recebimento do prêmio, Malala justificou sua luta. “Eu tinha duas opções, a primeira era permanecer calada e esperar para ser assassinada. A segunda era erguer a voz e, em seguida, ser assassinada. Eu escolhi a segunda. Eu decidi erguer a voz.”
Malala
“Malala, a menina que queria ir para a escola”
Autora: Adriana Carranca
Ilustradora: Bruna Assis Brasil
Idade: 6 a 11 anos
Lançamento: 16/05, 16hs
Local: Livraria da Vila. Alameda Lorena, 1.731
fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/

quinta-feira, 14 de maio de 2015




OUVIR ESTRELAS

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
Cecília Meireles

Ouvir o outro está muito difícil em nosso dia a dia. É motivo de riso o comentário: ”Que pessoa chata, eu só perguntei como ela estava e ela se pôs a explicar”.
Não há mais tempo para o outro, não há mais por que ficar perdendo tempo com “conversa fiada”, afinal tempo é dinheiro.
É interessante observarmos nossa irritação com adolescentes , quando ficam horas ao telefone ou ao computador, conversando com seus amigos; vamos logo chamando-os , para “irem tratar da vida”.
Há vários motivos que explicam esta dificuldade em ouvir as pessoas. Frequentemente, ouvimos de uma forma muito seletiva ou distorcida. Escolhemos alguns pontos que nos são convenientes e ignoramos todo o resto. Isso quando não caímos no velho hábito de julgar, ou tentar convencer que  nosso ponto de vista é o correto. Geralmente, carregamos preconceitos, entendendo-os como sendo verdades.
Ouvir de uma forma sensível, empática, concentrada e imparcial é cada vez mais raro, mesmo porque isto requer um tempo maior, e este tem sido objeto raro!
Está distante o tempo em que as pessoas se sentavam na varanda para conversar, ou paravam no vizinho para um cafezinho e um bocadinho de conversa.
Às vezes, sentimos até o desejo de ir à casa do amigo, mas logo hesitamos, pois poderemos atrapalhá-los, ou tirá-los do descanso, ou,  então, nós é que ficaremos atrasados,  e no outro dia é preciso acordar cedo.
É triste constatar que estamos, cada vez mais, sem disponibilidade interna para cultivar amizades, parcerias, e  os encontros vão sendo frequentemente adiados.
Talvez, precisássemos  criar escolas com janelas bem amplas, para que aprendêssemos novamente contemplar o céu, ouvir estrelas e ver a banda passar .
Será que é uma utopia, será que não mais teremos a paz que tínhamos?
 Será que mudamos tanto assim?
Será....
Escrito por Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: Internet


domingo, 10 de maio de 2015



SAIBA

Saiba! todo mundo tem mãe: ausente ou presente, conhecida ou desconhecida, carinhosa ou agressiva.
Trazemos parte dela em nós... querendo ou não, desejando ou não, gostando ou não.
Saiba! todos nós procuramos por ela: achando-a ou não, encontrando-a ou não, subindo em seu colo ou não.

Saiba, toda infância é melhor se há casa, família e um lar onde brincar.
Se os pais têm trabalho e valentia e, com a família, vivem em harmonia.
Saiba, toda infância é favorecida quando o amor se manifesta com alegria.
Saiba, todo mundo tem medo, tristeza e pavor de pensar que a família pode morrer.
Todo mundo tem vergonha, desalento e aflição de ver a infância nas esquinas, em total solidão.
Saiba, todo mundo tem a ver com tudo isso, SIM!
E a solução não pode esperar mais, NÃO!

Saiba! Todo mundo vai morrer, nossos pais também.
Mas se a família não se distrair, não se dividir, não se extinguir...
a vida continuará e o mundo sempre terá
PAIS para semear um futuro com muita PAZ.


Inspiração: “Saiba” - música de Arnaldo Antunes
escrito por: Eliete T. Cascaldi Sobreiro






quinta-feira, 30 de abril de 2015




Ser elegante

Quando falamos em “elegância”, primeiramente, recordamo-nos
de um jeito especial de vestir-se. Refere-se à pessoa que tem bom gosto ao escolher suas roupas e um porte físico privilegiado.
Assim falando, essa referencia é destinada à elegância da “segunda pele”.
Mas a verdadeira elegância é muito mais do que isso. Não se compra, não sofre influência de época ou da moda, pois seus quesitos são alinhavados com atitudes pautadas em princípios éticos .
Aurélio Buarque de Holanda define elegância como:”Distinção de porte, de maneira, garbo, graça,encanto. Bom gosto, gentileza. Cortesia”.
Na elegância do Ser, direito e avesso são uma coisa só, isto é,a conduta não depende de com que está ou onde está. Elegantes são pessoas que vivem com paixão o que fazem, realizando seus dons com excelência e responsabilidade. Não são arrogantes perante o Outro, agem com naturalidade e estão sempre abertas a olharem as novas tendências de época com entusiasmo e abertura.
Ser elegante não é possuir bens materiais, sobrenomes famosos ou  viver recluso em grupos de iguais. Sua marca é a afetividade, e a consciência  de que faz parte de um todo maior.
È aquela pessoa que porta-se com interesse e respeito perante o Outro e com veracidade diante de si mesmo.
Concluindo, pode-se dizer que uma pessoa elegante, é alguém que tece, através do seu comportamento, um mundo mais bonito, e que mesmo espelhando-se em modelos que considera dignos, o faz com a sua marca singular.

Eliete T.Cascaldi Sobreiro

foto: minha avó, Alice, exemplo de uma pessoa elegante



Apontadora de Idéias

Minha foto
São Paulo, Brazil
"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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