sexta-feira, 26 de junho de 2015
Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) –
são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é
preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos
flores diminutas se abrem ao amanhecer. (...) E também não basta ter recordações. É preciso
saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si.
Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e
gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa
hora muito rara brote do meio delas a primeira palavra de um poema.
Rainer Maria Rilke
Os cadernos de Malte Laurids Brigge
sábado, 13 de junho de 2015
imagem da internet: goth 07.jpg
Temporal em
minha alma
Quando a alma fala, já não fala a
alma.
Friedrich Schiller
Estou sombria; acho que vou chover e
parece que é chuva pesada.
Sinto medo, não gosto de sentir o
tempo carregado; não sei se terei capacidade para dar vazão a todo fluxo que
cairá. Descuidei-me dos bueiros, devem estar abarrotados de lixo que, com o
tempo, fui depositando,
Sempre, com a desculpa de que
“depois eu vejo isto”.
Agora, anuncia-se a chuva e sei que
não será uma chuva leve, gostosa e calma. Os ventos estão cada vez mais fortes
e carregam todas as certezas que pareciam tão firmes no meu solo. Tudo parece
ir pelos ares e a visão é turva devido à poeira levantada daqueles lugares tão
esquecidos e tão pouco cuidados . As
nuvens das palavras não ditas, dos sentimentos estancados querem desabar e
arrasar tudo. A fúria é grande.
Será que os telhados suportarão;
restarão fantasias e sonhos? Ou todos serão engolidos pelas águas salgadas do
meu mar?
Para quem eu dei o melhor de mim?
O que será o melhor de mim? Como
será o meu verão, onde estará o meu sol, em que estrela guardei o meu tesouro?
Quem sabe de mim? Meus pais, irmãos,
amigos?
Como refazer-me após a tempestade,
como reconstruir o que for desabado?
Valerá à pena restaurar, tal como
sou agora? Eu sou o quê?
Eu quero o quê? Eu amo o quê?
Acho que não consegui decifrar-me e a tempestade me devorará .
Nem ao espelho poderei recorrer, dizem
que não é bom ficar perto dele em noites de tempestades.
Quem me dirá quem sou , quem me
salvará? Onde estará o pedaço de mim que é bom, que é belo e que é meu?
E, quando encontrá-lo, para quem
ofertar?
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
terça-feira, 26 de maio de 2015
Moderno peregrino
Eu quase nada sei. Mas desconfio de
muita coisa.
Guimarães Rosa
Se compreendêssemos profundamente nossa condição de
peregrinos neste mundo, saberíamos vivenciar intensamente cada minuto desta
estrada, cada direção escolhida, cada inclinação assumida, cada oferta recebida.
Se compreendêssemos
profundamente nossa condição de peregrinos neste mundo, estenderíamos nossas
mãos, esgarçaríamos nossas dúvidas, saberíamos dimensionar nosso tamanho, e aproximar-nos-íamos
de todos os que também peregrinam .
Se compreendêssemos profundamente nossa condição de
peregrinos neste mundo, exploraríamos melhor os imensos tesouros de nossas
almas, debruçar-nos-íamos atentamente
nos ditames do coração e não temeríamos nossas sombras.
Se compreendêssemos profundamente que o importante não é a
distância percorrida nem a bagagem adquirida
, acumularíamos a sabedoria do caminho, desataríamos os nós do egoísmo,
respiraríamos profundamente os momentos de repouso, abrigar-nos-íamos no
silêncio de nosso interior ...
Se compreendêssemos profundamente que a vida é, em essência,
movimento e transformação, despojar-nos-íamos das cargas do medo, dos mecanismos
de proteção e ficaríamos de mãos estendidas
para as alquimias necessárias.
Se compreendêssemos que
o dínamo que nos dá vitalidade é o amor,
espalharíamos e multiplicaríamos suas sementes, e deixaríamos nossas marcas pelo caminho.
Se compreendêssemos que
a esperança é a força que nos faz erguer os olhos para o alto e que fortalece novos
passos, faríamos desta travessia uma epifânia .
Viver mais
profundamente é uma questão de decisão
que só vem com a compreensão profunda do verdadeiro sentido da vida . A vida é muito mais do que se vê , é muito
mais do que se suspeita, é uma bênção que dorme esperando a salvação .
