terça-feira, 7 de abril de 2015

PAREDES DE GELO



O humano é só.
Clarice Lispector

Tudo era branco, de um branco que cegava , caso fixasse o olhar naquela direção.
O lugar era imenso, muito além do que os olhos humanos poderiam vislumbrar. Silêncio e Frio eram as marcas daquele lugar.
Altas paredes de gelo compunham a paisagem, e estavam naqueles mesmos lugares, há milhares de anos.
De repente, um minúsculo ponto surge neste mar branco. Parece um borrão de tinta em uma folha branca, mas o frio intenso traz novamente o Mar, do qual não há como fugir. Percebe-se agora, claramente, um homem tentando guiar seu barco por entre paredes de gelo.
A expressão era de dor, seus gestos de terror, pois sentia a inutilidade de suas ações. Sabia o quanto ele era pequeno, e  vãs suas tentativas em estabelecer qualquer sinal de ajuda.
Quanto mais lutava, mais paredes imensas de gelo colocavam-se em seu caminho. Impassíveis, elas ignoravam as necessidades daquele pobre homem que,  apavorado,  rogava por ajuda.
Nada! Nenhum movimento, nenhum sinal indicando Vida. Era pura desolação branca!
Em seu desespero, o homem busca por forças; sabe que sua salvação está em enfrentar,  a qualquer custo, aquelas paredes de gelo  que impediam a passagem.
Teria de olhar as geleiras, correr o risco de cegar-se, mas era preciso...
Ao fixar os olhos nos picos daquelas paredes, um fenômeno inesperado acontece.
Contrário ao que temia e esperava, sua visão tornou-se nítida e, assustado,  reconhece os rostos de amigos e familiares em cada cume daqueles paredões de gelo. Não é mais o branco que turva  seu olhar e,  sim, suas lágrimas que correm abundantes, ao entender, perfeitamente, o que estava acontecendo –lhe.
Aquela imensidão branca, gélida, vazia, era a sua vida. Uma vida de indiferença à dor e  às necessidades do “Outro”.
Insensíveis, incapazes de sensibilizarem-se uns com os outros, os homens constroem, com seus remos-atitudes, paredes de gelo que acabam por obstruir seus caminhos e fazendo o mundo um lugar cada vez mais difícil à sobrevivência da espécie.
Aquele homem só consegue chorar! Suas lágrimas abrem fendas nas paredes de gelo, permitindo –lhe a passagem.
Suas forças crescem cada vez mais, porque agora quer chegar depressa ao seu destino e contar a todos a grande revelação.
Mas, eis que, neste misto de alegria e tristeza, surge à sua frente, imponente e assustador, um paredão imenso.  Por alguma razão misteriosa, o homem luta internamente, pois entende que é preciso conhecer seu maior inimigo. Tem medo, muito medo, como se pressentisse  que a grande revelação ainda estava por acontecer.
Uma sensação de peso vai tomando todo seu ser e, de repente é ele, o imenso paredão de gelo.
A vertigem é enorme, suas forças  cedem; sente-se oco, vazio e começa a cair rapidamente naquele abismo.
Sobressaltado , acorda assustado e suando daquele horrível pesadelo!

texto: Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Imagem: internet




domingo, 5 de abril de 2015




 O olhar para o humano  atravessado
 por lentes .





Photography Annual/ 1961
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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Homilia do Frei Raniero Cantalamessa


Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco presidiu, nesta Sexta-feira Santa (03/04), na Basílica de São Pedro, a Celebração da Paixão do Senhor. Nesse dia, não se celebra a Santa Missa, mas as funções da Sexta-feira da Paixão com a Liturgia da Palavra, Adoração da Cruz e Comunhão Eucarística.


A homilia da celebração foi feita pelo Pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, que baseou a sua reflexão nas palavas de Pilatos: “Eis o homem”, recordando os muitos “Eis o homem” de nossos dias vítimas da fome, pobreza, injustiça e exploração.

“Desses males já se fala muitas vezes, embora nunca o suficiente, e há o risco de se tornarem abstrações. Categorias, não pessoas.

Pensemos agora no sofrimento dos indivíduos, das pessoas com nome e identidade concreta; nas torturas decididas a sangue frio e infligidas voluntariamente, neste exato momento, por seres humanos contra outros seres humanos, inclusive crianças”, frisou Frei Cantalamessa.

