quarta-feira, 1 de julho de 2015


Na roda da vida

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu.
Chico Buarque

Há dias e mais dias...
Há dias em que a gente questiona se é isso mesmo: se estamos vivendo bem, fazendo o certo, se estamos fazendo bem o Bem, se é assim que queremos viver.
Há dias em  que a gente interroga a vida: as voltas e rodopios que ela dá.

Para que isso, por que assim, o que afinal está acontecendo?
“Viver é negócio muito perigoso”, “viver é um descuido prosseguido”, dizia Guimarães Rosa. Mesmo assim, não desistimos de querer ter voz ativa sobre a vida, sobre os acontecimentos e sobre o tempo. Tal como os amantes que mesmo discordando e brigando não abrem mão de ficarem juntos, acreditando que um dia, um mudará o outro e, aí sim, serão felizes para sempre. Essa  é nossa postura frente à vida .

Há  dias em que a roda-vida mostra-se uma bela dama, dá-nos  liberdade de escolha, deixa-se conduzir por nossas mãos e nos seduz com seu encanto. É a mais pura paixão!

Um enorme arco-íris de emoções nasce em nossos corações, e nós bailamos com leveza e graça.
Há dias em que ela parece mais preguiçosa, menos voraz em relação às  horas, permitindo que respiremos devagar.
Proporciona-nos poucas novidades e, quando amantes das pequenas coisas, absorvemos  tudo com mais sabor .
É pura magia e diversão!

Há dias em  que se mostra generosa, a cada volta que ela dá, uma surpresa boa nos espera, um presente que chega de repente, uma dádiva que nos escolhe para dar a mão.
Mas há dias em que a roda parece enlouquecida, é um verdadeiro ciclone, vira tudo de cabeça para baixo, arranca aquilo que está em desenvolvimento. Sentimos medo e atordoamento e não sabemos para onde correr. Nem sequer somos ouvidos, pouco importa nosso querer. A gente reage, “vai contra a corrente” , tranca as mãos, emperra, estanca, mas ela é soberana.
É só desolação!

Nesses momentos, a roda é uma roca ceifando desejos e ilusões. O cotidiano, com seus sonhos e projetos acalentados, é mexido e remexido, não deixando pedra sobre pedra. É  a roda girando e levando para longe nosso sossego e segurança.

“Na volta do barco é que sente,
O quanto deixou de cumprir...”

Dias passam, outros vêm, e nós não cansamos de nos perguntar: onde erramos, o que deveríamos ter feito e  que não fizemos, o que poderíamos ter evitado e que não evitamos?

“Roda mundo...”

Seu giro é impessoal e indiferente ao nosso querer.
Seus propósitos nem sempre conseguimos entender, e ela vai desenhando figuras fantásticas sempre diferentes no ar. Será moinho, será pião, roda gigante?
Capturados pela grande aventura, fascinados por sua força de atração e pelas lembranças dos momentos vividos, respiramos fundo e mergulhamos como crianças, seduzidos novamente pela velha cantiga de roda tão bela e tão louca chamada Vida.

Há um dia em que uma força mansa e tenaz nos tira da roda.
A volta foi completada e é o momento de voltar para casa.
Esse passo não é ensinado a ninguém. Quem dançou com altivez e coragem todos os movimentos da roda, com certeza, saberá soltar as mãos e  se deixar levar para o definitivo encontro amoroso com o seu Criador e se  tornar, assim, encantado .

Texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro

Imagem: Internet






sexta-feira, 26 de junho de 2015




Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) –
são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é
preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos
flores diminutas se abrem ao amanhecer. (...) E também não basta ter recordações. É preciso
saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si.
Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e
gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa
hora muito rara brote do meio delas a primeira palavra de um poema.
Rainer Maria Rilke
Os cadernos de Malte Laurids Brigge