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: internet:pecksing_popud
terça-feira, 19 de maio de 2015
Primeiro
levaram os negros,
mas não me importei com isso.
Eu não sou negro.
Em seguida, levaram alguns operários,
mas não me importei com isso.
Eu também não sou operário.
Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
também não me importei.
Agora estão me levando,
mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo
Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956)
mas não me importei com isso.
Eu não sou negro.
Em seguida, levaram alguns operários,
mas não me importei com isso.
Eu também não sou operário.
Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
também não me importei.
Agora estão me levando,
mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo
Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956)
Imagem: Ellen Kooi (internet)
sábado, 16 de maio de 2015
RITA LISAUSKAS
15 Maio 2015 | 09:00
Ela não perdeu muito tempo se lamentando pelos cantos quando se sentiu injustiçada. Nem esperou que um príncipe a resgatasse. Malala até chorou um pouco, é verdade, mas quem não choraria ao ver seu país invadido pelos talibãs que, de quebra, ainda decretaram que as meninas não podiam mais estudar? Quem não choraria ao ver mais de 400 escolas destruídas? Malala logo botou a boca no mundo. “Como o Talibã se atreve a tirar meu direito à educação?”, discursou publicamente em 2008, quando tinha apenas 11 anos. Depois, usando um pseudônimo, escreveu um blog contando ao mundo como era sua vida durante a ocupação. Chamou a atenção por defender o acesso das mulheres à educação formal e, por isso, foi ameaçada e baleada pelos barbudos extremistas em outubro de 2012, quando voltava da escola.
A repórter especial do Estadão, Adriana Carranca, embarcou para o Paquistão logo depois que o Talibã tentou matar Malala, com uma missão: descobrir mais sobre a menina e contar essa história em um livro para o público adulto. Mas voltou de lá com um livro para as crianças. “Ficou claro para mim que esta era uma história incrível para os pequenos, por Malala ser também apenas uma menina, uma jovem de uma zona tribal que acreditou nos seus sonhos. Por ser uma história de amor à escola, aos professores, aos livros”, conta. Adriana se hospedou com moradores da cidade para entender o lugar onde Malala nasceu e cresceu. Conheceu a escola onde a menina estudou, conversou com amigas e colegas de classe. Falou com os médicos que a atenderam depois do atentado, parentes, vizinhos, e conheceu o quarto de Malala que, na época da visita de Adriana, lutava pela sobrevivência em um hospital da Inglaterra.
“Malala, a menina que queria ir para a escola”, da Companhia das Letrinhas, é um livro-reportagem que apresenta essa personagem tão contemporânea. “Todas as crianças provavelmente já ouviram falar de Malala, mas ninguém ainda tinha contado essa história para elas”, afirma Adriana. Chega a ser um bálsamo que uma menina tão forte e real seja apresentada aos nossos filhos que, muitas vezes, são levados a acreditar cegamente em princesas frágeis e em príncipes machões. “Ela não sonhava em encontrar um príncipe encantado, mas em ir para a escola; não queria se realizar por meio do casamento, mas por si própria com o mundo de possibilidades que a educação oferece. É uma anti-Cinderela”, completa.
Meu filho ainda não sabe ler, mas ao me ver uma tarde inteira debruçada sobre a história de Malala, quis saber do que se tratava o livro. “É sobre uma menina que foi proibida de ir para a escola, Samuca”. E ele, intrigado, arriscou uma teoria para a tal proibição. “Por que ela era muito bagunceira, mamãe?”. Eu expliquei que não, que existiam lugares onde as meninas eram impedidas de ir à escola por alguns homens maus. Ele, que já começa a achar as meninas legais, reclamou. “Nossa! Que lugar injusto esse!”
