quarta-feira, 22 de junho de 2011


COM A PERMISSÃO DE VIVIAN FERNANDES
O mágico
Angelo contemplava o horizonte, sonhando acordado, enquanto seus pais treinavam seu número de malabaristas. Nascera no circo, mas não havia herdado o talento dos pais. Era distraído e descoordenado demais para os malabares. Possuía um carisma único, e atraía a todos , mas nunca percebia o efeito que causava nas pessoas, tentara quase todos os números do circo, mas não conseguiu se encontrar em nenhum, seu talento dormia fundo em sua alma. Nunca ficava triste ou desanimado, sua tenacidade era espantosa, e assim seguia procurando. Numa de suas observações reparou que o mágico estava ficando cansado, sua idade avançada impedia a precisão de movimentos, solidário foi conversar com ele, percebendo que era a primeira vez que entrava na tenda do mágico . E o deslumbramento o ofuscou por um instante, jamais sentira nada parecido, não sabia se sonhava ou estava desperto.

O mágico percebendo sua reação, começou a contar sua vida de grande mágico, que fora intensa e prazerosa, vinha de uma antiga linhagem de mágicos, e não havia um só descendente que não possuía o dom, mas que infelizmente era o ultimo, como não se casara , não tinha filhos. Mas que ficaria contente em passar os segredos da mágica adiante, precisava de um aprendiz. Angelo nem respirava com a intensidade da emoção que o tomava por inteiro e sem pestanejar se ofereceu como aprendiz. A nova rotina não era fácil, os pais não viram com bons olhos mais esta tentativa, mas conseguiu convence-los que nascera para isso. Acordava muito cedo e passava o dia com o mágico, que ia lhe ensinando o ofício, a sua famosa distração lhe causou muitos contratempos, perdia o baralho e não o encontrava na hora certa, o coelho nunca estava na cartola, quando ia retirá-lo, mas não esmorecia, estava fascinado e mesmo depois de meses sem um progresso não aceitava que não possuía o dom. Tinha certeza que faria um grande número, e ninguém conseguia demove-lo.

Com muito esforço aprendeu os números básicos, para uma pequena apresentação, mas em seu intimo ansiava por um número que o consagraria como O Mágico, e sabia que conseguiria. Insistiu em aprender o desaparecimento no palco, não adiantava o mestre lhe dizer que era muito difícil e não estava pronto, relutante o ensinou, mas lhe avisou que deveria ser treinado com cuidado e muita concentração. Treinou exaustivamente, todos os dias, mas não permitia que ninguém o visse, queria fazer uma surpresa. No dia do espetáculo final, convenceu o dono do circo que estava pronto, e como era amável e encantador nunca lhe negavam nada. O circo estava lotado, seria o último a se apresentar, fecharia a temporada, nesta pacata cidade. Precisou de todo o seu carisma para prender a atenção dos expectadores, e executou de forma tranquila tudo o que aprendera, deixando o desaparecimento para o final. De forma teatral fez a grande apresentação e ante o olhar abismado do público desapareceu sem nem se esconder atrás de um pano, simplesmente sumiu, deixando a platéia enlouquecida, pedindo bis, como não retornou foram todos embora, comentando sobre o maravilhoso espetáculo, principalmente do número final. No dia seguinte as manchetes de todos os jornais , só falavam da espetacular proeza do Mágico. Naquela noite, os integrantes do circo, fizeram uma busca, mas Angelo não foi encontrado, no final ele conseguira seu intento e seu feito jamais foi esquecido. Falavam dele, com voz baixa , cheia de admiração e espanto,o grande Mágico que sumiu.
Vivian Fernandes do blog: http://floresnojardimdavida.blogspot.com/

terça-feira, 21 de junho de 2011


A desordem dos meus sentimentos não tem me deixado encontrar a paz que um dia conquistei.

domingo, 19 de junho de 2011

Com a permissão de Be Lins...