sábado, 13 de junho de 2015


imagem da internet: goth 07.jpg

Temporal em minha alma

Quando a alma fala, já não fala a alma.
Friedrich Schiller

Estou sombria; acho que vou chover e parece que é chuva pesada.
Sinto medo, não gosto de sentir o tempo carregado; não sei se terei capacidade para dar vazão a todo fluxo que cairá. Descuidei-me dos bueiros, devem estar abarrotados de lixo que, com o tempo, fui depositando,
Sempre, com a desculpa de que “depois eu vejo isto”.
Agora, anuncia-se a chuva e sei que não será uma chuva leve, gostosa e calma. Os ventos estão cada vez mais fortes e carregam todas as certezas que pareciam tão firmes no meu solo. Tudo parece ir pelos ares e a visão é turva devido à poeira levantada daqueles lugares tão esquecidos e  tão pouco cuidados . As nuvens das palavras não ditas, dos sentimentos estancados querem desabar e arrasar tudo. A fúria é grande.
Será que os telhados suportarão; restarão fantasias e sonhos? Ou todos serão engolidos pelas águas salgadas do meu mar?
Para quem eu dei o melhor de mim?
O que será o melhor de mim? Como será o meu verão, onde estará  o meu sol,  em que estrela guardei o meu tesouro?
Quem sabe de mim? Meus pais, irmãos, amigos?
Como refazer-me após a tempestade, como reconstruir o que for desabado?
Valerá à pena restaurar, tal como sou agora? Eu sou o quê?
Eu quero o quê? Eu amo o quê?
Acho que não consegui decifrar-me  e a tempestade me devorará .
Nem ao espelho poderei recorrer, dizem que não é bom ficar perto dele em noites de tempestades.
Quem me dirá quem sou , quem me salvará? Onde estará o pedaço de mim que é bom, que é belo e que é meu?
E, quando encontrá-lo, para quem ofertar?

texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro




terça-feira, 26 de maio de 2015



Moderno peregrino


Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa.
Guimarães Rosa


Se compreendêssemos profundamente nossa condição de peregrinos neste mundo, saberíamos vivenciar intensamente cada minuto desta estrada, cada direção escolhida, cada inclinação assumida, cada oferta recebida.

Se compreendêssemos profundamente nossa condição de peregrinos neste mundo, estenderíamos nossas mãos, esgarçaríamos nossas dúvidas, saberíamos dimensionar nosso tamanho, e aproximar-nos-íamos  de todos os  que também peregrinam .

Se compreendêssemos profundamente nossa condição de peregrinos neste mundo, exploraríamos melhor os imensos tesouros de nossas almas, debruçar-nos-íamos atentamente nos ditames do coração e não temeríamos nossas sombras.

Se compreendêssemos profundamente que o importante não é a distância percorrida nem a bagagem  adquirida , acumularíamos a sabedoria do caminho, desataríamos os nós do egoísmo, respiraríamos profundamente os momentos de repouso, abrigar-nos-íamos no silêncio de nosso interior ...

Se compreendêssemos profundamente que a vida é, em essência, movimento e transformação, despojar-nos-íamos das cargas do medo, dos mecanismos de proteção e ficaríamos de mãos estendidas  para as alquimias necessárias.

Se compreendêssemos que o dínamo  que nos dá vitalidade é o amor, espalharíamos e multiplicaríamos suas sementes, e deixaríamos nossas  marcas pelo caminho.
Se compreendêssemos que a esperança é a força que nos faz erguer os olhos para o alto e que fortalece novos passos, faríamos desta travessia uma epifânia .
Viver mais profundamente  é uma questão de decisão que só vem com a compreensão profunda do verdadeiro sentido da vida .  A vida é muito mais do que se vê , é muito mais do que se suspeita, é uma bênção que dorme esperando a salvação .

texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: internet:pecksing_popud





terça-feira, 19 de maio de 2015


Primeiro levaram os negros,
mas não me importei com isso.
Eu não sou negro.
Em seguida, levaram alguns operários,
mas não me importei com isso.
Eu também não sou operário.
Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
também não me importei.
Agora estão me levando,
mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo
Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956)
Imagem: Ellen Kooi (internet)