No livro, que será lançado neste sábado, 16/05 ,as crianças aprendem também que na cidade de Malala não é apenas na escola que as mulheres não eram bem-vindas. “No mercado de rua de Mingora, cidade da Malala, há uma faixa: Proibida a circulação de mulheres”, conta Adriana. Mostrar questões áridas para quem ainda está em processo de formação de caráter, pode ser uma boa forma de promover a tolerância religiosa, racial e cultural, segundo a autora. “Nós explicamos o que é uma igreja, uma sinagoga, uma mesquita, um templo; o hijab, o quipá, a cruz”, afirma. “É uma forma de ajudá-los a compreender o tempo em que vivemos”, completa. E no tempo em que vivemos, ainda bem, é possível também que um Prêmio Nobel da Paz seja dado a uma adolescente paquistanesa, como Malala. No discurso de recebimento do prêmio, Malala justificou sua luta. “Eu tinha duas opções, a primeira era permanecer calada e esperar para ser assassinada. A segunda era erguer a voz e, em seguida, ser assassinada. Eu escolhi a segunda. Eu decidi erguer a voz.”
“Malala, a menina que queria ir para a escola”
Autora: Adriana Carranca
Ilustradora: Bruna Assis Brasil
Idade: 6 a 11 anos
Lançamento: 16/05, 16hs
Local: Livraria da Vila. Alameda Lorena, 1.731
fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/
quinta-feira, 14 de maio de 2015
OUVIR
ESTRELAS
E um
campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
atrás das lembranças ardentes.
Cecília
Meireles
Ouvir
o outro está muito difícil em nosso dia a dia. É motivo de riso o comentário: ”Que
pessoa chata, eu só perguntei como ela estava e ela se pôs a explicar”.
Não
há mais tempo para o outro, não há mais por que ficar perdendo tempo com
“conversa fiada”, afinal tempo é dinheiro.
É
interessante observarmos nossa irritação com adolescentes , quando ficam horas
ao telefone ou ao computador, conversando com seus amigos; vamos logo
chamando-os , para “irem tratar da vida”.
Há
vários motivos que explicam esta dificuldade em ouvir as pessoas. Frequentemente,
ouvimos de uma forma muito seletiva ou distorcida. Escolhemos alguns pontos que
nos são convenientes e ignoramos todo o resto. Isso quando não caímos no velho
hábito de julgar, ou tentar convencer que
nosso ponto de vista é o correto. Geralmente, carregamos preconceitos,
entendendo-os como sendo verdades.
Ouvir
de uma forma sensível, empática, concentrada e imparcial é cada vez mais raro,
mesmo porque isto requer um tempo maior, e este tem sido objeto raro!
Está
distante o tempo em que as pessoas se sentavam na varanda para conversar, ou
paravam no vizinho para um cafezinho e um bocadinho de conversa.
Às
vezes, sentimos até o desejo de ir à casa do amigo, mas logo hesitamos, pois
poderemos atrapalhá-los, ou tirá-los do descanso, ou, então, nós é que ficaremos atrasados, e no outro dia é preciso acordar cedo.
É
triste constatar que estamos, cada vez mais, sem disponibilidade interna para
cultivar amizades, parcerias, e os
encontros vão sendo frequentemente adiados.
Talvez,
precisássemos criar escolas com janelas
bem amplas, para que aprendêssemos novamente contemplar o céu, ouvir estrelas e
ver a banda passar .
Será
que é uma utopia, será que não mais teremos a paz que tínhamos?
Será que mudamos tanto assim?
Será....
Escrito por Eliete T. Cascaldi Sobreiro
imagem: Internet
domingo, 10 de maio de 2015
SAIBA
Saiba!
todo mundo tem mãe: ausente ou presente, conhecida ou desconhecida, carinhosa
ou agressiva.
Trazemos
parte dela em nós... querendo ou não, desejando ou não, gostando ou não.
Saiba!
todos nós procuramos por ela: achando-a ou não, encontrando-a ou não, subindo
em seu colo ou não.
Saiba,
toda infância é melhor se há casa, família e um lar onde brincar.
Se
os pais têm trabalho e valentia e, com a família, vivem em harmonia.
Saiba,
toda infância é favorecida quando o amor se manifesta com alegria.
Saiba, todo mundo tem medo, tristeza
e pavor de pensar que a família pode morrer.
Todo mundo tem vergonha, desalento e
aflição de ver a infância nas esquinas, em total solidão.
Saiba, todo mundo tem a ver com tudo
isso, SIM!
E a solução não pode esperar mais,
NÃO!
Saiba!
Todo mundo vai morrer, nossos pais também.