Bocas, Borboletas e Amores

Não é maravilhoso ter a liberdade de abrir a boca e dizer o que bem vier no meio da telha? Tudo bem!... não é bem assim. De fato a gente não pode sair por aí dizendo tudo que se passa por nossas "caxolas voadoras" mas, bem pensadinho, a gente sai falando oq ue pensa quase sem causar maiores danos, SE...
Com a letra A, creio que a palavra mais dita seja AMOR. Hoje uma borboleta encostou no meu rosto e, dizem, quando isso acontece temos o direito à um pedido. Como levo essas pequenas superstições à sério, muito à sério mesmo, pensei. Pensei muito antes de pedir e pedi amor. Amor nos meus gestos, nos caminhos, nas pessoas com quem me encontrasse, comigo mesma, amor. Amor a tudo envolvendo, feito uma bruma azulada que cobre carinhosamente os lindos entardeceres invernais.
Atitudes amorosas. Parece muito simples para muitos, mas para mim, colocar amor nos mínimos detalhes, nas palavras, assim, BEM CONSCIENTEMENTE, tem que ser lembrado. O que é uma grande pena agir assim, robotizadamente porque, quando penso intencionalmente no amor antes de qualquer gesto, antes das palavras serem ditas, tudo parece ficar um pouco mais leve. Um pouco mais simples, também. E alegre. E divino. Amor tem muito a ver com BOA VONTADE. Nada a ver com o contrário disso, a muito mal vista má vontade, e também a preguiça. Por isso, há que se ter disposição para o amor. E cuidado. Na verdade, atenção. Atenção a cada segundo que antecede a ação e a perigosa ação de abrir o bocão para falar. Amor é acréscimo. Amor romântico é excesso, mas aí é definitivamente outro papo, embora de todo jeito, amor seja sempre caminho.

Caminho que revela a existência como algo mais saudável, mais próspero, mais surpreendente.
É isso aí. E falando em surpresas, é sempre uma surpresa ( surpresa para quem não aprende nunca a lição) um dia vivido e falado na língua do amor. Dá quase pra dizer que esbarrei na felicidade.
Mas um dia, e é certo que tentarei muito, eu espero chegar lá. Lá, bem perto dessa tal intencionalidade amorosa espontânea.


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ontem, a lua tocou suavemente nas cordas do amanhecer.



foto: Eliete Cascaldi Sobreiro

No outono da vida quero florir como um ipê , ser leve como o vento e deixar cair os excessos que um dia carreguei.


terça-feira, 14 de junho de 2011

foto: Eliete Cascaldi

Simplesmente

Vista de perto, toda a gente é monotonamente diversa.

Fernando Pessoa

A sala está em penumbra, e a cortina branca de seda balança suavemente.A brisa e o barulho da rua penetram timidamente pela janela.O dia esteve quente, e o trânsito, como sempre, infernal, fazendo com que ela demorasse a chegar a sua casa.Logo na entrada, lê a placa que comprou numa feirinha: ”Aqui tem gente feliz”.

Joga a chave do carro, a bolsa e finalmente seu corpo no sofá, respirando profundamente.Fecha os olhos, e com as mãos abraça seu corpo, desejando encontrar-se, ou melhor, procurando juntar seus pedaços e sentir que está viva.

Imóvel, dança no compasso de seu coração, cantarolando mentalmente: “Meu coração não sei por que, bate feliz quando te vê”...

O velho carrilhão, amigo fiel da família, parece querer dar-lhe as boas vindas, pois começa a tocar.Agora, relaxada, é capaz de sentir o cheirinho do jasmim que enfeita a sacada de sua casa.

Sabe que está vivendo um verdadeiro estado de graça e, consciente deste presente, procura retê-lo, assim como fez quando fixou fortemente em sua memória os olhos azuis de sua avó, minutos antes de ela falecer.

Sabe que a felicidade consiste nisso: na capacidade de absorver avidamente as pequenas coisas.

Esse momento é único; é o mar abrindo-lhe para que ela faça sua travessia a terra prometida, tal como Moisés.

Um barulho de chaves na porta ao lado e eis que o mar se fecha, e ela retorna ao mundo de todos. O vizinho chegando, indica-lhe que é hora de esquentar o jantar; logo as crianças entrarão em algazarra.

Ela daria tudo para poder prolongar esse momento de encontro profundo consigo mesma, de paz e solitude.

Mas é hora de “tratar da vida”...