sábado, 16 de maio de 2015






RITA LISAUSKAS
15 Maio 2015 | 09:00

Malala, a menina que queria ir para a escola. Ilustração: Bruna Assis Brasil
Malala, a menina que queria ir para a escola.
Ilustração: Bruna Assis Brasil
Ela não perdeu muito tempo se lamentando pelos cantos quando se sentiu injustiçada. Nem esperou que um príncipe a resgatasse. Malala até chorou um pouco, é verdade, mas quem não choraria ao ver seu país invadido pelos talibãs que, de quebra, ainda decretaram que as meninas não podiam mais estudar? Quem não choraria ao ver mais de 400 escolas destruídas? Malala logo botou a boca no mundo. “Como o Talibã se atreve a tirar meu direito à educação?”, discursou publicamente em 2008, quando tinha apenas 11 anos. Depois, usando um pseudônimo, escreveu um blog contando ao mundo como era sua vida durante a ocupação. Chamou a atenção por defender o acesso das mulheres à educação formal e, por isso, foi ameaçada e baleada pelos barbudos extremistas em outubro de 2012, quando voltava da escola.
A repórter especial do Estadão, Adriana Carranca, embarcou para o Paquistão logo depois que o Talibã tentou matar Malala, com uma missão: descobrir mais sobre a menina e contar essa história em um livro para o público adulto. Mas voltou de lá com um livro para as crianças. “Ficou claro para mim que esta era uma história incrível para os pequenos, por Malala ser também apenas uma menina, uma jovem de uma zona tribal que acreditou nos seus sonhos. Por ser uma história de amor à escola, aos professores, aos livros”, conta. Adriana se hospedou com moradores da cidade para entender o lugar onde Malala nasceu e cresceu. Conheceu a escola onde a menina estudou, conversou com amigas e colegas de classe. Falou com os médicos que a atenderam depois do atentado, parentes, vizinhos, e conheceu o quarto de Malala que, na época da visita de Adriana, lutava pela sobrevivência em um hospital da Inglaterra.
Ilustração: Bruna Assis Brasil
Ilustração: Bruna Assis Brasil
“Malala, a menina que queria ir para a escola”, da Companhia das Letrinhas, é um livro-reportagem que apresenta essa personagem tão contemporânea. “Todas as crianças provavelmente já ouviram falar de Malala, mas ninguém ainda tinha contado essa história para elas”, afirma Adriana. Chega a ser um bálsamo que uma menina tão forte e real seja apresentada aos nossos filhos que, muitas vezes, são levados a acreditar cegamente em princesas frágeis e em príncipes machões. “Ela não sonhava em encontrar um príncipe encantado, mas em ir para a escola; não queria se realizar por meio do casamento, mas por si própria com o mundo de possibilidades que a educação oferece. É uma anti-Cinderela”, completa.
Meu filho ainda não sabe ler, mas ao me ver uma tarde inteira debruçada sobre a história de Malala, quis saber do que se tratava o livro. “É sobre uma menina que foi proibida de ir para a escola, Samuca”. E ele, intrigado, arriscou uma teoria para a tal proibição. “Por que ela era muito bagunceira, mamãe?”. Eu expliquei que não, que existiam lugares onde as meninas eram impedidas de ir à escola por alguns homens maus. Ele, que já começa a achar as meninas legais, reclamou. “Nossa! Que lugar injusto esse!”
No livro, que será lançado neste sábado, 16/05 ,as crianças aprendem também que na cidade de Malala não é apenas na escola que as mulheres não eram bem-vindas. “No mercado de rua de Mingora, cidade da Malala, há uma faixa: Proibida a circulação de mulheres”, conta Adriana. Mostrar questões áridas para quem ainda está em processo de formação de caráter, pode ser uma boa forma de promover a tolerância religiosa, racial e cultural, segundo a autora. “Nós explicamos o que é uma igreja, uma sinagoga, uma mesquita, um templo; o hijab, o quipá, a cruz”, afirma. “É uma forma de ajudá-los a compreender o tempo em que vivemos”, completa. E no tempo em que vivemos, ainda bem, é possível também que um Prêmio Nobel da Paz seja dado a uma adolescente paquistanesa, como Malala. No discurso de recebimento do prêmio, Malala justificou sua luta. “Eu tinha duas opções, a primeira era permanecer calada e esperar para ser assassinada. A segunda era erguer a voz e, em seguida, ser assassinada. Eu escolhi a segunda. Eu decidi erguer a voz.”
Malala
“Malala, a menina que queria ir para a escola”
Autora: Adriana Carranca
Ilustradora: Bruna Assis Brasil
Idade: 6 a 11 anos
Lançamento: 16/05, 16hs
Local: Livraria da Vila. Alameda Lorena, 1.731
fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/