Mas
se a família não se distrair, não se dividir, não se extinguir...
a
vida continuará e o mundo sempre terá
PAIS
para semear um futuro com muita PAZ.
Inspiração: “Saiba” - música de
Arnaldo Antunes
escrito por: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Quando
falamos em “elegância”, primeiramente, recordamo-nos
de
um jeito especial de vestir-se. Refere-se à pessoa que tem bom gosto ao
escolher suas roupas e um porte físico privilegiado.
Assim
falando, essa referencia é destinada à elegância da “segunda pele”.
Mas
a verdadeira elegância é muito mais do que isso. Não se compra, não sofre
influência de época ou da moda, pois seus quesitos são alinhavados com atitudes
pautadas em princípios éticos .
Aurélio
Buarque de Holanda define elegância como:”Distinção de porte, de maneira,
garbo, graça,encanto. Bom gosto, gentileza. Cortesia”.
Na
elegância do Ser, direito e avesso são uma coisa só, isto é,a conduta não
depende de com que está ou onde está. Elegantes são pessoas que vivem com
paixão o que fazem, realizando seus dons com excelência e responsabilidade. Não
são arrogantes perante o Outro, agem com naturalidade e estão sempre abertas a
olharem as novas tendências de época com entusiasmo e abertura.
Ser
elegante não é possuir bens materiais, sobrenomes famosos ou viver recluso em grupos de iguais. Sua marca é
a afetividade, e a consciência de que
faz parte de um todo maior.
È
aquela pessoa que porta-se com interesse e respeito perante o Outro e com
veracidade diante de si mesmo.
Concluindo,
pode-se dizer que uma pessoa elegante, é alguém que tece, através do seu
comportamento, um mundo mais bonito, e que mesmo espelhando-se em modelos que
considera dignos, o faz com a sua marca singular.
Eliete
T.Cascaldi Sobreiro
foto: minha avó, Alice, exemplo de uma pessoa elegante
foto: minha avó, Alice, exemplo de uma pessoa elegante
domingo, 19 de abril de 2015
Estou
com saudades de Deus,
uma saudade tão funda que me seca.
Estou como palha e nada me conforta.
O amor hoje está tão pobre, tem gripe
meu hálito não está para salões.
Fico em casa esperando Deus,
cavacando a unha, fungando meu nariz choroso,
querendo um pôster dele, no meu quarto,
gostando igual antigamente
da palavra crepúsculo.
Que o mundo é desterro eu toda vida soube.
Quando o sol vai-se embora é pra casa de Deus que vai
pra casa onde está meu pai.
Adélia Prado em O coração disparado, ed. Record.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Alguma coisa acontece...
Uma alma mais cansada do que os olhos.
Fernando Pessoa
Alguma coisa acontece em nossos corações, eles parecem pouco
ensolarados, apertados e solitários.
Alguma coisa acontece com nossos olhares, pois espreitam perigos em tudo
que lhes é estranho,
diferente.
Alguma coisa acontece com nossos braços, que não mais suportam amparar o
Outro.
Alguma coisa acontece com nossas relações, pois estão cada vez mais
frias, desconfiadas e violentas.
Há um mal-estar geral em viver num mundo tão desencantado, tão carente
de gentileza, de amor, de olho no olho. Onde todos os pés estão atolados pelo
medo, todas as mãos trancadas pelo narcisismo. Onde o movimento é sempre
afastar-se, duvidar, fechar-se, recusar o que não conhece ou o que lhe é
estranho.
A dura realidade nas filas, nas vilas, favelas, nas casas belas é viver
subtraindo, deixando de partilhar, de trocar, de tocar, de contar, de falar com
o Outro.
Nas duras poesias concretas de nossas esquinas é que vamos somando
defesas, preconceitos, crenças que
reduzem os encontros.
As deselegâncias discretas dos nossos gestos vão dividindo o mundo de
tal forma que todos acabam sentindo-se forasteiros, estranhos em sua própria
terra.
Multiplicamos medos, angústias, solidão.
Há de chegar o dia em que nossos corações abrirão avenidas amplas de mão
dupla para as relações, nas quais a verdade
irá muito além do que se vê.