Eliete Cascaldi Sobreiro

sábado, 11 de junho de 2011

foto: Eliete Cascaldi Sobreiro

“Há, dentro de cada um de nós, um “jardim secreto”, fechado, que precisa ser aberto. O terapeuta, serviçal, é o jardineiro. Tem a obrigação de cuidar do jardim. Arrancar os matos e pragas, por causa das flores.

Terapia é isso: visitar o jardim secreto, até que se encontre a chave perdida.”
Rubem Alves.

sexta-feira, 10 de junho de 2011


UBUNTU

A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.

Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizaros membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore.

Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndoaté o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto.

Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade,essência daquele povo.

Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"Atente para o detalhe: porque SOMOS, não pelo que temos...

UBUNTU P'RA VOCÊ!

terça-feira, 7 de junho de 2011

foto: Eliete Cascaldi

MEU PRIMEIRO AMOR

As coisas pedem pouso quando amam.

Carlos Nejar

Era um domingo de verão e o sol dava sinais de que estava chegando para valer. Os cachorros já se colocavam a postos, cuidando para que ninguém se aproximasse da casa de seus donos, e os passarinhos voavam e cantavam, saudando o alvorecer.Eu estava pronta para a caminhada diária, pensava fazer o mesmo percurso de sempre.Mas, por alguma razão não consciente, fui tomando o caminho do centro da cidade. Após alguns minutos, encontrava-me perto do jardim da Catedral.Os passos ficaram mais lentos e, interiormente, fiz marcha a ré.Meus olhos observavam cada detalhe daquela paisagem; as pedras, as árvores e os bancos que ali permaneciam fiéis às suas histórias.Decepcionada, percebo habitantes novos, as pombas que parecem ter feito daquele lugar seu habitat.Sinto muita tristeza e uma grande culpa por ter- me afastado por tanto tempo daquele lugar mágico.Lágrimas brotaram instantaneamente de meus olhos. Era só saudade.

saudade, palavra triste quando se perde um grande amor”

O jardim da Catedral foi o meu primeiro amor, e esse reencontro com minha história causou-me uma profusão de sentimentos.

“igual uma borboleta vagando triste por sobre uma flor”

Como a força de um ímã, aquele chão de pedras atraiu vários fragmentos de memória, que foram ligando um fato ao outro, um sentimento com outro.Aos domingos, meu irmão e eu íamos à missa das nove horas, e caso nos comportássemos bem, poderíamos brincar no coreto do jardim e correr por suas calçadas.Naquele jardim, aprendi a andar de tico-tico, passeava com o carrinho vermelho de bolinhas brancas, levando minha boneca preferida, e foi naquele jardim que fiquei maravilhada com as unhas postiças feitas com flores amarelas que nasciam nos canteiros que rodeavam o jardim.Dou-me conta de que todas essas lembranças estão vivas e fazem vibrar todo o meu corpo.

Hoje consigo perceber que o jardim, com suas duas partes, a superior, que parecia uma extensão da Catedral, guarda todas as vivências da criança que fui, e a parte debaixo do jardim contém recordações da adolescência. Muitas vezes íamos à tarde, depois das aulas, para namorar.Quantas lembranças naqueles bancos ali espalhados, e que estavam sempre ocupados por namorados ou grupos de jovens a conversar.

Esse jardim ainda continuou a fazer parte de minha vida por muito tempo. Quando casada ,muitas vezes levei minha filha para ver a fonte luminosa, comer pipoca e ouvir a banda tocar no coreto.Tenho certeza de que esse jardim não foi só meu, que foi o primeiro amor de muitas pessoas que aqui nasceram e cresceram.O sino da Catedral tocou, e o silêncio, povoado de ressonâncias do vivido intensamente, esvaiu-se , e minha atenção dirigiu-se para o momento presente, lembrando-me de que tinha um longo caminho de volta para casa.

Hoje quero conhecer lugares novos que irão proporcionar-me experiências maravilhosas, de que mais tarde recordarei com saudades, mas também sei que o primeiro amor o tempo não leva. É muito bom quando os lugares mágicos ficam preservados para confirmar nossas lembranças, o que infelizmente nem sempre acontece.