“Quantos "Eis o homem" no mundo! Meu Deus, quantos Eis o homem”! Quantos prisioneiros na mesma condição de Jesus no pretório de Pilatos: sozinhos, algemados, torturados, à mercê de soldados ásperos e cheios de ódio, que se entregam a todo tipo de crueldade física e psicológica, divertindo-se em ver sofrer. "Não podemos dormir, não podemos deixá-los sós!", disse ainda o capuchinho.

“A exclamação "Eis o homem!" não se aplica somente às vítimas, mas também aos carnífices. Ela quer dizer: eis aqui do que o homem é capaz! Com temor e tremor, digamos ainda: eis do que somos capazes nós, homens! Muito distante da marcha inexorável do Homo sapiens sapiens, o homem que, segundo alguns, nasceria da morte de Deus e tomaria o seu lugar”, frisou.

Recordando o sofrimento dos cristãos, Frei Cantalemessa destacou que eles “não são, certamente, as únicas vítimas da violência homicida que há no mundo, mas não se pode ignorar que, em muitos países, eles são as vítimas marcadas e mais frequentes. Jesus disse um dia aos seus discípulos: "Chegará uma hora em que aqueles que vos matarem julgarão estar honrando a Deus". Talvez estas palavras nunca tenham achado na história um cumprimento tão pontual quanto hoje”, disse ele.

“Os mártires perfeitos celebraram a mais esplêndida das festas pascais ao ser admitidos no banquete celeste. Será assim para muitos cristãos também na Páscoa deste ano, 2015 depois de Cristo.”

Disse ainda o capuchinho, "então, indagará alguém, seguir a Cristo é sempre um resignar-se passivamente à derrota e à morte? Pelo contrário! "Tende coragem", disse Ele aos apóstolos antes da Paixão: "Eu venci o mundo". Cristo venceu o mundo vencendo o mal do mundo. 
“Os verdadeiros mártires de Cristo não morrem com os punhos cerrados, mas com as mãos juntas. Tivemos tantos exemplos recentes”, disse Frei Cantalamessa, recordando que foi Cristo quem deu aos 21 cristãos coptas mortos pelo Estado Islâmico na Líbia, em 22 de fevereiro passado, a força para morrerem murmurando o seu nome. (MJ)
(from Vatican Radio)
http://www.news.va/pt/news/paixao-do-senhor-quantos-prisioneiros-na-mesma-con
imagem da internet

quarta-feira, 1 de abril de 2015


imagem da internet


A feminilidade não é branca

Há tempo (põe tempo nisso) namoro a idéia de parar de tingir meus cabelos. No fim do ano decidi. Já pensando nisso, há mais de dez anos, troquei a tinta por colorante, imaginando que, quando o dia chegasse, o colorido fosse se esvaindo, deixando o branco ou o grisalho emergir naturalmente. 
Pensava eu tratar-se de uma decisão de foro íntimo. Mas que nada! Não ouvi nenhuma palavra de apoio nem da família, nem de amigos, nem de conhecidos: "Você não pode!". "Não combina!". "Grisalho não é jovial!". "Branco põe para baixo!". Na minha santa ingenuidade, não atinava que estava afrontando um tabu. Entendi que a mulher não pode ser grisalha, mas no homem isso é charme e distinção. Existem brancos azulados, bem tratados, que inspiram respeito e até veneração. São os da matriarca, da veneranda chefe de família que ostenta um poder, mas não os da sexualidade.


Exibir os cabelos grisalhos é ostentar a fêmea morta no corpo vivo de uma mulher: é tabu