Há de chegar o dia em que não abriremos
fendas naquilo que
é diferente, em que ouviremos o som de nossas
almas e não nos nortearemos por sinais superficiais. Seremos, enfim, éticos, seres que respeitam a alteridade, que são
compromissados com a vida e regidos por uma razão pautada pelo respeito. A
ética da alegria, da partilha, da liberdade criativa, da fraternidade.
Uma estrela surgirá no céu. Seremos,
então, capazes de nos guiar por ela e descobriremos o verdadeiro caminho: o
nascedouro do amor.
Escrito por Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Foto: Photography Annual 1961
Selection of the word's finest photographs compiled by the Editors of Popular Photography
terça-feira, 14 de abril de 2015
O livro do desassossego
"Nunca deixo saber aos meus sentimentos o que lhes vou
fazer sentir...
Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com os seus grandes gatos prontos e cruéis...
Fecho subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam passar para se realizarem. Retiro bruscamente do seu caminho os objectos espirituais que lhes vão vincar certos gestos.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 10 de abril de 2015
A experiência de pertencimento
Se você não consegue se aproximar , como vai fazer parte? Se você não consegue chegar perto, como vai ter intimidade?
...uma base emocional frágil, instável,insegura, imatura, carente, volátil ou rígida, receosa, deprimida, cheia de dúvidas, pode pôr a ruir toda a constituição da personalidade.
Devemos encontrar algo que funcione como uma viga sobre a qual a personalidade inteira vai se acomodar, se apoiar, se fundamentar e finalmente relaxar.
fonte: O Livro das Atitudes Astrologicamente Corretas
Márcia Mattos
terça-feira, 7 de abril de 2015
PAREDES
DE GELO
O
humano é só.
Clarice
Lispector
Tudo
era branco, de um branco que cegava , caso fixasse o olhar naquela direção.
O
lugar era imenso, muito além do que os olhos humanos poderiam vislumbrar.
Silêncio e Frio eram as marcas daquele lugar.
Altas
paredes de gelo compunham a paisagem, e estavam naqueles mesmos lugares, há milhares
de anos.
De
repente, um minúsculo ponto surge neste mar branco. Parece um borrão de tinta
em uma folha branca, mas o frio intenso traz novamente o Mar, do qual não há
como fugir. Percebe-se agora, claramente, um homem tentando guiar seu barco por
entre paredes de gelo.
A
expressão era de dor, seus gestos de terror, pois sentia a inutilidade de suas
ações. Sabia o quanto ele era pequeno, e vãs suas tentativas em estabelecer qualquer
sinal de ajuda.
Quanto
mais lutava, mais paredes imensas de gelo colocavam-se em seu caminho.
Impassíveis, elas ignoravam as necessidades daquele pobre homem que, apavorado, rogava por ajuda.
Nada!
Nenhum movimento, nenhum sinal indicando Vida. Era pura desolação branca!
Em
seu desespero, o homem busca por forças; sabe que sua salvação está em
enfrentar, a qualquer custo, aquelas
paredes de gelo que impediam a passagem.
Teria
de olhar as geleiras, correr o risco de cegar-se, mas era preciso...
Ao
fixar os olhos nos picos daquelas paredes, um fenômeno inesperado acontece.
Contrário
ao que temia e esperava, sua visão tornou-se nítida e, assustado, reconhece os rostos de amigos e familiares em
cada cume daqueles paredões de gelo. Não é mais o branco que turva seu olhar e, sim, suas lágrimas que correm abundantes, ao
entender, perfeitamente, o que estava acontecendo –lhe.
Aquela
imensidão branca, gélida, vazia, era a sua vida. Uma vida de indiferença à dor
e às necessidades do “Outro”.
Insensíveis,
incapazes de sensibilizarem-se uns com os outros, os homens constroem, com seus
remos-atitudes, paredes de gelo que acabam por obstruir seus caminhos e fazendo
o mundo um lugar cada vez mais difícil à sobrevivência da espécie.
Aquele
homem só consegue chorar! Suas lágrimas abrem fendas nas paredes de gelo,
permitindo –lhe a passagem.
Suas
forças crescem cada vez mais, porque agora quer chegar depressa ao seu destino e
contar a todos a grande revelação.