Inspiração: Meu primeiro amor

Composição: Hermínio Gimenez, José Fortuna e Pinheirinho Jr.

domingo, 5 de junho de 2011

Dewing_Thomas_Summe

A infinita fiadeira


(A aranha ateia
diz ao aranho na teia:
o nosso amor
está por um fio!)

A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem fim nem finalidade. Todo o bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatais funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.

Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
- Não faço teias por instinto.

- Então, faz porquê?
- Faço por arte.

Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
- Minha filha, quando é que assentas as patas na parede?
E o pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim...

Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem, mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.

Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
- Vai ver que custa menos que engolir mosca - disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar a sua colecção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime.

Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?

- Faço arte.
- Arte?

E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos - chamados de obras de arte - tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.

Mia Couto, In O Fio das Missangas

sexta-feira, 3 de junho de 2011

imagem recebida por e-mail, portanto, não sei o autor

Saudade é um buraco dolorido na alma. A presença de uma ausência. A gente sabe que alguma coisa está faltando. Um pedaço nos foi arrancado. Tudo fica ruim. A saudade fica uma aura que nos rodeia. Por onde quer que a gente vá, ela vai também. Tudo nos faz lembrar a pessoa querida. Tudo que é bonito fica triste, pois o bonito sem a pessoa amada é sempre triste. Aí, então, a gente aprende o que significa amar: esse desejo pelo reencontro que trará a alegria de volta.

A saudade se parece muito com a fome. A fome também é um vazio. O corpo sabe que alguma coisa está faltando. A fome é a saudade do corpo. A saudade é a fome da alma.

(Rubem Alves)

segunda-feira, 30 de maio de 2011


Um amigo Leve

Não espere considerações sobre a complexidade dos sentimentos, mas ninguém será melhor companhia


É sempre assim : com tanto para fazer e sem tempo para nada, a gente acaba negligenciando um monte de coisas, entre elas nossos afetos.
E como os sentimentos não sobrevivem sem uma certa atenção, um dia se começa a achar que o coração não consegue -e nunca mais vai conseguir- gostar, ou ao menos sofrer por alguém.
Mas o tempo passa, aquele amigo que a gente via o tempo todo viaja e um belo dia você sente saudades dele. Preste atenção: esse fato é mais merecedor de uma comemoração do que qualquer data querida. Ter saudades de um amigo, há quanto tempo isso não acontecia? Ah, que coisa boa.
Uma simples saudade faz com que você se sinta viva, mesmo que sejam saudades apenas de um amigo -como se um amigo pudesse ser chamado de "apenas". Mas tantas vezes você amou apaixonadamente, e quando ele fez uma viagem sentiu um alívio, até para descansar de tanta paixão e poder se encher de cremes, sem ele por perto para reclamar? E tem melhor do que de vez em quando ter aquela cama enorme só para você, e até dormir com a televisão ligada?
Ter um amigo é coisa muito boa, e sendo um que não te patrulha, não te inveja, não te analisa nem discute a relação, é bom demais -e raro. Um amigo tão bom que te aceita do jeito que você é, que não faz perguntas indiscretas, que te entende e está por ali sem ser, jamais, invasivo. Você sabe de certas particularidades dele, ele das suas, mas delas não falam, só quando é necessário. E com pouca intimidade.
O excesso de intimidade pode ser fatal, mesmo entre mãe e filho, marido e mulher. A intimidade física não é nada, perto da dos pensamentos e sentimentos. Pode ser pior do que ouvir a pergunta "em que você está pensando?". Pode sim: é quando alguém tenta analisar a razão pela qual você disse ou fez determinada coisa num determinado dia, pretendendo, assim, conhecer você melhor do que você mesma se conhece.
Um distanciamento saudável é indispensável às boas relações humanas.
Qual a primeira qualidade que deve ter um amigo? Bem, além das clássicas, como lealdade, fidelidade, discrição sobre as intimidades que ouviu nas horas do aperto, disponibilidade para escutar as histórias, bom humor, e mais o quê? Leveza. Ter um amigo leve é uma benção dos céus.
Não espere dele considerações sobre a vida e a complexidade dos sentimentos humanos, mas ninguém será melhor companhia para jantar, viajar, conviver, do que um amigo leve. Já pensou, passar três dias seguidos com um amigo profundo? Se estiverem tomando banho de mar, ele pode se lembrar do tempo em que era criança, falar da relação que tinha com a mãe e o pai, e daí para cair no divã é um pulo; eles gostam de falar como são tolos os banqueiros e políticos, que só pensam em dinheiro e poder e não compreendem que a vida real etc. etc., quanta profundidade.
Com essa mania, quando estão numa rede em frente à praia, comendo um camarãozinho frito e tomando uma cerveja estupidamente gelada, se esquecem de que nessa hora o bom é não pensar em nada.
É isso que faz um amigo leve; ele não diz nada, apenas usufrui a vida, e quem tiver a sorte de estar perto dele vai ter momentos de grande felicidade - ou pelo menos quase isso.
Com um amigo assim, até a vida fica mais leve.