A questão não está apenas em "aparentar idade" -há quem defenda as rugas. Mas a transformação natural dos cabelos com a idade é uma afronta. Não chega a ser crime, mas senti que estava perto de cometer uma transgressão. Um homem -inteligente e humanista- chegou a enunciar, com todas as letras, que mulher não pode deixar de pintar os cabelos. "Põe uma hena", disse ele. E eu aqui pergunto a mim e a você: por quê?
Olhando a minha volta, só vejo cabelos tintos. É bem verdade que meu círculo de amizades inclui poucas figuras estilo "vovozinha". Minhas amigas são profissionais, além de mães e avós. Conheço algumas exceções, mas elas chamam mais atenção e atraem mais comentários desairosos do que uma "vamp". Escrevo esta coluna em 22 de janeiro. Veraneando à beira-mar desde 23 de dezembro, estou com os cabelos descolorados, de um jeito desgrenhado, caminhando para o grisalho e, portanto, a caminho de uma auto-exclusão social. Trata-se de uma condenação cruel. Podemos envelhecer, mas não tentar nem disfarçar é descaso.
Ostentar a fêmea morta no corpo vivo de uma mulher é tabu. Os homens grisalhos são charmosos, enquanto as mulheres grisalhas parecem lembrar alguma coisa da qual todos queremos esquecer. O cabelo grisalho parece remeter a alguma "cena temida" que conhecemos, mas não queremos rever.
Um colega baiano com o qual eu comentava minha desdita me contou um ditado local. Segundo ele, pêlos pubianos grisalhos, lá no sertão, eram o primeiro sinal de impotência senil. 
A voz desse povo pode ser aquela que está me forçando a continuar a tingir os cabelos. Lembrei-me ainda do livro "Amêndoa", da autora muçulmana Nejdma, no qual a personagem principal relata sua dificuldade ao reencontrar um antigo amante. Dizia ela que o que mais a amedrontava em voltar para a cama com ele, 30 anos depois, era sua púbis esbranquiçada e rala. Será que vale para nós também? O grisalho é, sem dúvida, um movimento entre a cor e o branco. Ostentar o grisalho seria uma confissão de deserotização? Mas e o grisalho na cabeça do homem, por que pode? Tenho muitas questões e poucas certezas.
Continuando a pensar, parece-me pouco freqüente (se é que existe) a imagem de uma púbis envelhecida na iconografia universal. Na pornografia é claro que não há, mas nem nas belas-artes me lembro de ter visto -e na história da humanidade a maioria dos pintores é de homem. Não tenho respostas, aceito contribuições. Dentro de dois dias tingirei meus cabelos. Se a cena é temida, abdico de agredir meus semelhantes com a minha presença. 
A experiência foi válida. Conheci na pele o que é pretender quebrar um tabu e, ao mesmo tempo, conheci um tabu que eu não sabia que existia.



ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora). 



segunda-feira, 30 de março de 2015

Quer brincar comigo ?



Depois da curva da estrada tem um pé de araçá
Renato Teixeira


O compositor e cantor Renato Teixeira na música Amora  diz o seguinte : ”Depois da curva da estrada tem um pé de araçá” .

A proposta é que você interrompa por alguns minutos esta leitura, e brinque com sua criatividade. Com certeza você se surpreenderá!

Depois da curva da estrada o que você espera encontrar?
Vou fazer o meu exercício:

DEPOIS DA CURVA DA ESTRADA TEM...
Mãos alvas, com dedos longos e finos , que se oferecem inteiros para mim e, sem dizer nada, sei que é a generosidade e agarro-a como uma criança sedenta.

DEPOIS DA CURVA DA ESTRADA TEM...
Uma estrada de tijolos amarelos e um par de sapatinhos vermelhos, que grudam rapidamente em meus pés, e levam-me de volta à infância.

DEPOIS DA CURVA DA ESTRADA TEM...
Uma casa pintada de rosa, com cortina rendada na janela, quintal bem grande e nele, um varal com roupas coloridas bailando ao sabor do vento.

DEPOIS DA CURVA DA ESTRADA TEM...
Um campo imenso de girassóis e uma florista com um cesto de vime nas mãos, um lenço estampado na cabeça, colhendo flores para a Virgem Maria.

DEPOIS DA CURVA DA ESTRADA TEM...
 Uma  cidade muito interessante no alto da colina e, todos os habitantes vivem do comércio. Vendem redes bordadas de “gentilezas” , Tem  reciclagem de pecados que transformam-se em lindas virtudes.

Tem até antiguidades que a preços bem convidativos é possível adquirir: chá de paciência, vitaminas de confiança, redutores de medo, amaciante de afetos.

DEPOIS DA CURVA DA ESTRADA TEM...
uma pista de dança e a Vida toda exuberante vem ao meu encontro e tira-me para dançar. Com seus passos imprevisíveis diz bem baixinho em meu ouvido: ”Entregue-se , não tenha medo de mim”.