Mas,
eis que, neste misto de alegria e tristeza, surge à sua frente, imponente e
assustador, um paredão imenso. Por
alguma razão misteriosa, o homem luta internamente, pois entende que é preciso
conhecer seu maior inimigo. Tem medo, muito medo, como se pressentisse que a grande revelação ainda estava por
acontecer.
Uma
sensação de peso vai tomando todo seu ser e, de repente é ele, o imenso paredão
de gelo.
A
vertigem é enorme, suas forças cedem;
sente-se oco, vazio e começa a cair rapidamente naquele abismo.
Sobressaltado
, acorda assustado e suando daquele horrível pesadelo!
texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Imagem: internet
domingo, 5 de abril de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Homilia do Frei Raniero Cantalamessa

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco presidiu, nesta Sexta-feira Santa (03/04), na Basílica de São Pedro, a Celebração da Paixão do Senhor. Nesse dia, não se celebra a Santa Missa, mas as funções da Sexta-feira da Paixão com a Liturgia da Palavra, Adoração da Cruz e Comunhão Eucarística.
A homilia da celebração foi feita pelo Pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, que baseou a sua reflexão nas palavas de Pilatos: “Eis o homem”, recordando os muitos “Eis o homem” de nossos dias vítimas da fome, pobreza, injustiça e exploração.
“Desses males já se fala muitas vezes, embora nunca o suficiente, e há o risco de se tornarem abstrações. Categorias, não pessoas.
Pensemos agora no sofrimento dos indivíduos, das pessoas com nome e identidade concreta; nas torturas decididas a sangue frio e infligidas voluntariamente, neste exato momento, por seres humanos contra outros seres humanos, inclusive crianças”, frisou Frei Cantalamessa.
“Quantos "Eis o homem" no mundo! Meu Deus, quantos Eis o homem”! Quantos prisioneiros na mesma condição de Jesus no pretório de Pilatos: sozinhos, algemados, torturados, à mercê de soldados ásperos e cheios de ódio, que se entregam a todo tipo de crueldade física e psicológica, divertindo-se em ver sofrer. "Não podemos dormir, não podemos deixá-los sós!", disse ainda o capuchinho.
“A exclamação "Eis o homem!" não se aplica somente às vítimas, mas também aos carnífices. Ela quer dizer: eis aqui do que o homem é capaz! Com temor e tremor, digamos ainda: eis do que somos capazes nós, homens! Muito distante da marcha inexorável do Homo sapiens sapiens, o homem que, segundo alguns, nasceria da morte de Deus e tomaria o seu lugar”, frisou.
Recordando o sofrimento dos cristãos, Frei Cantalemessa destacou que eles “não são, certamente, as únicas vítimas da violência homicida que há no mundo, mas não se pode ignorar que, em muitos países, eles são as vítimas marcadas e mais frequentes. Jesus disse um dia aos seus discípulos: "Chegará uma hora em que aqueles que vos matarem julgarão estar honrando a Deus". Talvez estas palavras nunca tenham achado na história um cumprimento tão pontual quanto hoje”, disse ele.
“Os mártires perfeitos celebraram a mais esplêndida das festas pascais ao ser admitidos no banquete celeste. Será assim para muitos cristãos também na Páscoa deste ano, 2015 depois de Cristo.”
Disse ainda o capuchinho, "então, indagará alguém, seguir a Cristo é sempre um resignar-se passivamente à derrota e à morte? Pelo contrário! "Tende coragem", disse Ele aos apóstolos antes da Paixão: "Eu venci o mundo". Cristo venceu o mundo vencendo o mal do mundo.
“Os verdadeiros mártires de Cristo não morrem com os punhos cerrados, mas com as mãos juntas. Tivemos tantos exemplos recentes”, disse Frei Cantalamessa, recordando que foi Cristo quem deu aos 21 cristãos coptas mortos pelo Estado Islâmico na Líbia, em 22 de fevereiro passado, a força para morrerem murmurando o seu nome. (MJ)
(from Vatican Radio)
http://www.news.va/pt/news/paixao-do-senhor-quantos-prisioneiros-na-mesma-con
imagem da internet
http://www.news.va/pt/news/paixao-do-senhor-quantos-prisioneiros-na-mesma-con
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quarta-feira, 1 de abril de 2015
imagem da internet
A feminilidade
não é branca
Há tempo (põe tempo nisso) namoro a idéia de parar de
tingir meus cabelos. No fim do ano decidi. Já pensando nisso, há mais de dez
anos, troquei a tinta por colorante, imaginando que, quando o dia chegasse, o
colorido fosse se esvaindo, deixando o branco ou o grisalho emergir
naturalmente.