Folha de São Paulo 29/05/2011


domingo, 29 de maio de 2011

foto:Eliete Cascaldi
Sempre, e sempre de um modo diferente, a ponte acompanha os caminhos morosos ou apressados dos homens para lá e para cá, de modo que eles possam alcançar outras margens...
A ponte reúne enquanto passagem que atravessa.
Martin Heidegger(2002)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Um amor mais do que lindo...

Um casamento muito feliz...

Uma noite encantada




terça-feira, 24 de maio de 2011

Anita Malfati




Nós todos adotamos ou inventamos um estilo singular para a história de nossa vida .

Você se lembra daqueles personagens de quadrinhos que são impiedosamente seguidos por uma nuvem preta, que é uma espécie de guarda-chuva ao contrário?



Eles não têm para onde fugir: deslocam-se, mas a chuva os persegue, mesmo debaixo do teto de sua casa.

Claro, no outro extremo do leque há pessoas que são seguidas por um sol esplendoroso, mesmo quando estão no escuro ou no meio de um desastre que deveria empalidecer a luz do dia (se ela tivesse vergonha na cara).



Em suma, cada um de nós parece estar sempre numa condição meteorológica que lhe é própria e não depende nem da estação nem dos acontecimentos do momento.



Esse clima privado, como um pano de fundo que nos seria imposto, é uma consequência quase inevitável dos primórdios de nossa vida e das bênçãos ou maldições murmuradas ao redor de nosso berço.



Talvez sejamos um pouco mais livres para escolher o estilo da vida que levaremos, seja qual for nosso pano de fundo.Geralmente, por estilo DE vida, entende-se um modelo que a gente imita para construir uma identidade e propô-las aos olhos dos outros.


Mas o estilo DA vida, que é o que me interessa hoje, é outra coisa: é a forma literária na qual cada um narra sua própria vida, para si mesmo e para os outros.

Um exemplo. Acabo de ler (e continuarei relendo por um bom tempo) "The Book of Dreams" (o livro dos sonhos), de Federico Fellini (ed. Rizzoli). São mais de 400 páginas, em grande formato, que reproduzem fotograficamente os cadernos nos quais o diretor italiano registrou seus sonhos, em palavras e desenhos, de 1960 a 1968 e de 1973 a 1990 (ele morreu em 1993).Tullio Kezich, que assina a introdução, conta que, em 1952, no seu primeiríssimo encontro com Fellini, o diretor lhe perguntou o que ele tinha sonhado no dia anterior. Tullio não sabia e ganhou uma filípica de Fellini sobre a importância de não perder o "trabalho noturno", que seria no mínimo tão significativo quanto o que pensamos e fazemos quando estamos acordados.


Fellini amava dormir e sonhar; ele vivia com um caderno ao lado da cama, onde registrava texto e visões imediatamente, ao despertar. E note-se que seu interesse pelos sonhos era anterior a seu primeiro contato com a psicanálise (que foi desastrado, com um freudiano, em 1954, e bem-sucedido com um junguiano, Ernst Bernhard, de 1960 a 1965, quando Bernhard morreu).Vários amigos que me viram ler o livro me perguntaram se, então, os sonhos de Fellini serviam de material para seus filmes. A questão não cabe.