quinta-feira, 14 de maio de 2015




OUVIR ESTRELAS

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
Cecília Meireles

Ouvir o outro está muito difícil em nosso dia a dia. É motivo de riso o comentário: ”Que pessoa chata, eu só perguntei como ela estava e ela se pôs a explicar”.
Não há mais tempo para o outro, não há mais por que ficar perdendo tempo com “conversa fiada”, afinal tempo é dinheiro.
É interessante observarmos nossa irritação com adolescentes , quando ficam horas ao telefone ou ao computador, conversando com seus amigos; vamos logo chamando-os , para “irem tratar da vida”.
Há vários motivos que explicam esta dificuldade em ouvir as pessoas. Frequentemente, ouvimos de uma forma muito seletiva ou distorcida. Escolhemos alguns pontos que nos são convenientes e ignoramos todo o resto. Isso quando não caímos no velho hábito de julgar, ou tentar convencer que  nosso ponto de vista é o correto. Geralmente, carregamos preconceitos, entendendo-os como sendo verdades.
Ouvir de uma forma sensível, empática, concentrada e imparcial é cada vez mais raro, mesmo porque isto requer um tempo maior, e este tem sido objeto raro!
Está distante o tempo em que as pessoas se sentavam na varanda para conversar, ou paravam no vizinho para um cafezinho e um bocadinho de conversa.
Às vezes, sentimos até o desejo de ir à casa do amigo, mas logo hesitamos, pois poderemos atrapalhá-los, ou tirá-los do descanso, ou,  então, nós é que ficaremos atrasados,  e no outro dia é preciso acordar cedo.
É triste constatar que estamos, cada vez mais, sem disponibilidade interna para cultivar amizades, parcerias, e  os encontros vão sendo frequentemente adiados.
Talvez, precisássemos  criar escolas com janelas bem amplas, para que aprendêssemos novamente contemplar o céu, ouvir estrelas e ver a banda passar .
Será que é uma utopia, será que não mais teremos a paz que tínhamos?
 Será que mudamos tanto assim?
Será....
Escrito por Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: Internet


domingo, 10 de maio de 2015



SAIBA

Saiba! todo mundo tem mãe: ausente ou presente, conhecida ou desconhecida, carinhosa ou agressiva.
Trazemos parte dela em nós... querendo ou não, desejando ou não, gostando ou não.
Saiba! todos nós procuramos por ela: achando-a ou não, encontrando-a ou não, subindo em seu colo ou não.

Saiba, toda infância é melhor se há casa, família e um lar onde brincar.
Se os pais têm trabalho e valentia e, com a família, vivem em harmonia.
Saiba, toda infância é favorecida quando o amor se manifesta com alegria.
Saiba, todo mundo tem medo, tristeza e pavor de pensar que a família pode morrer.
Todo mundo tem vergonha, desalento e aflição de ver a infância nas esquinas, em total solidão.
Saiba, todo mundo tem a ver com tudo isso, SIM!
E a solução não pode esperar mais, NÃO!

Saiba! Todo mundo vai morrer, nossos pais também.
Mas se a família não se distrair, não se dividir, não se extinguir...
a vida continuará e o mundo sempre terá
PAIS para semear um futuro com muita PAZ.