DEPOIS DA CURVA DA ESTRADA TEM...

sábado, 28 de março de 2015


À ESPERA DOS BÁRBAROS

( Affonso Romano de Sant'Anna )

foto:internet 

O poeta grego Konstantinos Kavafis ( 1863-1933 ) tem um intrigante poema chamado "À espera dos bárbaros", em que narra que uma cidade vivia em função da chegada desses estranhos. Tudo estava ligado a isso. Ninguém modificava mais nada, porque os bárbaros vinham aí. Senadores não legislavam mais, para quê? apenas esperavam; cônsules punham suas togas bordadas, aguardando; o povo reunia-se na praça principal especulando, e até o rei postou-se na porta da cidade para saudar os invasores.

Sucedeu, no entanto, que notícias vindas das fronteiras, espantosamente, afirmavam que não havia mais bárbaros. E o poema termina dizendo:

"Sem bárbaros o que será de nós.

Ah! Eles eram uma solução."

O que espera a pessoa que espera?

Qual a função da espera?

O que o esperar pode ocultar?

A psicanálise fala da "espera angustiante", que provoca pesadelos, alucinações e incômodos de toda ordem.

Não parece ser esta exatamente a situação descrita nesse poema. Ao contrário, as pessoas estão bem dentro dessa espera. Alojaram-se nela confortavelmente. A espera as faz adiar projetos, obrigações, enfim, a vida.

No caso brasileiro, um povo que há quinhentos anos espera ser "o país do futuro", há uma outra frase que também explica nossa vocação para a espera: "Calma que o Brasil é nosso".

Claro que, nesse caso, reconheçamos, o que era uma espera calma está se tornando uma espera angustiante.

Em O deserto dos tártaros, Dino Buzzatti descreve uma fortaleza na borda do deserto, esperando um ataque inimigo, que nunca ocorre. As sentinelas ficam ali aguardando-aguardando e nesse aguardar passam a vida.

Em O castelo, Kafka narra a situação do personagem que passou toda a vida inutilmente esperando que a porta do castelo se abrisse para ele, sem se dar conta que ela, na verdade, já estava aberta.

Em Esperando Godot, Beckett coloca dois personagens esperando um misterioso personagem, que está para chegar, o qual não sabem quem é nem quando virá, mas essa espera vazia preenche suas vidas.

Eis aí exemplos da espera como uma forma concreta e imaginária de preencher o vazio.

Tanto quanto na ficção, na realidade muitas vezes espera-se que a solução venha de fora. Ainda que através de um choque, revolução ou catátrofe. Neuróticos podem esticar sua neurose ao extremo para ver se alguém os socorre, como quem procura o lugar mais fundo da piscina para que outros, alarmados, o salvem.

Algumas religiões estipulam o juízo final como uma espécie de catástrofe redentora que, paradoxalmente, possibilitaria a redenção.

É também a salvação de fora para dentro.

Da mesma maneira outros concebem a danação vinda também de fora para dentro, como forma culposa de redenção.

É estranho, mas, às vezes, o oponente, o mal, o invasor, o bárbaro terminam por conferir sentido às pessoas e comunidades.

O desnorteante é descobrir que o mal às vezes é imaginário, o oponente está dentro de nós e os bárbaros não virão.

Crônica extraída do livro "Tempo de Delicadeza"

 

 

quinta-feira, 26 de março de 2015

 
 
 
 
PROMESSA DE VIDA
 
 
É senso comum entre nós, brasileiros , que o ano inicia, de fato, depois do carnaval, quando começamos a colocar em andamento os planos traçados.
Apesar das chuvas, que castigam anualmente muitas cidades, trazendo problemas tão graves para tantas famílias, não são destas águas e sim das águas de  março de Tom Jobim que quero falar.
.... são as águas de março fechando o verão,
é  a promessa de vida no teu coração.
 
Águas que chegam para lavar e arrastar os percalços do caminho, anunciando novos sonhos, novos projetos de vida.
 