O que o livro revela é que, para Fellini, o sonho era, por assim dizer, o gênero literário no qual ele vivia (e portanto contava) sua vida- nos cadernos da mesa de cabeceira, nos filmes e no dia a dia.Cuidado. Fellini não especulava nem um pouco sobre, sei lá, a "precariedade" de nossa percepção, que pode confundir sonho com realidade. Ele nunca se perguntava se o que estava vivendo era sonho ou realidade, porque, para ele, o sonho era, propriamente, o estilo da realidade.Esse estilo era o que fazia com que seu olhar estivesse constantemente maravilhado ou atônito: graças a esse estilo, ele atravessava (e contava) a vida como "um mistério entre mistérios" (palavras dele).




Pois bem, nós todos adotamos ou inventamos um estilo singular para a história de nossa vida -é o estilo graças ao qual nossa vida se transforma numa história.Cada um escolhe, provavelmente, o estilo narrativo que torna sua vida mais digna de ser vivida (e contada). Há estilos meditativos, investigativos, introspectivos, paranoicos ou, como no caso de Fellini, oníricos e mágicos.



Quanto a mim, o estilo narrativo da minha vida é, sem dúvida, a aventura. Não só pelos livros que me seduziram na infância ("Coração das Trevas", de Conrad, seria o primeiro da lista). Mas porque a narrativa aventurosa sempre foi o que fez que minha vida valesse a pena, ou seja, não fosse chata, mesmo quando tinha toda razão para ser.Quando meu filho, aos quatro ou cinco anos, parecia se entediar, eu sempre recorria a um truque, que ele reconhecia como truque, mas que funcionava. Eu me calava e me imobilizava de repente, como se estivesse ouvindo um barulho suspeito e inquietante; logo eu sussurrava: "Atenção! Os piratas!".Nem ele nem eu acreditávamos na chegada dos piratas, mas ambos achávamos que a vida merecia um pouco de suspense.

Folha de São Paulo/Equilíbrio: 21/4/2011


O meu estilo de vida é romântico e o seu?

Um dia daqueles...

Tudo lindo, todos felizes...


Só temos que agradecer a Deus por todas as graças recebidas.









terça-feira, 17 de maio de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

foto:Kemal_Kamil




UM DESSES MOMENTOS
Estou em um desses momentos em que o desassossego não me deixa dormir nem acordar; nem ir nem ficar.
É só confusão e atordoamento.
O coração gagueja, titubeia com tantas emoções endoidecidas.
As batidas descompassadas pedem explicação e eu não sei nada de mim. Não sei o que acontece nos subterrâneos do meu ser. Se eu fosse este coração sairia em disparada e deixar-me-ia com minha confusão. No entanto , ele é amor e não abandona o capitão. Fica batendo pesado, apertado e envergonhado, por mostrar-se desgovernado e incapaz de dar conta de tal confusão.
Acalme coração valente, logo voltarei a ser feliz. Quem sabe foi só um alarme falso, uma mentira sentida ou uma verdade abortada que despontou neste horizonte íntimo?
Pobre coração! Não pode sequer descansar, parar um pouco para distrair ou relaxar! Sua vida é a vida de seu hospedeiro; para isto que ele vive. Dedicação total ao outro. Quando pressente “perigo à vista”, põe-se de prontidão e faz ressoar todo o batalhão, com a firme intenção de colocar medo no inimigo e fazê-lo bater em retirada.
Caríssimo coração, procure dormir. Não dê importância a este desassossego, você bem sabe, que ninguém sabe o que quer, e que ansiar e temer é ofício de todos nós .
Peça aos olhos para fecharem as cortinas, os ouvidos para cerrarem as portas; assim no escurinho você se acalmará.
Procurarei um berço, um colo, um ombro, um toque, um beijo. Vou procurar um amor para namorar!
Estou em um desses momentos em que o desassossego não me deixa dormir nem acordar, nem ir nem ficar.
É hora de calar, parar e pensar e fazer-me na bagunça do desfaço.



Eliete Cascaldi Sobreiro






Queridos amigos, agora vou fazer uma pausa nas visitas aos blogs amigos e nas postagens do meu blog para viver um momento muito especial: o casamento da minha filha.