Inspiração: “Saiba” - música de Arnaldo Antunes
escrito por: Eliete T. Cascaldi Sobreiro






quinta-feira, 30 de abril de 2015




Ser elegante

Quando falamos em “elegância”, primeiramente, recordamo-nos
de um jeito especial de vestir-se. Refere-se à pessoa que tem bom gosto ao escolher suas roupas e um porte físico privilegiado.
Assim falando, essa referencia é destinada à elegância da “segunda pele”.
Mas a verdadeira elegância é muito mais do que isso. Não se compra, não sofre influência de época ou da moda, pois seus quesitos são alinhavados com atitudes pautadas em princípios éticos .
Aurélio Buarque de Holanda define elegância como:”Distinção de porte, de maneira, garbo, graça,encanto. Bom gosto, gentileza. Cortesia”.
Na elegância do Ser, direito e avesso são uma coisa só, isto é,a conduta não depende de com que está ou onde está. Elegantes são pessoas que vivem com paixão o que fazem, realizando seus dons com excelência e responsabilidade. Não são arrogantes perante o Outro, agem com naturalidade e estão sempre abertas a olharem as novas tendências de época com entusiasmo e abertura.
Ser elegante não é possuir bens materiais, sobrenomes famosos ou  viver recluso em grupos de iguais. Sua marca é a afetividade, e a consciência  de que faz parte de um todo maior.
È aquela pessoa que porta-se com interesse e respeito perante o Outro e com veracidade diante de si mesmo.
Concluindo, pode-se dizer que uma pessoa elegante, é alguém que tece, através do seu comportamento, um mundo mais bonito, e que mesmo espelhando-se em modelos que considera dignos, o faz com a sua marca singular.

Eliete T.Cascaldi Sobreiro

foto: minha avó, Alice, exemplo de uma pessoa elegante



domingo, 19 de abril de 2015




Estou com saudades de Deus,

uma saudade tão funda que me seca.

Estou como palha e nada me conforta.

O amor hoje está tão pobre, tem gripe

meu hálito não está para salões.

Fico em casa esperando Deus,

cavacando a unha, fungando meu nariz choroso,

querendo um pôster dele, no meu quarto,

gostando igual antigamente

da palavra crepúsculo.

Que o mundo é desterro eu toda vida soube.

Quando o sol vai-se embora é pra casa de Deus que vai

pra casa onde está meu pai.

Adélia Prado em O coração disparado, ed. Record.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Alguma coisa acontece...



Uma alma mais cansada do que os olhos.
Fernando Pessoa

Alguma coisa acontece em nossos corações, eles parecem pouco ensolarados, apertados e solitários.

Alguma coisa acontece com nossos olhares, pois espreitam perigos em tudo que lhes é estranho, diferente.

Alguma coisa acontece com nossos braços, que não mais suportam amparar o Outro.

Alguma coisa acontece com nossas relações, pois estão cada vez mais frias,  desconfiadas e violentas.

Há um mal-estar geral em viver num mundo tão desencantado, tão carente de gentileza, de amor, de olho no olho. Onde todos os pés estão atolados pelo medo, todas as mãos trancadas pelo narcisismo. Onde o movimento é sempre afastar-se, duvidar, fechar-se, recusar o que não conhece ou o que lhe é estranho.

A dura realidade nas filas, nas vilas, favelas, nas casas belas é viver subtraindo, deixando de partilhar, de trocar, de tocar, de contar, de falar com o Outro.

Nas duras poesias concretas de nossas esquinas é que vamos somando defesas,  preconceitos, crenças que reduzem os encontros.
As deselegâncias discretas dos nossos gestos vão dividindo o mundo de tal forma que todos acabam sentindo-se forasteiros, estranhos em sua própria terra.

Multiplicamos medos, angústias, solidão.

Há de chegar o dia em que nossos corações abrirão avenidas amplas de mão dupla para as relações, nas quais a verdade irá muito além do que se vê.

Há de chegar o dia em que não abriremos fendas naquilo que é diferente, em que ouviremos o som de nossas almas e não nos nortearemos por sinais superficiais. Seremos, enfim, éticos, seres que respeitam a alteridade, que são compromissados com a vida e regidos por uma razão pautada pelo respeito. A ética da alegria, da partilha, da liberdade criativa, da fraternidade.

Uma estrela surgirá no céu. Seremos, então, capazes de  nos guiar por ela  e descobriremos o verdadeiro caminho:  o nascedouro do amor.

Escrito por Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Foto: Photography Annual 1961
Selection of the word's finest photographs compiled by the Editors of Popular Photography



terça-feira, 14 de abril de 2015


O livro do desassossego


"Nunca deixo saber aos meus sentimentos o que lhes vou
fazer sentir...
Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com os seus grandes gatos prontos e cruéis...
Fecho subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam passar para se realizarem. Retiro bruscamente do seu caminho os objectos espirituais que lhes vão vincar certos gestos.