Pensava eu tratar-se de uma decisão de foro íntimo. Mas que nada! Não ouvi
nenhuma palavra de apoio nem da família, nem de amigos, nem de conhecidos:
"Você não pode!". "Não combina!". "Grisalho não é
jovial!". "Branco põe para baixo!". Na minha santa ingenuidade,
não atinava que estava afrontando um tabu. Entendi que a mulher não pode ser
grisalha, mas no homem isso é charme e distinção. Existem brancos azulados, bem
tratados, que inspiram respeito e até veneração. São os da matriarca, da
veneranda chefe de família que ostenta um poder, mas não os da sexualidade.
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Exibir os cabelos
grisalhos é ostentar a fêmea morta no corpo vivo de uma mulher: é tabu
|
A questão não está apenas em "aparentar idade" -há quem defenda as
rugas. Mas a transformação natural dos cabelos com a idade é uma afronta. Não
chega a ser crime, mas senti que estava perto de cometer uma transgressão. Um
homem -inteligente e humanista- chegou a enunciar, com todas as letras, que
mulher não pode deixar de pintar os cabelos. "Põe uma hena", disse
ele. E eu aqui pergunto a mim e a você: por quê?
Olhando a minha volta, só vejo cabelos tintos. É bem verdade que meu círculo de
amizades inclui poucas figuras estilo "vovozinha". Minhas amigas são
profissionais, além de mães e avós. Conheço algumas exceções, mas elas chamam
mais atenção e atraem mais comentários desairosos do que uma "vamp".
Escrevo esta coluna em 22 de janeiro. Veraneando à beira-mar desde 23 de
dezembro, estou com os cabelos descolorados, de um jeito desgrenhado,
caminhando para o grisalho e, portanto, a caminho de uma auto-exclusão social.
Trata-se de uma condenação cruel. Podemos envelhecer, mas não tentar nem
disfarçar é descaso.
Ostentar a fêmea morta no corpo vivo de uma mulher é tabu. Os homens grisalhos
são charmosos, enquanto as mulheres grisalhas parecem lembrar alguma coisa da
qual todos queremos esquecer. O cabelo grisalho parece remeter a alguma
"cena temida" que conhecemos, mas não queremos rever.
Um colega baiano com o qual eu comentava minha desdita me contou um ditado
local. Segundo ele, pêlos pubianos grisalhos, lá no sertão, eram o primeiro
sinal de impotência senil.
A voz desse povo pode ser aquela que está me forçando a continuar a tingir os
cabelos. Lembrei-me ainda do livro "Amêndoa", da autora muçulmana
Nejdma, no qual a personagem principal relata sua dificuldade ao reencontrar um
antigo amante. Dizia ela que o que mais a amedrontava em voltar para a cama com
ele, 30 anos depois, era sua púbis esbranquiçada e rala. Será que vale para nós
também? O grisalho é, sem dúvida, um movimento entre a cor e o branco. Ostentar
o grisalho seria uma confissão de deserotização? Mas e o grisalho na cabeça do
homem, por que pode? Tenho muitas questões e poucas certezas.
Continuando a pensar, parece-me pouco freqüente (se é que existe) a imagem de
uma púbis envelhecida na iconografia universal. Na pornografia é claro que não
há, mas nem nas belas-artes me lembro de ter visto -e na história da humanidade
a maioria dos pintores é de homem. Não tenho respostas, aceito contribuições.
Dentro de dois dias tingirei meus cabelos. Se a cena é temida, abdico de
agredir meus semelhantes com a minha presença.
A experiência foi válida. Conheci na pele o que é pretender quebrar um tabu e,
ao mesmo tempo, conheci um tabu que eu não sabia que existia.
ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de "Cotidiano nas
Entrelinhas" (ed. Ágora).
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- Eliete
- São Paulo, Brazil
- "A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)
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