Esta crônica foi escrita em 2010,não tem nada a ver com o casamento, embora posso confessar que a ansiedade é grande e o desassossego existe,mas a razão é felicidade.bjs

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Paul Cezanne



A desventura pode até ser terrível, mas console-se: se você for vítima ou culpado, você vai aparecer na foto.
Vários leitores pediram que eu insistisse no mesmo tema da semana passada: por que a culpa é um de nossos jeitos preferidos para dar sentido ao mundo?



Como é possível que, diante de uma desgraça, o fato de sentirmo-nos culpados constitua, para nós, uma espécie de conforto?


Todos conhecemos as expressões usuais pelas quais, por exemplo, Fulano ou Fulana podem eles mesmos admitir que "fizeram um câncer" -e não foi porque fumaram dois maços de cigarros por dia durante a vida inteira, nem porque, verão após verão, deitaram no sol para bronzear a pele, sem protetor algum.



Nada disso: a expressão "fazer uma doença", em geral, indica outro tipo de responsabilidade. Mas vamos devagar.Não é raro que a primeira reação de quem recebe um diagnóstico maligno consista em procurar uma intenção escusa da qual ele poderia ser a vítima. Envenenaram a água da cidade; o ar é repleto de resíduos daquela fábrica cuja chaminé solta fumaça a cada noite; há um dentista que tem consultório acima do meu, ninguém sabe quantos raios-x ele faz por dia, será que ele isolou sua sala do jeito certo ou será que a radiação chega até aqui?



Na mesma linha, Deus ou o diabo podem ser os mandantes de minha desgraça. Deus, porque ele quer colocar à prova minha fé, como ele já fez com Jó. O diabo, porque ele é príncipe aqui na terra e todo o mal vem dele.



Essas reações parecem ter o mesmo propósito dos delírios paranoicos: elas acusam um agente externo (Deus, o diabo ou os vizinhos) para que o mundo ganhe sentido, ou seja, no caso, para que o mal que se abate sobre a gente tenha uma explicação. "Adoeci porque alguém me quis mal": graças a essa crença, não sofro por acidente nem por acaso, mas sou vítima de uma vontade que me castiga ou me testa. O que se ganha com isso? Antes de responder, mais uma observação.



Em geral, quando temos intenções que preferimos esconder de nós mesmos, uma boa solução é atribui-las a outros. Portanto, não seria de todo estranho que a gente acusasse Deus e todo mundo por males que nós mesmos causamos.Desse ponto de vista, reconhecer que nós somos os primeiros culpados de nossa desventura seria um progresso. Algo assim: até que, enfim, o cara se tocou, não foi Deus, não foi o demônio, nem a usina química no morro atrás da casa, foi ele mesmo que "fabricou" sua doença.


Geralmente, a explicação deste "fabricar sua doença" passa quer seja por uma poética do estouro (emoções contidas e silenciadas tiveram que se expressar e explodiram numa neoplasia), quer seja por uma poética da erosão (as mesmas emoções reprimidas foram atacando o corpo como a famosa gota que cava a pedra, não pela força, mas caindo repetidamente).



Tanto faz: o que me importa dizer é que entre acusar a Deus e todo mundo e acusar a nós mesmos não há progresso algum.A posição de vítima (Deus, o diabo e os vizinhos me querem mal) e a posição de culpado (eu fabriquei minha doença porque meu inconsciente é meu verdadeiro inimigo), ambas são chamadas a "explicar" o mal que nos assola, porque, aparentemente, preferimos sofrer de um mal explicado a sofrer de um mal aleatório. Por que isso?



Simples: tanto se eu for a vítima escolhida por Deus e pelo mundo quanto se eu for a vítima de mim mesmo, apesar de doente, eu me manterei nas luzes da ribalta.



Em suma, agimos e pensamos como se nosso sofrimento pudesse ser aliviado por uma compensação narcisista: a desventura é terrível, mas, ao menos, como vítima ou como culpado, sairei na foto. Não é uma consolação?Talvez. Mas é uma consolação custosa, porque, nessa foto em que sou vítima ou culpado, a desventura é o que me define, o que me resume.



De fato, qualquer sofrimento seria um fardo mais leve se ele pudesse aparecer como quase sempre é: um mal sem sentido, que não faz parte de nenhum plano e não é fruto de nenhuma vontade escusa, nem da nossa.