Fernando Pessoa


sexta-feira, 10 de abril de 2015


A experiência de pertencimento


Se você não consegue se aproximar , como vai fazer parte? Se você não consegue chegar perto, como vai ter intimidade?

 ...uma base emocional frágil, instável,insegura, imatura, carente, volátil ou rígida, receosa, deprimida, cheia de dúvidas, pode pôr a ruir toda a constituição da personalidade. 


Devemos encontrar algo que funcione como uma viga sobre a qual a personalidade inteira vai se acomodar, se apoiar, se fundamentar e finalmente relaxar.

fonte: O Livro das Atitudes Astrologicamente Corretas
Márcia Mattos

terça-feira, 7 de abril de 2015

PAREDES DE GELO



O humano é só.
Clarice Lispector

Tudo era branco, de um branco que cegava , caso fixasse o olhar naquela direção.
O lugar era imenso, muito além do que os olhos humanos poderiam vislumbrar. Silêncio e Frio eram as marcas daquele lugar.
Altas paredes de gelo compunham a paisagem, e estavam naqueles mesmos lugares, há milhares de anos.
De repente, um minúsculo ponto surge neste mar branco. Parece um borrão de tinta em uma folha branca, mas o frio intenso traz novamente o Mar, do qual não há como fugir. Percebe-se agora, claramente, um homem tentando guiar seu barco por entre paredes de gelo.
A expressão era de dor, seus gestos de terror, pois sentia a inutilidade de suas ações. Sabia o quanto ele era pequeno, e  vãs suas tentativas em estabelecer qualquer sinal de ajuda.
Quanto mais lutava, mais paredes imensas de gelo colocavam-se em seu caminho. Impassíveis, elas ignoravam as necessidades daquele pobre homem que,  apavorado,  rogava por ajuda.
Nada! Nenhum movimento, nenhum sinal indicando Vida. Era pura desolação branca!
Em seu desespero, o homem busca por forças; sabe que sua salvação está em enfrentar,  a qualquer custo, aquelas paredes de gelo  que impediam a passagem.
Teria de olhar as geleiras, correr o risco de cegar-se, mas era preciso...
Ao fixar os olhos nos picos daquelas paredes, um fenômeno inesperado acontece.
Contrário ao que temia e esperava, sua visão tornou-se nítida e, assustado,  reconhece os rostos de amigos e familiares em cada cume daqueles paredões de gelo. Não é mais o branco que turva  seu olhar e,  sim, suas lágrimas que correm abundantes, ao entender, perfeitamente, o que estava acontecendo –lhe.
Aquela imensidão branca, gélida, vazia, era a sua vida. Uma vida de indiferença à dor e  às necessidades do “Outro”.
Insensíveis, incapazes de sensibilizarem-se uns com os outros, os homens constroem, com seus remos-atitudes, paredes de gelo que acabam por obstruir seus caminhos e fazendo o mundo um lugar cada vez mais difícil à sobrevivência da espécie.
Aquele homem só consegue chorar! Suas lágrimas abrem fendas nas paredes de gelo, permitindo –lhe a passagem.
Suas forças crescem cada vez mais, porque agora quer chegar depressa ao seu destino e contar a todos a grande revelação.
Mas, eis que, neste misto de alegria e tristeza, surge à sua frente, imponente e assustador, um paredão imenso.  Por alguma razão misteriosa, o homem luta internamente, pois entende que é preciso conhecer seu maior inimigo. Tem medo, muito medo, como se pressentisse  que a grande revelação ainda estava por acontecer.
Uma sensação de peso vai tomando todo seu ser e, de repente é ele, o imenso paredão de gelo.
A vertigem é enorme, suas forças  cedem; sente-se oco, vazio e começa a cair rapidamente naquele abismo.
Sobressaltado , acorda assustado e suando daquele horrível pesadelo!

texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Imagem: internet




Apontadora de Idéias

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São Paulo, Brazil
"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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