Somos cientes de que estamos vivendo momentos difíceis, tempo de transição, com crises irrompendo em todas as dimensões das nossas vidas e, como consequência, um atordoamento constante.
Há muito pau, pedra  ,resto de toco, caco de vidro ,estrepe, prego, lama  no caminho.
Não é possível fecharmos os olhos e negar a realidade impiedosa em que vivemos: desemprego aumentando em todo o mundo, guerras, terrorismos, terremotos financeiros e geográficos, desagregação familiar e muito mais.
No entanto, a capacidade de sonhar, acreditando que é possível mudar essa situação, precisa correr muito forte em nossas veias, pois não podemos propagar o negativismo e desacreditar em nossas forças e no poder do nosso Criador. É preciso lutar com os sentimentos de impotência, apatia, temor e conformismo (doenças da modernidade tardia) que acabam surgindo em todos nós.
Precisamos, frente ao mistério profundo que é a vida, seguir a marcha estradeira e crer que há sol, regato, fonte , peixe ,lenha, um pedaço de pão. Que as condições necessárias existem e estão ao nosso dispor, desde que façamos o projeto da casa juntos, com a firme convicção de que ela deve ser para todos.
Afinal há tijolos chegando; isto é, há recursos intelectuais e humanos sempre disponíveis , se utilizados com criatividade e alojados éticamente para o bem comum . Sempre haverá tijolos chegando, se nossas disposições para o belo, para o bem e para o certo forem orientadas pelos ensinamentos do grande arquiteto, Jesus Cristo.
Um belo horizonte e a “Terra Prometida” serão por todos vislumbrados se não levantarmos trincheiras com nossas  atitudes ,  se não provocarmos exclusões e separações de qualquer ordem.
A promessa de vida em teu coração é o convite para voltar a sonhar, acreditar e lutar pelos ideais que estão sendo abortados e sufocados em nossas vidas.
Esta tarefa de  ” limpar o terreno” não é tarefa para indivíduos  (aqueles que se fecham em si mesmos) e sim, para cidadãos ( os que se abrem para o bem comum).
Quando, verdadeiramente, nos conscientizarmos de que o egoísmo, o individualismo, o consumismo, e todos os “ismos” são o carro enguiçado dos nossos tempos, então conseguiremos alcançar o fim da ladeira, o fim da canseira, a luz do amanhã.
Um mundo melhor é tarefa desafiadora ,  pois exige que fiquemos lado a lado, João, José, Eu e Você.
Todos unidos nos mesmos ideais seremos as águas de março, fechando esses tempos difíceis e trazendo a esperança de um mundo melhor às próximas gerações.
 
Escrito por Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Imagem de Internet (autor desconhecido)
 
 
 
 
 

domingo, 22 de março de 2015





O que eu quero e sobrequero


Viver amanhecendo é aprendizado que não posso perder de vista.
Pe. Fábio de Melo


O que eu quero e sobrequero é uma expressão de Guimarães Rosa e que tomo emprestada para  falar do meu maior desejo .
Se uma fada madrinha aparecesse com sua varinha de condão, e me desse a possibilidade de realizar um desejo, não teria a menor dúvida e rapidamente responderia, inspirada na música “Tocando em frente” de Almir Sater e Renato Teixeira:  O que mais quero é tocar em frente a minha vida com valentia e ser feliz sem muitas garantias.
O que mais quero é não ser o meu maior obstáculo, frente às lições do caminho, e ter coragem - seguir em frente apesar dos medos.
O que mais quero e sobrequero é ser como o velho boiadeiro, que leva sua boiada (todas as experiências boas e ruins) sem pressa, com um sorriso, forte e feliz, aceitando e aprendendo com cada passo e escorregadela que vier dar pelo caminho.
O que eu quero é não recuar frente às manhas da vida, manter-me firme e não permitir que a descrença more dentro de mim.
O que eu quero e sobrequero é não produzir pensamentos catastróficos constantemente, para que a paz possa vir em meu auxílio e ritmar o meu coração.
É encontrar um velho boiadeiro que me ajude quando nada sei e que eu também possa, com minha experiência, ser um velho boiadeiro para quem por mim passar.
O que eu quero e sobrequero é não me afastar de Deus e guiar-me sempre por Sua Palavra.
Tocar em frente e compor a própria história, sei bem que nenhuma fada irá me proporcionar, pois essa estrada é um processo de construção particular, intenso e profundo, que se faz continuamente por meio do autoconhecimento  .
Cumprir a vida é ser estrada; viver intensamente cada passo dado, não se fechar às possibilidades do caminho, ter um olhar mais generoso para com as pessoas e saber lidar com a própria verdade.
O que eu quero é aprender a amar para poder pulsar e que, antes de morrer, eu saiba viver.