Teste de boa saúde: estamos bem quando podemos ser atropelados sem ter que considerar que alguém tentou nos matar ou que nós mesmos nos jogamos nas rodas do caminhão, empurrados por impulsos inconfessáveis.Um amigo querido morreu de um câncer que ele não fabricou e que não lhe foi imposto nem por Deus nem pelo diabo nem pelos vizinhos. Ele dizia: os males reais são suficientemente graves para que a gente não se esforce para lhes acrescentar mil sentidos imaginários.

quarta-feira, 4 de maio de 2011







No tempo que passei pegando caronas nos EUA, aprendi que a segurança só vem se abrimos mão dela .
Alguns consideram minha mudança para cá, uma viagem sem volta para um país que nunca havia visitado, um ato de coragem, um pulo gigante. Não foi. Foi um passo gradativo, uma extensão de uma década errante.Entre meus 20 e 30 anos, passei muito tempo pegando caronas pelos EUA com a placa: "Qualquer lugar menos este". Vir para cá foi uma separação de um lugar onde nunca me senti em casa.Meus dias na estrada me fizeram sentir seguro sobre como viver no presente. Ao me colocar em uma situação aparentemente insegura por um tempo indefinido e aceitando suas consequências, aprendi a desenvolver uma segurança interior.




O filosofo inglês Allan Watts disse: "O desejo de segurança é uma dor e uma contradição e, quanto mais nós o perseguimos, mais doloroso fica".




Quer dizer, renunciar à compulsão por se sentir seguro torna você mais seguro.Na época das caronas, eu vivia de bicos construindo casas, colhendo maçãs, trabalhando como barman e garçom e lia Watts. Essa jornada incluiu pausas maiores em cinco cidades americanas e europeias antes de chegar ao Rio, o refúgio ideal.O jeito descontraído dos cariocas ajudou a me recuperar de uma cultura mais estressante e competitiva. E, quando vi que podia sobreviver como jornalista freelancer, a pausa virou permanência. Eu tinha 33 anos. Agora, 28 anos depois, ainda sou freelancer.




E viver à margem de uma profissão, como viajar à beira de uma estrada, ensina que a segurança vem de ter fé em si mesmo.



Os jovens de hoje não são aventureiros como no início dos anos 70.Era uma época em que os jovens faziam viagens sem destino, fossem psicodélicas ou quilométricas, para abrir as portas da percepção e da autodescoberta.Hoje, poucos jovens fazem essas odisseias. Uma economia global instável e mais competitiva acelerou as tentativas de entrar no mercado de trabalho.



Muitos conhecem o terno e a gravata antes de conhecerem a si mesmos.



Para alguns, esse processo é um constante e imprevisível ato de autorreinvenção. Eu estudei zoologia e cinema, virei jornalista e depois cronista.



E descobri que você encontra segurança não quando a procura, mas quando aceita os mistérios e as incertezas da vida. Não é uma busca externa, mas uma entrega interna. É a diferença entre passar pela vida e deixar a vida passar por você.

MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 28 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)
Folha equilíbrio/Folha de São Paulo/03/05/2011

domingo, 1 de maio de 2011




"A psicanálise acarretou, como bem disse o próprio Freud, a terceira e talvez mais grave ferida ao narcisismo humano. A primeira foi quando a ciência mostrou que nosso planeta, longe de ser o centro do universo, não constituia senão uma parte insignificante e perdida dentro do sistema cósmico.



A segunda mortificação sobreveio quando a investigação biológica reduziu cruelmente sua pretensão de ser algo especial e único na ordem dos seres vivos: Darwin nos vinculou como um elo a mais na cadeia de evolução da matéria.



...a psicanálise ocasionou aquela que viria a ser talvez a mais profunda de todas as feridas, ao revelar que não somos nem mesmo senhores em nossa própria casa: o inconsciente, como ordem exluída de nosso conhecimento, vontade e controle, nos habita e nos determina, sem que possamos chegar a conhecer , em suas justas dimensões, nem seu quando nem seu de que modo".

Carlos Domínguez Morano- Crer depois de Freud

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"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma." (Lewis Carroll)

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