...Cada ser em si carrega o dom se ser capaz e ser feliz.


Texto escrito por Eliete T. Cascaldi Sobreiro
Foto: quadro de  pintor  desconhecido


sábado, 21 de março de 2015



Sensações Celestiais



 "Que nosso gesto seja uma criação, o signo de um mundo novo;


que o entusiasmo seja uma missão








e o pensamento, uma ordem".




texto: Cioran/ O livro das Ilusões
local: Tiradentes/M. G.
fotos:Eliete

sexta-feira, 20 de março de 2015


MOZART- beleza etérea



Fonte: http://veja.abril.com.br/multimidia/galeria-fotos/retratos-de-mozart/


"Aconselho a música de Mozart e de Bach como remédio contra o desespero. Em sua pureza aérea, que às vezes chega a alcançar uma sublime gravidade melancólica, te sentes leve, diáfano e angélico.Tens então a impressão de que em ti, ser inconsolável, crescem asas que te lançam em um voo sereno, acompanhado de discretos e velados sorrisos, em uma eternidade de evanescente encanto e de doces e acariciantes transparências".

..."A música nos desperta o pesar de não ser o que teríamos de ser, e sua magia nos cativa por um instante transportando-nos para o nosso mundo ideal, para o mundo onde deveríamos viver".

Livro: Cioran/ O Livro das Ilusões

quinta-feira, 19 de março de 2015


Lições na madrugada


As coisas estão no mundo eu é que preciso aprender.
Paulinho da Viola

Há muito tempo eu não escutava um galo cantar de madrugada, até que uma noite dessas “re-vivi” essa experiência.
Acordei ou fui acordada, não sei bem, com o canto do galo, melhor dizendo, com o canto dos galos, pois um galo não canta sozinho. Há, sempre, um outro  galo que lhe responde de longe. Olhei no relógio, eram quatro horas da manhã.
A primeira impressão, confesso, não foi muito boa . Senti uma discreta nostalgia e uma pequena chateação, pois talvez demorasse em pegar no sono novamente.
Mas lentamente fui embalada pela magia daquele canto longo  e suave, e algumas lembranças rapidamente vieram ao meu encontro. Deixei-as de lado e voltei minha escuta para a característica melódica de suas notas, e, pela relação que se estabelecia entre os dois galos.
Quantas lições há em um canto de galos na madrugada.
A princípio, lembrei-me  de ter lido que  o galo simboliza a fé, pois ele canta na hora mais escura da noite, anunciando o amanhecer.A fé é a certeza que brota do nosso interior nos momentos em que tudo parece indicar o contrário. Mas naquele canto dos galos dei-me  conta  de tantas outras coisas, como a harmonia, candura e cumplicidade que existe nesta comunicação, e fiquei pensando se não é um bom exemplo do que pode ser um diálogo entre duas ou mais pessoas.
Falo do respeito que é escutar o outro até o final da sua comunicação, dar então uma pausa e só depois se manifestar. Não vi pressa nem interrupção de um galo enquanto o outro cantava, e sim o silêncio como um convite ao outro para que ele se manifestasse até o final.
Bem diferente do que geralmente acontece com muitos de nós, que sempre interrompemos o outro colocando a nossa opinião ou mesmo acreditando que já sabemos onde ele irá chegar com suas ideias .
Que bela lição a aprender quando escutei a harmonia existente no canto sem competição, sem necessidade de cantar um tom mais alto do que o outro; pelo contrário, pareceu-me que o desafio era cantar como o outro cantava.
Sei que são sentimentos meus que estou colocando nos galos, mas isso não diminui em nada a lição dessa madrugada que pretendo colocar em prática no meu amanhecer quando estiver junto às pessoas.
Quero viver o diálogo verdadeiro, pois a manifestação das ideias deve ser um belo canto que convide o outro a cantar sua alteridade com total maestria.


texto de Eliete T. Cascaldi Sobreiro

foto:Eliete




quarta-feira, 18 de março de 2015


"Aquilo que seus olhos vêem, mas apenas o seu coração entende".








Local: Campos do Jordão

Apontadora de Idéias

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São Paulo, Brazil
"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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